Sábado, Novembro 22, 2008

A L'Interieur, de Alexandre Bustillo e Julien Maury

O renascimento do cinema francês de terror tem acelerado nos últimos anos, com títulos como Baise-Moi (2000), Dans Ma Peau (2002), Irreversível (2002), Alta Tensão (2003), Eles (2006) e Fronteira(s) (2007), mas nenhum é tão impressionante e inesperado como A L'Interieur. Qual descontrolada montanha russa macabra, este filme não recua perante nada, sugando-nos através de um vórtice de demência com uma frieza implacável. Muito para além de qualquer torture porn americano, este trabalho de laivos góticos é inigualável no seu banho de sangue, de uma audácia e ousadia que não conhecem limites. É a prova de que gore excessivo não é necessariamente um defeito, se for adequadamente explorado.

A história é simples. Na véspera de dar à luz, uma mãe solteira é incomodada por uma mulher que lhe toca à campainha a altas horas da noite a pedir para entrar. A recusa não vai ser tão simples. É um mero pormenor, mas sublime quando nos detemos nele, que a princípio não simpatizemos com Alysson Paradis (irmã de Vanessa Paradis), mas a impenetrável e perturbadora figura de Beatrice Dalle como anjo vingador vai abalar todas as nossas barreiras e fazer-nos torcer por ela até à exaustão.

Primeira obra de Alexandre Bustillo e Julien Maury, com distribuição da Dimension Extreme (uma etiqueta dos irmãos Weinstein da Miramax para albergar títulos bizarros), A L'Interieur é um filme surreal e grotesco, cujo maior feito é manter um pé na autenticidade e o outro enfiado na trituradora. A abertura é imediatamente promissora, quando assistimos a um feto lactante dentro da barriga da mãe e o rosto deste choca subitamente contra a câmara, em resultado de uma paragem brusca. É pena o feto em CGI ser pouco realista (e descabidamente cómico) e a maquilhagem do rasgão no rosto da protagonista não sobreviver aos close-ups, mas esses apontamentos não fazem a menor mossa naquele que é um dos exercícios mais marcantes e estranhamente apelativos do cinema de terror actual.

Jaume Balagueró, realizador de [Rec] (2007), revelou à mítica revista Fangoria o seu interesse em dirigir um remake de A L'Interieur.

A L'Interieur 2007

2 Comments:

Blogger Bala said...

O cinema, enquanto arte visual, tem como último reduto provocar sensações através da imagem.
Neste aspecto, à l’interieur é exímio, com cenas capazes de fazer com que o espectador vire a cara ou, em algumas mais específicas, pare a reprodução.
Os primeiros vinte minutos de filme conseguem transmitir um ambiente de tensão que há já bastante tempo não via num filme, facto que faz com que esta película dê nas barbas a outras com orçamentos muito maiores.
Um ambiente claustrofóbico e uma figura inquietante, cujas motivações são, simplesmente, desconhecidas (uma regra, diga-se, essencial em filmes de terror), contribuem para um ambiente de tensão fabuloso.
De qualquer forma, sempre importará referir que esta parece ser já uma marca dos filmes franceses do género. A título de exemplo, refira-se o filme, também francês, intitulado “Haute Tension”.
Por outro lado, ultrapassada essa fase inicial, começa um verdadeiro banho de sangue, que prossegue numa espiral progressiva, até ao momento derradeiro e deveras horripilante.
Até aqui tudo bem.
Filme aclamado pela crítica. Já li, algures, que é o melhor filme de terror da década, ultrapassando, em alta velocidade, outros filmes de terror, como, por exemplo, “REC”. Aliás, diga-se, em abono da verdade, que é uma pérola para os amantes de cinema extremo.
Parece, contudo, que a crítica, ao contrário do que faz com todos os filmes americanos, se esqueceu de fazer uma abordagem técnica do filme, tentando elevá-lo à condição de obra prima, fechando os olhos a inúmeras falhas. E se outros filmes pecam por ter clichés e falhas no argumento (aliás, está na moda apontar sempre os clichés e as inconsistências do argumento, como forma de retirar credibilidade a um filme, sem haver a mínima preocupação em referir quais, – neste aspecto há que elogiar o autor do blogue, porque de facto tem sempre a preocupação de exemplificar as falhas que encontra -) este também tem falhas.
Senão vejamos:
- Como é que a agressora entra em casa? É um ser sobrenatural e consegue atravessar paredes? Mas já não consegue atravessar a porta da casa de banho?
- O patrão da protagonista, que depois de se aperceber que a fulana com quem tinha estado a falar, não era a mãe da dona da casa, mas sim a pessoa que a tinha estado a incomodar (através da foto), vira as costas à mesma, esquecendo-se da sua presença, sobe as escadas e põe-se de gatas a espreitar para o corredor.
- O polícia que ao imobilizar a intrusa, apenas lhe prende uma mão, deixando-lhe a outra livre. E mesmo admitindo que apenas lhe prendeu uma mão, porque achou que era suficiente, considerando as diferenças de peso e a posição de imobilização, pergunto como é que é possível sair daquela situação tão facilmente, sem partir o braço que está imobilizado. (cont.)

2/04/2010 2:40 PM  
Blogger Bala said...

(cont.)

- O polícia que está no carro, que depois de ouvir tiros dentro da casa, esquece-se de pedir reforços por rádio. Pior, leva o suspeito que está com ele na viatura, pasmem-se, algemado para dentro de uma casa onde se ouvem tiros. E mesmo depois de ver um colega morto, não tira as algemas ao rapaz!!! MAS DÁ-LHE UMA METRALHADORA. E, de passagem, dá uma arma a uma mulher grávida, sem sequer se preocupar em ensinar como é que se dispara. Aliás, a grávida percebe tanto de armas, que, mais à frente, esquece-se dela e prefere defender-se com uma faca e um tubo de aspirador (genial a improvisação da arma).
- O polícia (referido supra) que opta por deixar a mulher grávida sozinha na casa de banho e ir trocar os fusíveis do quadro. De facto, em vez de presumir que fora a intrusa a desligar o quadro, conclui, surpreendam-se, que aquela tinha fugido por uma janela e que se tinha queimado um fusível. Qual especialista em investigação...
- E depois de ter levado uns valentes tiros, levanta-se e, presumo que em condição de morto vivo, faz aquilo que não conseguiu em vida: ligar o quadro. Já agora, esta é uma daquelas cenas que era completamente desnecessária no filme.
- Por último, e quanto à última cena, os cortes nas cesarianas fazem-se por baixo do umbigo e não por cima, uma vez que os bebés não estão no estômago das mães.

- Já ao nível de efeitos, há alguns muito bem feitos (tendo em conta o objectivo de chocar o público) e outros que até dão pena (a cabeça do polícia a rebentar à frente da casa de banho, com um tiro de arma)

Não pensem que não gostei do filme. Gostei e acho que as falhas que detectei ao longo do filme, não chegam para dizer que é um mau filme.

Agora o que não gosto, é que a crítica, quando falo em crítica, faço-o no geral, tenha passado por cima delas, quando por bem menos, e invocando falhas similares àquelas que eu referi, já crucificaram filmes que até tinham alguma qualidade.

Em conclusão: O filme é bom? É. É o melhor filme de terror da última década: Não. Tem falhas: Como todos. É perfeito? Longe disso. É para todos os gostos? Não. Para apreciadores de cinema extremo.
Sou um grande apreciador deste tipo de cinema? Não. Então porquê é que vi o filme e me ponho a fazer críticas ao mesmo? Porque está na moda.

2/04/2010 2:41 PM  

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