Terça-feira, Novembro 04, 2008

Ficheiros Secretos: Quero Acreditar, de Chris Carter

Realizado pelo próprio criador da série, este novo sopro na vida de Mulder e Scully é demasiado ténue para não vir a precisar de respiração assistida. Dez anos após a primeira adaptação cinematográfica (X Files Fight The Future, 1998) e seis desde o fim da série televisiva Ficheiros Secretos (1993-2002), há muito pouco em que acreditar. Encontram-se ausentes as conspirações governamentais, os extra-terrestres e as mitologias que desenvolveram arcos que percorreram temporadas inteiras. Para a troca, apenas um mistério singelo e desapaixonado, num caminho já muitas vezes percorrido. Como episódio-piloto (de uma 10ª temporada da série) não se lhe torceria demasiado o nariz, mas não há em todo o filme um único plano que seja cinema.

O primeiro filme surgiu após a 5ª temporada da série, num período em que a mesma se encontrava no auge (a 4ª temporada foi a mais celebrada), mas desde então houve lugar para as mais penosas aventuras de Scully sem Mulder (raptado por extraterrestres no último episódio da 7ª temporada), e os actores Robert Patrick e Annabeth Gish a não conseguirem fazer descolar novos personagens (temporadas 8 e 9), e a um hiato de seis anos desde o cancelamento. Aparentemente, as linhas gerais do argumento já se encontravam delineadas em 2003, após o cancelamento da série, mas a produção teve de aguardar o desenlace de um processo judicial que Chris Carter moveu à Fox e algumas questões de logística interpessoal. Chris Carter avançou com a possibilidade de um terceiro filme para 2012, se este tivesse sucesso nas bilheteiras.

Escrito pelo próprio Carter e por Frank Spotnitz (colaborador habitual), o argumento é simples e não perde muito tempo a situar os personagens, concentrando-se na trama em questão e atando alguns nós conforme vão surgindo. Funciona como uma espécie de episódio «Monstro da Semana», que é como ficaram conhecidos os episódios que ficavam à margem do arco de conspirações, mas não há material para trincar durante 104 minutos, com o resultado danoso de se ficar demasiado a mastigar. A desilusão assenta principalmente na falta de risco e na banalidade do enigma, na persistência pelo território comum e na inerte interactividade entre os protagonistas, ao que se escusavam máximas bacocas de gente supostamente inteligente como Scully («Não estás a fazer isto para encontrar uma agente do FBI, mas para salvares a tua irmã»). E não há propriamente justificação para o envolvimento de Mulder e ainda menos de Scully, só porque um médium está a ajudar o FBI e querem saber se o indivíduo estará a fingir. Seria isto suficiente para recorrer-se a um ex-agente que nunca teve boa reputação?

Rob Bowman, o realizador de Fight The Future, é uma ausência que se lamenta (Chris Carter apenas dirigiu 10 episódios dos cerca de 200 da série; Bowman dirigiu 33 episódios, Reino de Fogo e Elektra). Convém notar que Carter, apesar de criador da série e de muitos dos seus arcos, provou não ter o toque de Midas. As séries Millenium, The Lone Gunmen e Harsh Realm foram fracassos de audiência. Ficheiros Secretos: Quero Acreditar é um filme vulgar. Aliena os fãs da série que preferiam as intrigas tortuosas que definiram as temporadas mais bem sucedidas (3ª a 5ª) e não dá um novo fôlego à franchise, tanto mais que o ficheiro secreto que investiga quase não o é.

X Files I Want To Believe 2008

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