Sábado, Novembro 08, 2008

Chrysalis – Um Futuro Próximo, de Julien Leclercq

Um dos pais da ficção científica foi o escritor francês Jules Verne, mas no campo audiovisual, nem a televisão nem o cinema franceses têm sido prolíficos nesse género, ao contrário do outro lado do Atlântico, que disseminou Buck Rogers, Flash Gordon e Star Trek pelo pequeno ecrã e explodiu nas telas em 1977 com a imparável saga Guerra das Estrelas. A série Ficheiros Secretos foi transmitida em França com um ano de atraso face aos EUA e o público não compreendeu muitos detalhes da adaptação cinematográfica de 1998. A França não tem comics como os da Marvel, DC ou Vertigo e os preços das bandas desenhadas de Bilal, Moebius, Bourgeon e Mézières são proibitivos. Não há dinheiro em França destinado à ficção científica e até cineastas como Luc Besson e Jean-Pierre Jeunet têm de recorrer a Hollywood.

O cinema francês de ficção científica continua a tentar abrir as asas, mas a cair da árvore como uma maça podre. Chrysalis não é excepção. Foram necessários quatro argumentistas, incluindo o realizador, para chegarem a este exemplo de boçalidade? Um policial futurista com menções a clonagem e a implantes de memória que tropeça a cada passo nos efeitos especiais discretos e nos cenários de frieza impessoal, sem que o recurso à violência estilizada (neste caso, algumas técnicas de kenpo) compense a narrativa inconsistente e demasiado operática.

Chrysalis é um filme tão básico que, apesar dos razoáveis valores de produção ao nível técnico e plástico, dir-se-ia estar perante um típico filme de acção americano, dos anos 90, um veículo não desdenhado por um Jean-Claude Van Damme ou pior, daqueles que a série Z desenvolveu em doses maciças como pano de fundo para artes marciais.

É a primeira longa-metragem de Julien Leclercq, que ainda estraga o pouco que tem com uma montagem confusa, que deixa elementos por explicar e outros que não fazem sentido. Porque Nicolov ataca Hoffmann na casa de banho deste? Como é que se esfumam da casa de banho quando Becker está do outro lado da porta? Onde se insere a curta cena em que Nicolov agride um anónimo amarrado perante um público? E o que dizer de uma história que envolve trocas de memória entre corpos clonados e afinal a existência de dois vilões idênticos não passa de um par improvável de irmãos gémeos?

Falta paixão a este trabalho medíocre. Falta a entrega dos actores que se comportam como autómatos, mas acima de tudo falta um investimento emocional por parte do realizador, que nem nas cenas de combate corpo-a-corpo conseguiu evitar que as coreografias fossem demasiado hirtas e cerebrais. Albert Dupontel, actor que pode ser visto num papel completamente diferente em Paris, de Cédric Klapisch (2008), deveria ter sido melhor aproveitado. Tem o físico para ser uma variação do Jugde Dredd de Stallone (1995), mas parece um boneco de madeira a representar. Melanie Thierry é uma mera cara não especialmente bonita, mas que Matthiew Kassovitz utilizou de seguida no igualmente inclassificável Babylon A.C. e nem Patrick Bauchau, que conhecemos da série Pretender e de A Cela (2000) mas nos esquecemos que entrou na Balada da Praia dos Cães (1987), consegue insuflar vida em Chrysalis.

Por último, atenção ao clímax e a como os heróis não teriam descoberto absolutamente nada do mistério se o vilão não tivesse decidido agir contra toda a precaução e racionalidade e ir enfrentá-los num mero porque sim. Com uma história destas, mais valia um projecto literalmente sem história. E assim se mantém o descrédito na ficção científica francesa.

Chrysalis 2007

4 Comments:

Blogger Renato Passos said...

Ola, gostaria de deixar o que minha opinião. Eu concordo com algumas partes de sua análise sobre o filme Chrisalys, porém descordo em grande parte. Gostei do filme e concordo que não há aquela emoção a ser transmitida a quem assiste, que o filme tem partes não explicadas e inacabadas e que o cinema frances não tem recursos para uma produção concorrente com as produções americanas, porém o que discordo é a base de comparação. Não há como comparar as produções "Hollywoodianas" com uma outra produção não proveniente de lá, são pesos diferentes. Para mim o filme não foi tão ruim assim para receber mençoes como "a maça podre que cai da árvore" e "trabalho medíocre" (quando li a palavra medíocre, soou mais com uma conotação pejoratva do que como uma significante de estar na média).
Quem quiser assistir o filme assista, recomendo, porém devemos lembrar que não é uma produção de Hollywood.

7/06/2011 4:06 AM  
Blogger ArmPauloFer said...

Desta vez tenho de realmente partilhar unicamente da opinião do comentador Renato Passos. Também gostei do filme e mesmo não sendo um filme com o à vontade americano em fazer estas obras, o filme francês afigurou-se para mim como bastante interessante, continha conceitos com ideias para cinema e sente-se que tenta dar algo personalizado. Mas ok, a critica é uma opinião como muitas as há... e cada qual tem a sua.
Já vi o filme há uns anitos pelo TVCine na altura, não o tenho para rever e como tal não posso refutar o que é dito e racionalizado no texto. Contudo, desde que o vi que fiquei com boa impressão do filme por me ter agradado e nestes casos a memória mesmo que vaga, não esquece do feeling global.

3/18/2012 1:02 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Armindo, o que mais gosto em ti é o modo como continuamos amigos, mesmo quando discordamos :)

como podes ver pela data da crítica, também já vi o filme em 2008, pelo que praticamente nada me lembro dele. assim, terei de agarrar-me ao que escrevi na altura. essa é, aliás, grande parte da razão pela qual critico todos os filmes que vejo: para mais tarde saber o que achei de filmes que se me varreram da memória.

para mim, um filme cujo guião ignora a lógica ou tenta passar-me por parvo é o suficiente para me pôr de pé atrás. se, depois, não compensa esse defeito com pontos positivos suficientes, não chega a ser satisfatório.

este filme, como história policial, não podia ignorar o connecting the dots como o faz. é fundamental que um policial faça sentido.

já não me lembro da qualidade dos visuais, mas ler que falta paixão ao realizador e que os actores se comportam como autómatos é também razão para me decepcionar.

entretanto, já estabelecemos em conversas anteriores que há filmes de que realmente gosto e que os enalteço até ao patamar que merecem, este Chrysalis simplesmente não chega à meta. mas haveremos de concordar com outros :)

no prelo, críticas a rosewood lane, a night in heaven, o cavalo de turim, não haverá paz para os malvados (vais ver como digo bem de um filme :P) e a minha semana com marylin.

3/18/2012 10:39 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

e quanto a não poder comparar-se um filme francês com um de Hollywood, é preciso ver que Hollywopod tem todo o tipo de orçamentos e que os japoneses, por exemplo, conseguem desde há mais de uma década visuais extremamente gratificantes feitos completamente em CGI. são é menos conhecidos...

e o que dizer do novo Iron Sky, que demorou seis anos a fazer, e com dinheiros vindos de crowdfunding? é uma produção sueca que, pelos trailers, vai rivalizar com Hollywood na boa.

3/18/2012 10:52 AM  

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