Olho de Lince, de D. J. Caruso
Hollywood faz o inesperado. Depois de Michael Moore (Farenheit 9/11), Paul Haggis (No Vale de Elah), Robert Redford (Peões em Jogo) e Kimberley Peirce (Stop-loss) tentarem mostrar os erros da política externa norte-americana face ao Iraque, à custa de inúmeras vidas de soldados americanos (mesmo quando quer fazê-lo com seriedade, a América vê apenas o seu lado da questão), chega uma fita de alto orçamento pirotécnico a mastigar temas que já estavam presentes em O Inimigo Público e Eu, Robot, agora com pózinhos de inteligência artificial.
A história é uma confusão cheia de buracos de lógica astronómicos, que culminam na inexistência de justificação para a presença da personagem principal feminina (Michelle Monaghan). Para a missão que lhe é reservada não teria sido preferível alguém com dedo mais leve no gatilho (um computador tão avançado não construiu o seu perfil)? O filho dela foi tocar a Washington, mas viajou numa excursão de turma sem encarregados de educação (novamente, a presença dela não se fez sentir).
A ideia inerente ao filme é de um niilismo a toda a prova: se o Presidente dos EUA e outros políticos forem responsáveis pela morte de vidas americanas, devem pagar por isso com a morte. Obviamente que faz sentido, se acreditarmos na pena de morte, e os EUA acreditam. Mas, para agradar ao desmiolado (quero dizer estúpido) público americano, este conceito teve de ser mascarado com um travesti de efeitos visuais e uma trama mirabolante e sem a menor ligação à realidade. O facto deste pedaço de ficção científica ser passado na actualidade torna-o ridículo e absurdo. O que não teria sido mau se o argumento se aguentasse a si próprio, o que claramente não faz, ao pular de inconcebível em inconcebível, com um computador capaz de controlar todos os aparelhos movidos a energia eléctrica, em segundos, onde quer que estejam.
Shia LaBeouf anda novamente à nora de talento, e depois de Transformers e de Caveiras de Cristal, esta é a última idiotice em que se viu envolvido (em Disturbia já trabalhara com o realizador D. J. Caruso). A escolha de Michelle Monaghan deve ter feito algum sentido depois de ter sido casada com Ethan Hunt em M:I 3, mas cada vez traz menos frescura aos seus papeis (Kiss Kiss Bang Bang foi daqueles oásis irrepetíveis). Rosario Dawson, Billy Bob Thornton e Michael Chicklis têm pouco a que se agarrar, e essa é a sua sorte. A voz do computador Aria pertence a Julianne Moore, que preferiu o anonimato da sua participação.
Olho de Lince é pretensioso, abrutalhado e confuso, não cumprindo sequer como entretenimento pipoqueiro, porque a incapacidade de nos fazer conectar com os protagonistas é nula e a rapidez com que se cai de perigo em perigo é tal que não há forma de manter a suspension of disbelief. Tornando-se o bocejo a única reacção possível a tamanha carga de incompetência e amadorismo.
Eagle Eye 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Em algumas coisas tens razão, mas às vezes exiges demasiado dos filmes. O que interessa a quem faz filmes e ainda mais a quem os produz é que rendam nas bilheteiras. Aplica-se uma fórmula: pega-se num argumento quase satisfatório ou medíocre e polvilha-se com efeitos especiais ou elencos de luxo para encobrir a falta de qualidade. Procura-se o entretenimento fácil, um filme que faça pensar pouco e entretenha muito, ou mesmo um filme para quem não quer pensar, mas sim ser entretido. Ás vezes é só isso que o público quer quando consegue ir assistir a um filme no cinema após um dia de trabalho: mera distracção.
mesmo com um filme de acção pipoqueiro temos de exercer alguma exigência, porque senão vale tudo, e no vale tudo apanha-se com porcaria da grossa.
não sou tão exigente como isso, porque os meus padrões para os filmes de acção diferem dos que atribuo a outros tipos de filmes.
entre os meus filmes de acção favoritos encontras Speed e O Rochedo, mas podes verificar em coisas mais própximas como dou abébias quando o filme merece, como é o caso da crítica anterior ao filme Doomsday - Juizo Final, de 2008, e também hás-de reparar que fui favorável ao Hellboy II e à Múmia 3, por exemplo, filmes deste verão. E que considerei como o melhor filme deste verão o Wanted - Procurado, porque o filme realmente me surpreendeu pelo espectáculo montado, independentemente da idiotice do esquema do tear divino que indicava a próxima vítima dos assassinos.
Dito isto, realmente não consegui engolir o Olho de Lince, que é demasiado confuso para começar, estica demasiado a nossa benevolência quando o computador domina, em segundos qualquer artigo eléctrico, como luzes das obras e andaimes que não costumam estar em rede, sendo controlados através de, quando muito, sistemas fechados e offline. como referi, não há a menor justificação para a personagem feminina e de certeza que um computador tão inteligente conseguia matar o presidente sem precisar que um menino tocasse uma certa nota no seu clarinete.
Em filmes de acção eu peço apenas um mínimo, e Olho de Lince nem esse mínimo cumpre.
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