Espelhos, de Alexandre Aja
Alexandre Aja não passa de uma sanguessuga. Encontrou o seu nicho de mercado depois de Haute Tension, o seu segundo filme, ter sido sobrevalorizado devido à escassez de material concorrente na Europa de 2003. Rumou aos EUA para dirigir um remake de Os Olhos da Montanha (Terror nas Montanhas, 2006), escreveu e produziu P2 em 2007 e prepara Piranha 3-D para 2009, remake do original de 1978.
Entre o remake de Terror nas Montanhas e o remake de Piranha, encontrou tempo para dirigir, admirem-se, mais um execrável remake. Baseado no filme sul coreano de 2003 Geoul Sokeuro (Into The Mirrors), de Sung-ho Kim, as mãos incompetentes de Aja investem apenas no óbvio. Enquanto que o filme original não tinha gota de sangue e avançava passo a passo pelo terror psicológico, Aja comporta-se como um elefante numa loja de porcelanas.
História sobre uma entidade sobrenatural que se manifesta através de superfícies reflectoras, Espelhos segue a investigação de um guarda nocturno ao mistério que envolve os espelhos do armazém comercial que vigia durante a noite. Mas rapidamente o problema passa para todos os espelhos e as maldades começam. A investigação é linear e tudo o que não faz sentido é descartado e fica por explicar (por exemplo, como é que o anterior guarda nocturno lhe enviou uma encomenda antes de suicidar-se, quando não poderia saber quem iria substituí-lo?). A conclusão desilude pela sua vulgaridade, especialmente após a descoberta de que o edifício, antes de ser um armazém, era um hospital psiquiátrico. O twist final, ainda que levante muitas questões (para que precisava a entidade de que investigassem por ela o paradeiro de Esseker, quando podia perfeitamente fazê-lo sozinha), é graficamente interessante.
Realizadores há que continuam a apostar unicamente nas imagens choque (a cena da abertura dos maxilares é icónica) e a insistir numa banda sonora repleta de efeitos sonoros cortantes e irritantes (a partitura de Javier Navarrette, quando não abusa desse artifício, serve-se como muleta do quinto movimento da Suite Espanhola de Isaac Albeniz, Asturias, no qual se baseia o tema do genérico, reproduzido ao longo do filme). É um método criticável pela sua vacuidade e imediatez que, infelizmente, continua a ter adeptos.
Kiefer Sutherland foi um ícone em início de carreira. Foi bad boy em Conta Comigo (1986) e vampiro em Os Rapazes da Noite (1987), mas uma avassaladora paixão por Júlia Roberts, que o abandonou no altar, conduziu a uma vida de excessos e à estagnação da sua estrela. A série televisiva 24 (2001-2009) foi o empurrão que precisava, mas as suas escolhas cinematográficas não têm tido grande peso. Em 2006 foi agente secreto com a dona de casa desesperada Eva Longoria em Sentinela e, agora, Espelhos.
Momento em forma de post scriptum para assinalar uma daquelas incongruências absurdas: a dada altura, a entidade tenta afogar a esposa do herói, mantendo a cabeça dela dentro da banheira cheia de água. Para se salvar, ela destapa o ralo e espera que a água seja escoada. Mas como se concebe que a entidade tenha força suficiente para manter a cabeça dela debaixo de água, mas não para voltar a pôr a tampa no ralo, evitando assim o escoamento da água?
Mirrors 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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