Corrida Mortal, de Paul W. S. Anderson
Corrida Mortal tem um único propósito. Encenar uma prova violenta com carros blindados e artilhados e o resto é paisagem. Mesmo com esta encenação tão simples, é uma sorte que Paul W.S. Anderson (Mortal Kombat, Resident Evil e Alien vs. Predator) não se despiste.
Na verdade, são precisamente as cenas atrás do volante as únicas que escapam ao descalabro. Uma vez com os pés em terra firme, assiste-se a uma total ausência de rumo e de carisma por parte de todos os envolvidos, nomeadamente Jason Statham e Joan Allen, os únicos a quem pediremos contas.
A favor de Statham, anti-herói por excelência, está a sua impressionante musculatura, num auge a que já não assistíamos desde Correio de Risco, ano em que nos surpreendeu com o seu primeiro protagonismo (no prato mais baixo da balança fica Crank), após a sua revelação em dois papeis sob a batuta de Guy Ritchie (De Uma Vez Por Todas e Porcos e Diamantes); lamenta-se as suas habilidades marciais não serem aproveitadas nos dois curtos e abrutalhados confrontos físicos que dispensa.
Quanto a Joan Allen, uma actriz que conheceu o apogeu da sensualidade numa idade em que as outras o perdem (Face/Off, Pleasantville, O Lado Bom da Fúria), ou foi finalmente vítima da menopausa ou nem todo o botox é amigo das mulheres; de qualquer modo, a sua expressividade foi de tal modo tolhida que é difícil parecer implacável.
O argumento é tão seco que custa a engolir e ainda faz azia, tanto mais que era escusado ser tão forçado. Um honesto metalúrgico desempregado é falsamente acusado de ter morto a esposa para que seis meses depois dê entrada numa determinada penitenciária onde são promovidas corridas mortais entre prisioneiros e, claro, há uma vaga à espera dele. Agora, ter havido um complot para pôr na cadeia um ex-piloto de corridas que demora seis meses a cumprir-se é demasiado absurdo, quando nem sequer se espera que ele vença a prova. Não havia nenhum outro ex-piloto já dentro de grades que pudesse ser simplesmente transferido? E claro que o verdadeiro assassino encarapuçado da esposa está ali ao alcance de um gesto denunciador.
Filmes há que, para serem verdadeiramente apreciados, aconselha-se deixar o cérebro em casa. No que toca a Corrida Mortal, esse requisito é indispensável. Mas os carros são uma actualização de Mad Max, os condutores rudes e brutais e a adrenalina dos bólides em aceleração é palpável. A banda sonora de Paul Haslinger, compositor austríaco que fez parte dos Tangerine Dream durante cinco anos, quebra a loiça toda com a sua visão electrónica industrial nu metal (foi uma imposição do realizador que a música se fizesse ouvir e uma escolha do compositor retirar inspiração a bandas como Tool e NIN) Apesar de tosco, Corrida Mortal convence a partir do momento em que a chave roda na ignição. A partir daí é só bombar.
Death Race 2008
O Evangelho Segundo Cinéfilo
2 Comments:
Ainda não chegou aqui no Brasil esta refilmagem de "Ano 2000 - Corrida da Morte" de Paul Bartel. Vc assistiu? Um filme B que fez algum sucesso na época.
Abraço
Se a tua pergunta é sobre o Death Race 2000, sim, vi e está comentado neste blogue.
um fartote série z, desempoeirado mas laxante.
ao menos os carros desta vez não parecem feitos de cartolina :D
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