Segunda-feira, Setembro 01, 2008

Kiltro, de Ernesto Diaz Espinoza

O primeiro filme de artes marciais chileno, não é, decididamente, para ser levado a sério. Salada de western spaghetti (a banda sonora homenageia Ennio Morricone e Luís Bacalov) e de artes marciais made in Hong Kong, é rodado na Chilecittà, uma imediata piscadela de olho aos famosos estúdios italianos Cinecittà, mas as piscadelas de olho não se ficam por aí; há também espaço para a série Kung Fu (com David Carradine), Zatoichi (de Takeshi Kitano), Ichi The Killer (de Takashi Miike) e Bad Blood (de Leo Carax).

O protagonista é lerdo e desajeitado e o seu corte de cabelo não ajuda. Está apaixonado mas, apesar de não ser correspondido, passa a vida a agredir os namorados daquela que lhe arrebatou o coração. Esse ponto de partida esbarra com uma história de vingança com vinte anos de preparação, e o alvo dessa vingança é o pai da jovem, um mestre de artes marciais a cuja seita (nome usado no filme) o pai do herói em tempos pertenceu, mas que abandonou em vergonha (pelo menos, ninguém menciona os factos que conduziram a esse resultado). O herói tem de tornar-se num mestre Zeta para poder enfrentar o vilão, mas isso não é nada que não se possa aprender numa tarde.

Miguel Angel De Luca, no seu primeiro papel de cinema, representa impecavelmente o vilão. Mestre de kung fu tsung xiao há três décadas e especialista no uso de katanas e vara, foi alvo de um inacreditável makeover, ao ponto de parecer um galã de novela latina. Quem o tiver visto antes, nomeadamente em demonstrações, nunca acreditará tratar-se da mesma pessoa. Contudo, a rápida montagem e alguma confusão na direcção dos duplos criam a ilusão de que praticamente não se mexe.

O herói (o actor Marko Zaror) dá ares a Gabriel Garcia Bernal, se este tivesse 1,90m e uma musculatura definida. Tem o mesmo ar aluado e distraído, aquela timidez e incerteza no porte. Para além de ter ganho um prémio Taurus como duplo de The Rock no filme Bem-vindos à Selva, assina em Kiltro a coreografia marcial. Infelizmente não é muito bom nisso, o que se torna claro pela rapidez dos combates e pela opção da teatralidade em vez da efectividade. Com apenas três combates dignos desse nome, dois deles são uma confusão de corpos pelo ar, já que o herói luta com multidões de inimigos, e o sangue digital que espirra dos golpes é tão artificial quanto ridículo (Tarantino pós Kill Bill Vol. 1 deve ter-se rido imenso). As sequências de treino são uma desilusão. O herói usa uma lâmina presa aos tornozelos como esporas, mas para poder cortar gargantas com essa arma o único golpe que pode utilizar é o pontapé rotativo, que ao fim de meia dúzia de golpes se torna redundante. É a mesma sensação das joelhadas de Tony Jaa em Ong Bak. A palavra de ordem deveria ser variedade e não repetição.
Para filme de artes marciais, o Chile ainda está muito verde. O realizador Ernesto Espinoza e o actor Marko Zaror já sonhavam com este filme desde os tempos de liceu, onde foram colegas, e em 2007 juntar-se-iam novamente em Mirageman, para uma investida muito pessoal no reino dos super-heróis. Kiltro conta a sua história com uma exagerada lentidão, soltando máximas filosóficas de monge tibetano com prisão de ventre, por entre extensos flashbacks de duvidoso efeito cénico e iluminação inspirada no kitsch de Almodovar. Mas, no meio de todas as suas falhas, a irreverência dos maus cenários e o amadorismo reinante, nem tudo está perdido. Há humor e há visão, ainda que nem sempre seja claro onde é intencional ou acidental. Mas, quando uma mulher se suicida com um tiro na barriga e morre instantaneamente, sabemos que muita coisa foi deixada ao acaso. E o que dizer do herói se despedir dizendo que vai para o norte e vemo-lo caminhar na direcção do sol poente? Penso que essa direcção se chama oeste...

Kiltro 2006

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