Domingo, Setembro 07, 2008

He Was A Quiet Man, de Frank A. Capello

Frank A. Cappello é um realizador desigual. A sua carreira tem apenas três filmes e começou de uma forma discreta mas perfeita. Estreou-se em 1993, com Yakuza Americano, a apresentar uma maturidade absolutamente desarmante no território algo batido das duplas improváveis. À estranha suavidade do filme não foi alheia a etérea direcção de fotografia e a presença magnética de Viggo Mortensen. Dois anos depois, deitaria tudo a perder com No Way Out (1995), que escreveu e dirigiu, filme que marcou a chegada de Russell Crowe a Hollywood, ano em que o actor é recordado unicamente pela sua participação em Rápida e Mortal.

Do hiato entre 1995 e 2007 há apenas a mencionar a participação no argumento de Constantine (2005). O filme foi mal recebido por grande parte da crítica, apesar da sua construção narrativa coerente, sem falhas até à desilusão climática.

He Was A Quiet Man é um filme kamikaze, uma espécie de ou-vai-ou-racha já com as asas em chamas. Escrito por Capello, têm-lhe encontrado a origem em Um Dia de Raiva (1993), de Joel Schumacher (um pobre diabo deprimido entra em parafuso devido ao trânsito caótico da manhã e avança numa linha niilista contra tudo o que encontra pela frente), mas o anti-herói de Procurado (2008) pode muito bem fazer parte da gestação, directamente na banda desenhada de Mark Millar em que se baseou (2004).

Um introvertido e desrespeitado funcionário de um openspace sonha todos os dias em matar aleatoriamente os colegas, atribuindo nomes a cada bala com que carrega o revólver, mas há um dia em que outro na mesma situação se lhe antecipa e o seu instinto de sobrevivência age primeiro. O que se segue é surreal, e inclui um emprego no topo e a rapariga mais bonita da empresa, só que esta agora é tetraplégica.

Christian Slater cimentou a ideia de rebelde contra o sistema desde Heathers (1989), dentro e fora da tela, mas nunca deste modo. A sua farta cabeleira de outrora fez-se meia dúzia de fios, os dentes estão desacertados e o bigode não lhe podia ser mais adverso. Cobarde, ansioso e paranóico, não há nada que não lhe aconteça. Com uma carreira em declínio, Slater agarra-se ao papel de forma consistente. Elisha Cutberth é o interesse romântico (há aqui alguns momentos deliciosos) e William Macy o patrão insondável.

Desequilibrado entre o thriller paranóico e a comédia negra, He Was A Quiet Man despista-se num clímax confuso e insatisfatório, mas ainda assim é uma constante surpresa, nunca se deixando amarrar a estereótipos, antes saltitando de um para o outro numa fuga para a frente. No final, permanece a dúvida quanto ao conceito do filme, sem que ele tenha deixado de ser um desconcertante malabarismo, ao qual não foi alheio Brandon Trost, director de fotografia e técnico de efeitos especiais. Os peixes virtuais do aquário, com os quais o protagonista fala no seu isolamento social, são uma delícia, mas a explosão do edifício onde ele trabalha deixa muito a desejar.

He Was A Quiet Man 2007

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