Terça-feira, Setembro 02, 2008

Alucinado, de Mark Fergus

O primeiro e entretanto único filme de Mark Fergus tem o toque de Midas. A sua história extremamente simples arrebata-nos em poucos minutos e nunca mais nos larga, obrigando-nos a roer as unhas até ao seu desenlace. Uma surpresa inesperada, Alucinado é um pequeno conto que se estica por 97 minutos e nos mantém presos à sua trama, que vai sendo tecida a conta-gotas, mas estruturada sem tempos mortos. O seu tema é a paranóia e a ansiedade derivada da obsessão, e cada pormenor conta. Ou é filmado como se contasse.
Guy Pearce lidera um elenco sólido (Piper Perabo, JK Simmons e William Fichtner fazem as honras) e é incrível vê-lo num papel com um ambiente próximo de Memento, ainda que desta vez a história seja apenas conduzida para diante (nem sequer usa flashbacks). Um bem sucedido vendedor de pavimentos, convencido e intenso, tem um negócio alinhado para melhorar a sua vida, uma paixão e um futuro pela frente. Até que um vidente lhe dá a impressão contrária. A partir daí, começa a olhar por cima do ombro e toda a sua vida se desmorona, ao mesmo tempo que ele procura descobrir de onde virá o destino, e como evitá-lo.
Mark Fergus, responsável pelo argumento (e também pelos de Os Filhos do Homem (2006) e Homem de Ferro (2008)), consegue fazer fluir o que à partida não passaria de uma curta metragem, mantendo o controlo sobre todos os elementos e firmando definitivamente a sua credibilidade mas, infelizmente, o filme é gravemente ferido pelo clímax. O actor Shea Whigham (que só então surge em cena) não está à altura de Guy Pearce e a química entre ambos é nula. Fica a sensação de que o final foi demasiado apressado, condensado e mal apresentado. Em situações normais, tal descuido poderia inquinar todo o projecto, mas a energia, o ambiente e a direcção de fotografia tiveram um condão tal, até esse momento, que se opta por fechar os olhos a esse equívoco, mas não há dúvida de que aquilo que podia ser uma pequena obra de culto sai desprestigiada por essa falta de cuidado. Um mistério é apenas tão bom quanto a sua conclusão e, neste caso, ela é demasiado trôpega. Mais dez minutos de película ter-lhe-iam permitido respirar e a conclusão, por mais óbvia, teria sido aceite sem dificuldades, em vez de custar tanto a engolir.
Se houvesse prémios para o título português mais imbecil, Alucinado fazer-se-ia seriamente ao piso. Isto porque é totalmente inadequado. O protagonista não tem uma única alucinação e o título é enganador. First Snow, ou Primeira Neve, refere-se ao início do inverno. E o herói sabe que até lá estará vivo...
First Snow 2007

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