WALL-E, de Andrew Stanton
Wall-E é o novo desenho animado da Pixar, dirigido por Andrew Stanton, realizador oscarizado de À Procura de Nemo, que conta uma história de amor intergaláctico entre dois robôs, daqui a oitocentos anos. Talvez chamar-lhe de história de amor, apesar da insistência publicitária, seja desproporcional, visto que os dois robôs se comportam no campo sentimental como duas crianças curiosas, mas como um tem nome masculino e o outro feminino, a ideia pegou.
Wall-E é também uma parábola sobre o futuro da humanidade. Depois de a Terra se transformar numa lixeira, os humanos abandonam-na em naves, onde permanecerão durante os 700 anos seguintes. Tão absorvidos nas comodidades da tecnologia, esquecem-se de andar desde que possam ser transportados e do que é o contacto pessoal devido à utilização de ecrãs halográficos, que representam os telemóveis do futuro.
Tecnicamente imaculado, como aliás já se imaginava, dada a experiência da Pixar, Wall-E revela-se apenas como um filme simpático, longe dos largamente mais emocionantes Monstros e Companhia e À Procura de Nemo. Apesar de alguns elementos fortes e até visionários (a ideia apocalíptica do abandono da terra e a transformação dos humanos em baleias amorfas), assiste-se a um sobrepovoamento de gags que apenas funcionam como distracções (especialmente dentro da nave, enquanto Wall-E se acultura ou é perseguido como ameaça) e debilitam a narrativa principal.
Relativamente às gritantes semelhanças entre o aspecto de Wall-E e o do Johnny 5 do filme Curto Circuito (filme de John Badham de 1986, sobre um robô que manifestava características humanas após ser atingido por um relâmpago), tanto ao nível das lagartas com que se locomove como ao do equipamento binocular que basicamente compõe o seu rosto, a resposta do realizador Andrew Stanton foi tão autista como descarada. Disse que baseou o seu pequeno robô na lâmpada do logotipo da Pixar e num par de binóculos que lhe passaram para as mãos num jogo de baseball. O resto será coincidência, suponho.
Nos filmes pós-apocalípticos dos anos 50 e 60, quando os sobreviventes assistiam a um filme ou ouviam uma música, normalmente eram produções de anos imediatamente anteriores à devastação do mundo, ou seja, pertencentes à última geração que habitara a Terra. Por isso, soa inexplicavelmente anacrónico que, num planeta que só será abandonado pelos humanos daqui a 110 anos, um robô encontre, a 800 anos no futuro, objectos que já para nós são antiguidades, como cassetes de VHS com um filme de 1969 (Hello, Dolly!), um cubo mágico ou um Atari 2600 com o jogo Pong (1972). Não teria sido muito mais inteligente mostrar como obsoletos objectos que actualmente são topo de gama, ou ensinar Walle-E a dançar com um DVD actual ou mesmo concebido para o filme (o Johnny 5 do filme Curto Circuito aprende a dançar com os passos de John Travolta em A Febre de Sábado à Noite, mas esse filme era de 1977, apenas nove anos antes, e A Febre de Sábado à Noite é icónico, enquanto que Hello, Dolly!, apesar de ter ganho o Óscar de Melhor Música em 1969, é hoje uma película obscura)? É que já hoje praticamente ninguém tem cassetes de VHS, nem se fabricam cabos para ligar um iPod a um leitor de VHS (onde Wall-E assiste ao filme), quanto mais daqui a 100 anos ou daqui a 800. Em meados dos anos 90, inventou-se uma coisa chamada MiniDisc e já ninguém se lembra do que isso é...
Relativamente ao amigo terrestre de Wall-E, apesar das baratas terem sobrevivido às bombas atómicas de Hiroshima e Nagasaki, é já opinião dominante que este insecto não herdará a Terra; pode sobreviver a um holocausto nuclear, mas morreria em poucos dias devido à fome. E isto traz consigo a questão da mutação. Porque razão terá sido o último presidente americano antes do êxodo representado por um actor de carne e osso (Fred Willard), quando os humanos do futuro são desenhos animados? Terá sido apenas um artifício para a Pixar introduzir essa novidade técnica, já que é a primeira vez que incorpora um actor num filme?
Os robôs comunicam através de bips e o primeiro diálogo humano não se ouve até aos 40 minutos de filme, mas apesar do engenheiro de som Ben Burtt ter o mérito de ter criado a maior parte destes sons, convém não esquecer a sensível e delicada banda sonora de Thomas Newman, verdadeiro personagem omnipresente, e dizer que o compositor se suplanta é um eufemismo. Por outro lado, a voz de Peter Gabriel na canção Down To Earth parece realmente ter 800 anos.
Por último, cabe fazer menção à típica característica bruta americana de “disparar primeiro e perguntar depois”. Que necessidade tinha Eve, um robô-incubadora de plantas, de vir armada para um planeta que se sabia desabitado e de disparar ao menor som inesperado? Se o seu objectivo era encontrar formas de vida, destruí-las não seria contraproducente? Até a história de amor começa sob perigo de morte, visto Wall-E ter sido o seu primeiro alvo.
O Evangelho Segundo Cinéfilo

3 Comments:
Não posso concordar com esta critica.
Achei o filme genial, nomeado para um oscar sem haver dialogo quase nenhum é proeza de poucos.
A banda sonora e a sonoplastia estão brilhantes (nao seria de esperar outra coisa quando a interacção do filme se baseia quase totalmente nelas) e acho mesmo que o oscar arrecadado pelo Batman pelo som foi parar à casa errada.
sou fã incondicional de filmes de animação e este entrou logo para o top 5.
concordo com o exagero da ideia de "amor robotico".
embora perceba o teu ponto de vista em relação aos objectos que ele colecciona serem demasiado "demasiado velhos", sou da opinião que o propósito era o de nos dar a sensação (nós, no século XI)de nostalgia. o impacto não seria tão grande se ele coleccionasse DVDs e Iphones. (temos que nos lembrar que o publico alvo dos filmes pixar continuam a ser as crianças e talvez elas nao percebessem que, após 800, os dvds seriam para o Wall-E como as nossas cassetes VHS são para nós agora).
quanto à Eve e o facto de disparar contra tudo que mexe é apenas uma maneira facil e clara de explicar aos espectadores a sua personalidade vincada e fabricada. e acho que para "alguém" que tem como objectivo resgatar vida de um planeta desconhecido (sim, nesta altura a terra já se tornou desconhecida para os humanos) é legitimo levar armas.
embora ache que não soa a desastre, tambem nao percebo porque puseram uma pessoa de carne e osso a fazer de presidente.
o humor é claramente pixariano, mas é esse o estilo que encanta crianças e adultos há muitos anos, certo?
enfim, são opiniões.
Eu serei sempre a pessoa que se levanta para defender a disney/pixar nem que seja para dizer "ao menos o vestido da princesa era bonito".
(ah espera estou-me a lembrar de uma coisa que gostei menos neste filme: o fim. foi demasiado apressado, feito em cima do joelho, para remediar. pena. :( este facto foi alias vagamente confirmado pelo realizador. ele disse que o filme começou a ser feito sem ainda se ter um final e desconfio que esse facto arruinou a coesão da história)
Não posso concordar com esta critica.
Achei o filme genial, nomeado para um oscar sem haver dialogo quase nenhum é proeza de poucos.
A banda sonora e a sonoplastia estão brilhantes (nao seria de esperar outra coisa quando a interacção do filme se baseia quase totalmente nelas) e acho mesmo que o oscar arrecadado pelo Batman pelo som foi parar à casa errada.
sou fã incondicional de filmes de animação e este entrou logo para o top 5.
concordo com o exagero da ideia de "amor robotico".
embora perceba o teu ponto de vista em relação aos objectos que ele colecciona serem demasiado "demasiado velhos", sou da opinião que o propósito era o de nos dar a sensação (nós, no século XI)de nostalgia. o impacto não seria tão grande se ele coleccionasse DVDs e Iphones. (temos que nos lembrar que o publico alvo dos filmes pixar continuam a ser as crianças e talvez elas nao percebessem que, após 800, os dvds seriam para o Wall-E como as nossas cassetes VHS são para nós agora).
quanto à Eve e o facto de disparar contra tudo que mexe é apenas uma maneira facil e clara de explicar aos espectadores a sua personalidade vincada e fabricada. e acho que para "alguém" que tem como objectivo resgatar vida de um planeta desconhecido (sim, nesta altura a terra já se tornou desconhecida para os humanos) é legitimo levar armas.
embora ache que não soa a desastre, tambem nao percebo porque puseram uma pessoa de carne e osso a fazer de presidente.
o humor é claramente pixariano, mas é esse o estilo que encanta crianças e adultos há muitos anos, certo?
enfim, são opiniões.
Eu serei sempre a pessoa que se levanta para defender a disney/pixar nem que seja para dizer "ao menos o vestido da princesa era bonito".
(ah espera estou-me a lembrar de uma coisa que gostei menos neste filme: o fim. foi demasiado apressado, feito em cima do joelho, para remediar. pena. :( este facto foi alias vagamente confirmado pelo realizador. ele disse que o filme começou a ser feito sem ainda se ter um final e desconfio que esse facto arruinou a coesão da história)
Olá, Angst.
Como percebeste pela data da crítica, já vi esse filme hás dois anos, mas vou rebater os teus pontos de vista só porque sou sofista :)
ser nomeado aos oscares de melhor desenho animado não é uma proeza, é quase uma necessidade. afinal, nessa categoria só competiam três filmes: o wall-E, o Bolt e o Kung Fu Panda. O Wall-E é todo épico, mas ri-me mais com o Bolt. no ano em que os oscares introduziram a categoria das longas de desenho animado, só havia dois concorrentes: shrek e monstros e companhia. quero eu dizer que, havendo tão poucos desenhos animados por ano, seria difícil o wall-e não ser considerado para uma nomeação...
quanto à banda sonora, não me contradisseste, eu disse que o thomas newton, compositor, se suplantou a si próprio. pode não parecer, mas isto é um elogio :P
quanto aos objectos velhos, continuo a achar que teria muito mais graça mostrarem como obsoletos coisas que hoje consideramos topo de gama do que objectos que já hoje são do passado.
o facto de eve disparar antes de perguntar é unicamente uma característica americana. se o filme fosse canadiano, a eve nem estaria armada.
quanto à terra ser um planeta desconhecido, e por isso ameaçador, convém lembrar que um planeta que se abandona sem vida e não tem meios de subsistência para recuperá-la (sem água ou alimento), não apresenta perigo. e de certeza que daqui a 800 anos haverá satélites capazes de detectar vida inteligente. actualmente os satélites já identificam sequências de calor e movimento dentro de edifícios. quero com isto dizer que a eve não deveria estar armada, porque a sua missão era pacífica. além disso, era um modelo, se algo na Terra a estragasse, mandavam outro.
já não me lembro do final. este blog tem mais de 1000 filmes, por isso há pormenores de filmes que vão parar ao meu recicle bin mental.
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