Sexta-feira, Agosto 15, 2008

Viver e Morrer em L.A., de William Friedkin

Antes de ser globalmente identificável como o simpático rato de laboratório Gil Grissom (CSI: Crime Scene Investigation) e um ano antes de apanhar Hannibal Lecter quando ele ainda tinha o rosto de Brian Cox (Caçada ao Amanhecer), William L. Peterson estreou-se como agente secreto numa missão sem quartel para apanhar o responsável pela morte do seu parceiro e mentor, convenientemente assassinado a três dias da reforma.

Apesar da total amoralidade do protagonista, sentimo-nos atraídos por este homem que não olha a meios para apanhar o vilão, não se importa de quebrar a lei, nem sente remorsos por causar a morte de quem se lhe mete no caminho. No seu egocentrismo, não respeita sequer a mulher com quem se deita e da qual extrai informações sob pena de revogar-lhe a liberdade condicional.

Pelo seu lado, o realizador William Friedkin já deixara a sua marca no documentário com o mítico The Thin Blue Line (1966), no policial negro com Os Incorruptíveis Contra a Droga (1971) e no cinema de terror com O Exorcista (1973), mas estava agora desesperado por afirmar-se na década seguinte, o que ainda não acontecera após a comunidade gay americana se alvoroçar em peso contra A Caça (1980) e se ter espalhado numa comédia com Chevy Chase (Negócio do Século, 1983).

Viver e Morrer em L.A. é um filme temerário, decidido a devorar tudo o que encontra pela frente. Michael Mann perdeu o processo por plágio que moveu contra William Friedkin por plágio, mas não há dúvida de que o conceito visual de Miami Vice, desenvolvido por Mann para a televisão em 1984, é patente em muitas cenas de interior, estilo que continuaria a ser utilizado no ano seguinte por Mann em Caçada ao Amanhecer, curiosamente com o mesmo actor principal.

Para além de forçar o público a gostar de personagens sem qualidades morais e de reforçar um estilo estético que acabaria por definir os anos 80, é ainda uma aventura implacável e vertiginosa, que explode numa perseguição automóvel no intenso tráfico dos acessos à cidade dos anjos e em bairros dominados por gangs. O seu clímax é fulminante e arrisca o impensável - o inesperado sobrevivente da fatídica cena no balneário foi uma decisão de último momento entre o realizador e o argumentista Gerald Petievich (que adaptou o próprio livro), assim como o efeito de imitação que o complementa. Afinal, Ronald Regan estava na Casa Branca e Rambo era o herói do momento.

To Live And Die In LA 1985

2 Comments:

Blogger The Nader said...

Excelente análise Ricardo.

8/16/2008 3:12 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

obrigado.

tanto Viver e morrer em LA como Manhunter - Caçada ao Amanhecer são dois filmes que vi no cinema e que marcaram a minha adolescência pela sua qualidade dramática em sede de policial negro.

Não sei se já viste Manhunter, mas trata-se da primeira adaptação do livro Red Dragon, de Thomas Harris, que marca a primeira aparição de Hannibal Lecter (então escrito Lekter). Foi realizado por Michael Mann e tem William Petersen como protagonista, mas a grande curiosidade é que William Friedkin se bateu ardentemente por realizá-lo. Viver e Morrer em LA foi o filme a que se dedicou de seguida. Petersen portou-se bem em ambos os papeis, que são bastante diferentes. E Petersen é muito melhor em Manhunter do que Edward Norton foi em Dragão Vermelho.

Tive a oportunidade de rever o Viver e Morrer em LA e, apesar de muitos o considerarem datado - até pela música pop dos Wang Chung -, o filme aguenta-se mantém a sua aura de ícone reaganista.

8/16/2008 4:14 PM  

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