Domingo, Agosto 10, 2008

Procurado, de Timur Bekmambetov

Procurado é o mais directo descendente de Matrix (o original), revelando-se uma versão hardcore da iniciação de Neo à arte de ser um super-homem, com tortura e sadismo onde antes havia um apelo à inteligência e à racionalidade. O filme baseia-se de modo muito livre na mini-série de banda desenhada homónima de Mark Millar (2004), onde os super-vilões do mundo inteiro compunham uma organização secreta e dominavam a Terra, após terem eliminado todos os super-heróis em 1986 (ano escolhido por marcar a publicação de O Regresso do Cavaleiro das Trevas, Watchmen e Crise nas Terras Infinitas). Nesta realidade negra, um jovem desiludido colarinho branco descobre ser o filho de um super-assassino e que tem os mesmos poderes.

A intenção do realizador Timur Bekmambetov (o mesmo de Guardiões da Noite (2004) e Guardiões do Dia (2006)), agregado ao projecto desde cedo, era a de apresentar a versão inversa à do Homem-Aranha, ou seja, uma pessoa normal que descobre ter super-poderes, mas decide utilizá-los para o mal, em vez do contrário. Infelizmente, depois de três rescritas do guião, por equipas diferentes, essa marca desvaneceu-se completamente. O filme também excluiu a ideia dos super-vilões, ficando-se por uma sociedade secreta de assassinos, predestinados a matar por um sentido de justiça que se baseia na leitura do nome das vítimas, não nas Escrituras, mas num tear tecido pelo próprio Destino.

Uma vez que Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal se revelou patético, Hancock perdeu o gás a meio e O Cavaleiro Negro tomou um registo demasiado realista, Procurado é a grande aventura da temporada. Apesar da total idiotice da visão conceptual de realidade onde os personagens se movem (quem se lembrou da ideia da sociedade de Tecelões tornados assassinos e do tear que escreve sozinho o nome das vítimas só pode ser atrasado mental), Timur Bekmambetov é homem para inverter a situação e se borrifar para as incongruências, fazendo a tela explodir com cenas nunca antes imaginadas e que resultam em pleno, com a adrenalina a pulsar em cada plano e a música de Danny Elfman a fundir-se-lhe na perfeição.

A Danny Elfman, o famoso compositor dos temas dos Simpsons, Donas de Casa Desesperadas, Homem-Aranha e Hulk (entre dezenas de outros), pertence também a voz da canção que se ouve durante o genérico final, The Little Things. O título faz recordar uma frase marcante do filme A Assassina (1993), em que Bridget Fonda, última aquisição de uma sociedade secreta de assassinos, expressava nunca se preocupar com ninharias (I never mind about the little things).

J. G. Jones, grafista da banda desenhada, concebeu os personagens de Wesley Gibson e Fox a pensar em Eminem e Halley Berry, mas o filme presenteia-nos com o baixinho James McAvoy (Expiação) e a esquelética Angelina Jolie. Morgan Freeman e Thomas Kretschmann encerram o círculo, mas é o laçarote do realizador que faz com que tudo funcione, especialmente nos momentos de acção inacreditável, apoiados nos efeitos especiais mais marcantes de que há memória. Procurado dá uma nova definição ao entretenimento bigger than life, de tão temerário e visualmente excitante.

Wanted 2008

4 Comments:

Blogger Isabel said...

Concordo com a tua análise deste filme. Vi o trailer e pensei que fosse daquele tipo de filmes cujas melhores cenas aparecem justamente no trailer, mas ao ver o filme vi que estava enganada. Gostei do que vi e acho que o James McAvoy, ainda que baixo, esteve à altura do desafio, o que lhe fez bem, para tirar a "roupagem" de herói romântico.

8/14/2008 9:39 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

o McAvoy já tinha tirado a imagem do herói romântico quando fez de fauno na primeira Crónica de Narnia :)

Gostei bastante dele no Último Rei da Escócia e na série britânica State of Play, de 2003. Ambos papeis muito pouco românticos :)

No Wanted ele também estava bem apanhado, mais como anti-herói do que outra coisa...

Não vi o trailer e tinha muitas reticências em relação ao filme, mas afinal há surpresas que vêm por bem. Já tinha visto o filme Guardiões da Noite, do mm realizador, que achei em 2005 ser uma grande mistura de efeitos visuais, uma espécie de comprido video ao estilo do marilyn manson, mas com uma história de vampiros muito banal.

8/16/2008 4:46 PM  
Anonymous Anónimo said...

Confesso não ser grande apreciador deste tipo de filmes, mas não me recordo de estar tão irrequieto na cadeira (não no bom sentido) apetecia-me sair a qualquer instante. Não o fiz porque paguei pelo bilhete, e se o fizesse certamente não estaria aqui a comentar.
Não é de forma alguma uma crítica negativa e um contradizer por contradizer, mas confesso não entender a análise que fez a este filme, tendo lido e sendo conhecedor de outras analises (assertivas) que tem feito.

9/01/2008 7:27 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Obrigado pela opinião de que as minhas análises são, em regra, assertivas.

Esta também o foi. Senão, vejamos:

A única situação em que eu poderia compreender que tenha estado irrequieto na cadeira terá sido durante o treino. À primeira vista, parece absurdo, todo ele baseado na tortura e humilhação... mas não é. E não é porquê? Porque não se trata de treino nenhum. Gibson é um isco para apanharem o pai dele. Os "treinadores" estão cheios de ódio porque o pai dele anda a matá-los um a um e querem vingança. E começam por vingar-se no filho.

Das duas, uma. O filme poderia perder completamente a credibilidade com essa situação, ou dar a volta por cima. Acho que dá a volta por cima. É emocionante, as cenas de acção estão filmadas com um savoir faire inacreditável e tudo faz sentido até ao fim.

Eu teria feito algumas escolhas diferentes, como a Fox baixar-se no último momento do tiro rotativo ou os assassinos duvidarem da palavra do chefe quando este diz que lhes salvou a vida. Quem nos mente uma vez, porque não há-de mentir à segunda?

Mas o verão estava a precisar de um filme assim, para desopilar.

Que outros textos meus apreciou, se não é pedir muito?

9/01/2008 8:09 PM  

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