Segunda-feira, Agosto 11, 2008

O Sinal, de David Bruckner, Jacob Gentry e Dan Bush

O Sinal é uma experiência de extremos que merece todos os elogios. Projecto dividido em três segmentos sequenciais, cada um dos quais entregue a um realizador diferente (sendo que o trio partilhou também o dom da escrita), foi capaz de criar, em apenas 13 dias de filmagens e um empenho total, uma cidade em descontrolo homicida generalizado e uma história muito concreta de esmagadora intensidade, temperada a gosto com suspense, aversão e humor negro.

O Sinal é um filme de terror. Sangrento, demolidor, de coração na boca. É também uma história de amor. Projecto conceptualmente inovador, faz escolhas arriscadas e brinca com os sentimentos do público com perícia e minúcia, avançando e retrocedendo num bailado que lhe permite estar sempre um passo à frente.

Sem efectivamente fazer qualquer referência directa à sociedade consumista dos nossos dias, pode ler-se nas entrelinhas, com uma claridade que só é possível ao nível subliminar, como a televisão, a rádio e os telemóveis são meios de controlo e alteração da personalidade, mascarando paranóia com necessidade. E essa crítica é tão mais eficaz quando silenciosa.

Escrito e realizado por David Bruckner, Jacob Gentry e Dan Bush, o filme é de tal modo preciso na sua concepção e acabamento que as três perspectivas ou abordagens se lêem num objecto coeso, complexo e urgente. São películas brilhantes como esta que põem a nu como George A. Romero e os seus zombies já deram tudo o que tinham para dar. O 28 Dias Depois (2002) de Danny Boyle continuará a ser uma referência incontornável, mas O Sinal é mais um passo em frente, e um passo de gigante. O seu trabalho de baralhar e voltar a dar encontra ainda laivos do humor negro britânico de Guy Ritchie e do descaramento imaturo da primeira obra de Peter Jackson, Carne Humana Precisa-se (1987).

O Sinal é um autêntico diamante em bruto, a não confundir com Cell, filme para 2009 de Eli Roth (valha-nos Deus), a partir do romance de 2006 de Stephen King, sobre um sinal emitido pelos telemóveis que transformam as pessoas em zombies. De salientar que O Sinal foi concluído a tempo de ser exibido no Festival de Sundance em Fevereiro de 2007, e está por determinar se os seus responsáveis sabiam do projecto Triângulo, desenvolvido na segunda metade de 2006 pelos cineastas de Hong Kong Tsui Hark, Ringo Lam e Johnny To, com uma história também fatiada em três partes, cada uma delas atribuída a um realizador e argumentistas diferentes, e com a particularidade de não intervenção dos restantes no pedaço que coube a cada um.

A sequência de abertura de O Sinal é um excerto da curta metragem The Hap Hapgood Story, do co-realizador Jacob Gentry, integrado no 48 Hour Film Project de 2003 (com a condição de os filmes a concurso serem filmados em 48 horas). Gentry é o único dos três realizadores que já dirigira (duas) longas-metragens antes desta incursão a três mãos.

Por último, há que salientar o profissionalismo dos actores Anessa Ramsey, Justin Welborn e AJ Bowen, que embarcam de cabeça nesta louvável aventura.

The Signal 2007

4 Comments:

Blogger Tiago Gomes said...

Realmente o Sinal cria-me algumas expectativas, parece um projecto bastante criativo e original.
Agora o que não posso concordar (jamais) é que o Mestre George Romero já deu o que tinha a dar! (aaaah! Sacrilégio!)
Provou que ainda tem muito para dar com o Diário dos Mortos.

8/13/2008 10:21 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

meu caro Tiago, tanto a Terra dos Mortos (2005) como o Diário dos Mortos (2007) são duas incursões de Romero em terra de zombie absolutamente imprestáveis e sem a menor qualidade.

sem falar que Terra dos Motos mais parecia um Resident Evil requentado, o reality TV do Diário dos Mortos não convence a mais célere das alminhas. o filme é mau, os actores são maus e a ideia da câmara ao ombro não passou de um mero gadget sem qualquer mais valia.

a única coisa que mete medo é que Romero pensa em fazer uma sequela do Diário dos Mortos.

se quiseres, podes dar uma espreitadela à minha crítica a esses dois filmes, assim como inúmeros outros filmes de terror, nomeadamente Salem's Lot, The Cottage, O Acontecimento, Alone, Rest Stop, O Orfanato, Silent Night Deadly Night 1 e 2, P2 Zona de Risco, O Olho (remake americano), Rec., Raça Assassina, Nevoeiro Misterioso, Halloeen, Renegados do Diabo, A Casa dos 1000 Cadáveres, Hatchet, O Bosque Maldito, 28 Semanas Depois, os 4 Saw, Cloverfield, 30 Dias de Noite, Ils - Eles, e muitos outros.

O Sinal vale realmente a pena. É criativo, inventivo e muito bem realizado. Maném a tensão e o suspense até ao final e não desilude nem por um instante. e tem violência e gore bastante eficientes.

Quando o vires, diz-me o que achaste. Se quiseres deixar alguns comentários às críticas supra-mencionadas, terei todo o gosto em comparar opiniões contigo.

8/13/2008 10:47 PM  
Blogger Tiago Gomes said...

Definitivamente não estamos de acordo em relação ao George Romero. Ele mantém nos filmes mais recentes o que o tornou célebre, a crítica social. Em a Terra dos Mortos, critica a prepotência da admnistração Bush e em a o Diário dos Mortos, os media (TV, internet, etc) e o fascinio das pessoas por eles. Para além de, falando puramente de terror tem ambos boas cenas e em ambos os casos o argumento é inteligente e bem aproveitado.

Em relação aos outros filmes está aceite o desafio,vou deixar alguns comentários, quando tiver um tempinho disponível.

Já agora também podes ler a minha crítica ao Diário dos Mortos no meu blog.

Um Abraço

8/14/2008 9:22 PM  
Blogger Manu said...

Eu quero a música, akela que a Mya fica escutando no walk man...se alguém souber qual é...agradeço muito!!!
manu.redes@hotmail.com

11/19/2011 12:55 AM  

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