Terça-feira, Agosto 05, 2008

O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan

O realizador de Memento e Insomnia continua ao leme de Batman (nome que pela primeira vez não se lê no título), dando um novo fôlego ao herói que ajudou a recriar em 2005, depois de anos de estagnação da franchise pelo excessivo folclore visual com que Joel Schumacher a rodeara.

Ao nível gráfico, manteve-se a opção de sobriedade e imprimiu-se ainda mais o tom realista, reduzindo-se a espectacularidade ao mínimo e fazendo um correspondente investimento narrativo no tom do policial negro. A própria imagem do super-herói parece substituída pela do duro operacional, um justiceiro que apenas usa máscara e armadura para obter melhores resultados.

Neste âmbito, a concentração de Christopher Nolan é indiscutível. Gotham é filmada com um ambiente claustrofóbico e eléctrico (ao qual não é alheia a banda sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard, que incorporou uma sirene de ataque aéreo à já de si opressiva composição orquestral) e a escolha da cidade de Chicago para as cenas exteriores não poderia ter sido mais acertada. Primeiro, porque é uma cidade largamente associada ao crime organizado (sendo Al Capone um dos seus nomes mais sonantes) mas também pela nítida austeridade arquitectónica. A série Crime Story, desenvolvida por Michael Mann, é disso emblemática (Christopher Nolan já confessou a influência do assalto ao banco de Cidade Sob Pressão (1995), de Michael Mann, no assalto com que abre O Cavaleiro das Trevas). As ruas de Chicago são herméticas e sufocantes e as câmaras inspiram esse medo e destilam-no na tela.


Contudo, na tentativa de trazer Batman para um novo patamar, Nolan cai no excesso. Os vilões incluem Joker, Duas Caras e a Máfia, e o enredo ainda encontra tempo para interligar linhas narrativas entre os diversos vilões, além de Harvey Dent só se transformar em Duas Caras na segunda metade do filme e Batman ter de reprimir uma milícia de imitadores, cidadãos anónimos dispostos a proteger as ruas com máscaras de morcego.

Nesta peça de ensemble, o Comissário Gordon de Gary Oldman tem um pouco mais de tempo de antena do que em Batman Begins, mas são Heath Ledger e Aaron Eckhart quem melhor o aproveita. Heath Ledger, retratando o seu Joker como um psicopata cruel e sem vaidade (o oposto de Jack Nicholson no Batman original de 1989), é a encarnação do mal como sanguessuga da sarjeta e um nemesis à altura, surpreendente em caracterização e carisma; neste seu último trabalho (faleceu aos 29 anos de idade), exibiu claramente a melhor representação da sua vida (para interiorizar o personagem, Ledger viveu sozinho num hotel durante um mês, período durante o qual redigiu um diário com os pensamentos do Joker). Aaron Eckhart (ainda bem que Matt Damon recusou o papel) está igual a si mesmo, o que é invariavelmente positivo; muito este actor tem crescido desde o simpático motoqueiro de Erin Brockovich, que encontrou o seu chi em Obrigado Por Fumar (2005); apenas tenho a criticar a rapidez com que o seu justo Harvey Dent se tornou vingativo e maléfico (além do que metade do corpo queimado não deveria corresponder a um acréscimo de força, pelo que não se percebe como escapa incólume ao acidente rodoviário que vitima Salvatore Maroni). O eterno charme de Eric Roberts está patente na panache com que transporta o seu mafioso e Maggie Gyllenhaall (Katie Holmes recusou 2 milhões de dólares para reprisar o seu papel de Batman Begins) fecha o ramalhete como um apontamento competente, como Michael Caine e Morgan Freeman. Christian Bale pode ser, uma vez mais, irrepreensível como Bruce Wayne, mas fala demasiado através da máscara, tornando ridícula a sua colocação de voz cavernosa. A nova armadura é mais uma de dúzias de variações; permite-lhe rodar o pescoço, mas a fenda no meio do peito oculta a cabeça do símbolo.

Com pouco mais de duas horas e meia de duração, o argumento do realizador e do seu irmão Jonathan (retocado por David S. Goyer, argumentista de Blade e Ghost Rider) controla todos os elementos como um mestre do Grand-Guignol, apresentando uma história concisa e incómoda, dentro da qual não se encontra um instante para suspirar, mas um envolvimento tão grande na construção de uma teia de film noir, sugerida pelo estilo de Batman: Ano Um, banda-desenhada de referência, criada pelo punho do mago Frank Miller (Sin City, 300 e Ronin), faz esquecer que O Cavaleiro das Trevas deveria também ser uma grande e bombástica aventura. Para além da cena em que o Tumbler se transforma em Batpod (uma moto que se solta do interior do veículo artilhado de quatro rodas), está ausente a sensação de bigger than life. Frank Miller não fora tão omisso no Regresso do Cavaleiro das Trevas, graphic novel que precedeu Batman: Ano Um, e que tem o Joker como antagonista. De qualquer modo, foi uma opção de Christopher Nolan que não se deve lamentar, primeiro porque inédita, depois porque foi conduzida com punho de ferro e sem desvios. Mas que faz falta mais acção, lá isso faz.

Fecho com uma piada: Christian Bale será John Connor no próximo Terminator Salvation, mas Harvey Dent é já meio Terminator, pelo menos na maquilhagem.

The Dark Knight 2008

6 Comments:

Blogger Isabel said...

Um dos únicos filmes que vi e revi recentemente. Estou a ficar fã da filmografia de Christopher Nolan. O destino de Batman não podia estar melhor entregue. Também acho ridícula a voz cavernosa do Batman. O Joker é um grande trunfo do filme, provoca reacções em cadeia, é o motor da acção, testa os valores e os limites das personagens. Se deres um pulinho no meu blogue lerás mais palavras de uma espectadora de cinema entusiasmada com o invulgar blockbuster que viu. Cumprimentos :-)

8/14/2008 9:58 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

foste ver duas vezes ao cinema?

eu gostei do filme, mas tenho pena que ele se tenha ficado demasiado pelo policial e pouco pelo filme de aventuras. tirando o assalto que meteu o batpod, não houve nenhum momento de "filme de super-heróis". o bruce wayne é demasiado superficial e o duas caras tem uma transição demasiado rápida. para um filme tão longo, houve muita coisa que apenas ficou meh.

8/15/2008 5:49 PM  
Anonymous Anónimo said...

No geral gostei do filme (também já tinha gostado do primeiro) mas houve uma ou outra coisa que não percebi nem gostei. Uma delas foi o facto de a penthouse do Wayne ser considerada pela Rachel como o lugar mais seguro da cidade quando momentos antes vimos o Joker invadi-la. :S Também não ficou explicado o que aconteceu ao Joker depois da invasão. Vimos o Batman salvar a Rachel da queda. E depois? O Joker continuou a assustar os convidados, fugiu, foi expulso... o quê?

Realmente a mudança de voz do Batman é inexplicável. Como é que uma pessoa muda tanto de voz só por usar uma máscara (comparável àquilo que disseste, de o Duas Caras ficar cheio de força depois de ter sofrido as queimaduras)?? Além disso, quando ele fala com a máscara, dá a sensação de estar profundamente cansado e sem fôlego. Mas olha, a verdade é que gosto daquela voz, é misteriosa e sensual :D

Maggie

12/20/2008 12:58 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

querida maggie,

há realmente diversas incongruências no filme, o que me leva a espantar-me como imensas pessoas podem considerá-lo perfeito, o melhor filme do ano ou das suas vidas.

christopher nolan foi uma boa escolha para transformar o homem-morcego numa espécie de policial negro, mas falha completamente em fazer dele um super-herói. para isso, Procurado é o filme ideal deste verão.

a voz do batman é ridícula, especialmente porque teria sido facilmente dobrada ou aperfeiçoada durante a montagem, como, por exemplo, foi feito no modesto filme Let The Right One In, um filme sueco com uma vampira de 12 anos que teve a criancice da voz dobrada para que fosse menos feminina.

então achas sensual uma voz cansada e sem fôlego? é uma pena que a última coisa que um homem quer fazer depois do sexo seja conversar :D

1/02/2009 9:56 PM  
Blogger Jackie Brown said...

"Faz falta mais acção" ?
Não estou a ver onde..
A sequência do tunel, do interrogatoria, da prisao, do hospital,do arranha céus no final e a propria cena inicial?

Querias mais acção do que isto?..

Cumos

10/22/2009 10:10 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

Tirando a perseguição de mota, mais nenhuma cena de acção fica na memória. o resto é funcional. uma cena de acção tem de ter planeamento, espectacularidade e uma duração mínima.

a acção que batman teve a oferecer, tirando a mencionada, é nil.

4/20/2010 10:32 PM  

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