O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan
O realizador de Memento e Insomnia continua ao leme de Batman (nome que pela primeira vez não se lê no título), dando um novo fôlego ao herói que ajudou a recriar em 2005, depois de anos de estagnação da franchise pelo excessivo folclore visual com que Joel Schumacher a rodeara.
Ao nível gráfico, manteve-se a opção de sobriedade e imprimiu-se ainda mais o tom realista, reduzindo-se a espectacularidade ao mínimo e fazendo um correspondente investimento narrativo no tom do policial negro. A própria imagem do super-herói parece substituída pela do duro operacional, um justiceiro que apenas usa máscara e armadura para obter melhores resultados.
Neste âmbito, a concentração de Christopher Nolan é indiscutível. Gotham é filmada com um ambiente claustrofóbico e eléctrico (ao qual não é alheia a banda sonora de Hans Zimmer e James Newton Howard, que incorporou uma sirene de ataque aéreo à já de si opressiva composição orquestral) e a escolha da cidade de Chicago para as cenas exteriores não poderia ter sido mais acertada. Primeiro, porque é uma cidade largamente associada ao crime organizado (sendo Al Capone um dos seus nomes mais sonantes) mas também pela nítida austeridade arquitectónica. A série Crime Story, desenvolvida por Michael Mann, é disso emblemática (Christopher Nolan já confessou a influência do assalto ao banco de Cidade Sob Pressão (1995), de Michael Mann, no assalto com que abre O Cavaleiro das Trevas). As ruas de Chicago são herméticas e sufocantes e as câmaras inspiram esse medo e destilam-no na tela.
Contudo, na tentativa de trazer Batman para um novo patamar, Nolan cai no excesso. Os vilões incluem Joker, Duas Caras e a Máfia, e o enredo ainda encontra tempo para interligar linhas narrativas entre os diversos vilões, além de Harvey Dent só se transformar em Duas Caras na segunda metade do filme e Batman ter de reprimir uma milícia de imitadores, cidadãos anónimos dispostos a proteger as ruas com máscaras de morcego.
Nesta peça de ensemble, o Comissário Gordon de Gary Oldman tem um pouco mais de tempo de antena do que em Batman Begins, mas são Heath Ledger e Aaron Eckhart quem melhor o aproveita. Heath Ledger, retratando o seu Joker como um psicopata cruel e sem vaidade (o oposto de Jack Nicholson no Batman original de 1989), é a encarnação do mal como sanguessuga da sarjeta e um nemesis à altura, surpreendente em caracterização e carisma; neste seu último trabalho (faleceu aos 29 anos de idade), exibiu claramente a melhor representação da sua vida (para interiorizar o personagem, Ledger viveu sozinho num hotel durante um mês, período durante o qual redigiu um diário com os pensamentos do Joker). Aaron Eckhart (ainda bem que Matt Damon recusou o papel) está igual a si mesmo, o que é invariavelmente positivo; muito este actor tem crescido desde o simpático motoqueiro de Erin Brockovich, que encontrou o seu chi em Obrigado Por Fumar (2005); apenas tenho a criticar a rapidez com que o seu justo Harvey Dent se tornou vingativo e maléfico (além do que metade do corpo queimado não deveria corresponder a um acréscimo de força, pelo que não se percebe como escapa incólume ao acidente rodoviário que vitima Salvatore Maroni). O eterno charme de Eric Roberts está patente na panache com que transporta o seu mafioso e Maggie Gyllenhaall (Katie Holmes recusou 2 milhões de dólares para reprisar o seu papel de Batman Begins) fecha o ramalhete como um apontamento competente, como Michael Caine e Morgan Freeman. Christian Bale pode ser, uma vez mais, irrepreensível como Bruce Wayne, mas fala demasiado através da máscara, tornando ridícula a sua colocação de voz cavernosa. A nova armadura é mais uma de dúzias de variações; permite-lhe rodar o pescoço, mas a fenda no meio do peito oculta a cabeça do símbolo.
Com pouco mais de duas horas e meia de duração, o argumento do realizador e do seu irmão Jonathan (retocado por David S. Goyer, argumentista de Blade e Ghost Rider) controla todos os elementos como um mestre do Grand-Guignol, apresentando uma história concisa e incómoda, dentro da qual não se encontra um instante para suspirar, mas um envolvimento tão grande na construção de uma teia de film noir, sugerida pelo estilo de Batman: Ano Um, banda-desenhada de referência, criada pelo punho do mago Frank Miller (Sin City, 300 e Ronin), faz esquecer que O Cavaleiro das Trevas deveria também ser uma grande e bombástica aventura. Para além da cena em que o Tumbler se transforma em Batpod (uma moto que se solta do interior do veículo artilhado de quatro rodas), está ausente a sensação de bigger than life. Frank Miller não fora tão omisso no Regresso do Cavaleiro das Trevas, graphic novel que precedeu Batman: Ano Um, e que tem o Joker como antagonista. De qualquer modo, foi uma opção de Christopher Nolan que não se deve lamentar, primeiro porque inédita, depois porque foi conduzida com punho de ferro e sem desvios. Mas que faz falta mais acção, lá isso faz.
Fecho com uma piada: Christian Bale será John Connor no próximo Terminator Salvation, mas Harvey Dent é já meio Terminator, pelo menos na maquilhagem.
O Evangelho Segundo Cinéfilo

6 Comments:
Um dos únicos filmes que vi e revi recentemente. Estou a ficar fã da filmografia de Christopher Nolan. O destino de Batman não podia estar melhor entregue. Também acho ridícula a voz cavernosa do Batman. O Joker é um grande trunfo do filme, provoca reacções em cadeia, é o motor da acção, testa os valores e os limites das personagens. Se deres um pulinho no meu blogue lerás mais palavras de uma espectadora de cinema entusiasmada com o invulgar blockbuster que viu. Cumprimentos :-)
foste ver duas vezes ao cinema?
eu gostei do filme, mas tenho pena que ele se tenha ficado demasiado pelo policial e pouco pelo filme de aventuras. tirando o assalto que meteu o batpod, não houve nenhum momento de "filme de super-heróis". o bruce wayne é demasiado superficial e o duas caras tem uma transição demasiado rápida. para um filme tão longo, houve muita coisa que apenas ficou meh.
No geral gostei do filme (também já tinha gostado do primeiro) mas houve uma ou outra coisa que não percebi nem gostei. Uma delas foi o facto de a penthouse do Wayne ser considerada pela Rachel como o lugar mais seguro da cidade quando momentos antes vimos o Joker invadi-la. :S Também não ficou explicado o que aconteceu ao Joker depois da invasão. Vimos o Batman salvar a Rachel da queda. E depois? O Joker continuou a assustar os convidados, fugiu, foi expulso... o quê?
Realmente a mudança de voz do Batman é inexplicável. Como é que uma pessoa muda tanto de voz só por usar uma máscara (comparável àquilo que disseste, de o Duas Caras ficar cheio de força depois de ter sofrido as queimaduras)?? Além disso, quando ele fala com a máscara, dá a sensação de estar profundamente cansado e sem fôlego. Mas olha, a verdade é que gosto daquela voz, é misteriosa e sensual :D
Maggie
querida maggie,
há realmente diversas incongruências no filme, o que me leva a espantar-me como imensas pessoas podem considerá-lo perfeito, o melhor filme do ano ou das suas vidas.
christopher nolan foi uma boa escolha para transformar o homem-morcego numa espécie de policial negro, mas falha completamente em fazer dele um super-herói. para isso, Procurado é o filme ideal deste verão.
a voz do batman é ridícula, especialmente porque teria sido facilmente dobrada ou aperfeiçoada durante a montagem, como, por exemplo, foi feito no modesto filme Let The Right One In, um filme sueco com uma vampira de 12 anos que teve a criancice da voz dobrada para que fosse menos feminina.
então achas sensual uma voz cansada e sem fôlego? é uma pena que a última coisa que um homem quer fazer depois do sexo seja conversar :D
"Faz falta mais acção" ?
Não estou a ver onde..
A sequência do tunel, do interrogatoria, da prisao, do hospital,do arranha céus no final e a propria cena inicial?
Querias mais acção do que isto?..
Cumos
Tirando a perseguição de mota, mais nenhuma cena de acção fica na memória. o resto é funcional. uma cena de acção tem de ter planeamento, espectacularidade e uma duração mínima.
a acção que batman teve a oferecer, tirando a mencionada, é nil.
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