Nancy Drew, de Andrew Fleming
Baseada nos romances de Carolyn Keene, esta primeira abordagem cinematográfica à jovem detective não poderia ter acertado mais em cheio. Primeiro, porque sabe decalcar a personagem para um meio ao qual não está habituada: dos livros para os filmes, claro está, mas também da sua pequena localidade de postal ilustrado para a movimentada cidade de Los Angeles. A transição permite-nos a familiarização às suas excentricidades, ao mesmo tempo em que ela também se habitua às novas redondezas.
O mistério em si é bastante simples e tem algum facilitismo, mas para a idade do público-alvo, o realizador Andrew Fleming encontrou um tom eficaz para veicular a intriga, tanto mais que também se envolveu na escrita do guião. Com aventura, humor e romance, Nancy Drew não deixa nada pelo caminho.
Emma Roberts, filha de Eric Roberts e sobrinha de Julia, foi a escolha perfeita para a heroína. Estranham-se a início as peculiaridades da sua pose, inflexão de voz e atitude rígida, mas como a actriz nunca quebra o figurino, rapidamente nos afeiçoamos a ela.
Um factor delicioso foi a escolha de Laura Harring para o papel de actriz dos anos 70 que está na origem do mistério, já que a actriz ficará sempre na nossa memória como a misteriosa amnésica de Mulholland Drive, de David Lynch, um papel que poderia perfeitamente ter desaguado aqui.
Rachael Leigh Cook é a maior desilusão do elenco. A actriz, que começou a carreira como modelo e fez alguns papeis adolescentes quando ainda o era (Ela É Demais, 1999), tem-se dedicado à televisão desde 2004 e emprestou a sua voz a Tifa Lockhart na versão em inglês das longas metragens de animação Final Fantasy VII (Advent Children e The Dirge of Cerberus) e também dobrou personagens das séries Robot Chicken e Batman Beyond, mas desde Josie and the Pussycats (2001) que ninguém aposta nela. Apesar de votada a 26ª mais sexy do planeta pela revista Stuff em 2002, nas filmagens de Nancy Drew (2006) está anafada e a maior parte do tempo transmite a sensação de nem sequer se ter preocupado em ler o guião.
No cômputo geral, Nancy Drew é um desenvolto filme infanto-juvenil, com uma realização segura de Andrew Fleming e uma história que entretém despreocupadamente e ostenta uma heroína que não se molda a modas, antes lhes sendo desinteressadamente autista. Comos defeitos, tem sido apontada uma grande distanciação da personagem em relação aos livros, que em vez de inteligente se comporta como sabichona, e que os mistérios dos livros eram elaborados e intricados e no filme são tão superficiais como os do Scooby Doo. Não me pronuncio relativamente à comparação livro/filme, mas talvez se angariem novos leitores.
O Evangelho Segundo Cinéfilo

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