Cinderella Man, de Ron Howard
Sem fazer a menor sombra a Rocky (1976) ou a Ali (2001), Ron Howard tentou insinuar-se à Academia de Hollywood em 2005 com o mesmo actor com que em 2001 arrecadou 4 Óscares (Uma Mente Brilhante), esquecendo-se de que já aí Russell Crowe se ficou pela nomeação.
A história do boxer Jim Braddock, que foi um inesperado campeão quando já ninguém dava nada por ele, é plena de tédio e desinteresse. Já dissera Hemingway que alguém não deve achar que uma vivência tem valor simplesmente porque lhe aconteceu a si ou aos seus, mas que é necessário saber escrevê-la. Em relação a Cinderella Man, significará isso que não basta o filme basear-se numa história verídica, mas que deve saber-se retratá-la de modo a que impressione o público. Ron Howard nunca foi homem para saber que semelhante esforço existe e pode ser alcançado, limitando-se sempre a ser apenas honesto na sua abordagem.
Jim Braddock foi mais um de milhões de americanos afectados pela Grande Depressão de 1929, quando o colapso da bolsa de Nova Iorque trouxe a miséria àqueles que nela tinham confiado o seu pé de meia. Com uma mão partida, foi perdendo combate atrás de combate até não passar de uma sombra, mas o seu antigo promotor consegue-lhe um combate simbólico e ele dá tudo por tudo para voltar a singrar. Infelizmente, fora do ringue ficamos com uma persona apagadíssima, com a sempre amadora Renée Zellweger a confundir caretas com representação e Paul Giamatti a ser, como habitualmente, a melhor prenda dos filmes em que entra. Os combates são razoáveis, mas o espaço entre eles custa a passar. Ron Howard não queria fazer um Touro Enraivecido (1980), mas não saberia fazê-lo nem que quisesse.
Nos EUA, apesar das críticas maioritariamente positivas ao filme, o público fez-se tardar, de tal modo que os cinemas recorreram a um estratagema único: as bilheteiras devolviam o dinheiro da entrada se o cliente se declarasse insatisfeito no final. Sem fazerem perguntas.
Cinderella Man 2005
O Evangelho Segundo Cinéfilo
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