Quinta-feira, Agosto 14, 2008

As Crónicas de Nárnia: Príncipe Caspian, de Andrew Adamson

O lema de que em equipa vencedora não deve mexer-se nunca foi tão mal interpretado como no universo das Crónicas de Nárnia. Depois de Guillermo del Toro se mostrar indisponível, devido ao compromisso já assumido com O Labirinto do Fauno, Andrew Adamson (realizador dos dois primeiros Shrek) deu pulos de contente quando lhe ofereceram a adaptação da saga de C. S. Lewis. Em 2005, o mundo ainda ecoava os últimos suspiros pelo fim da trilogia O Senhor dos Anéis e Harry Potter somava êxito após êxito, tanto nas livrarias como nos cinemas, pelo que adolescentes, feiticeiros e criaturas falantes pareciam uma fórmula fadada a resultar. Também o livro Eragon, de 2003, começou a ser adaptado para cinema em 2004. Estava assim criada a convicção de que, independentemente de quaisquer qualidades intrínsecas, o milagre se produziria com As Crónicas de Nárnia: o Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa.

Se alguma coisa pode dizer-se sobre milagres é que estes não são previsíveis. Apesar da injustificada incredulidade, a caravela de Nárnia afundou-se a pique. Os protagonistas não tinham força, a história não aproveitava os elementos ao seu dispor, os efeitos especiais provaram não ser cola que colasse o que nunca esteve inteiro, tanto mais que se tinham esgotado na recriação dos pêlos individuais da juba de um leão.

A Disney, que pensava inicialmente apresentar um filme por cada Natal, deixou passar os de 2006 e o de 2007 em pousio, na esperança de que o tempo trouxesse esquecimento às mentes mais novas (a fantasia mágica Eragon foi um dos maiores fiascos de 2006) e uma campanha publicitária aguçasse o gosto para mais um rebuçado bem embrulhado. Como as mães avisam que não se devem aceitar doces de estranhos, foi mantida a equipa já conhecida do público, tanto ao nível da representação (o rosto directamente identificável) como, e aqui fê-lo contra toda a racionalidade, na realização. Andrew Adamson volta a mostrar que não sabe dirigir actores, conduzir uma trama ou controlar efeitos especiais. Os actores voltam a demonstrar que já tinham sido mal escolhidos da primeira vez e que os novos não lhes fazem sombra.

Se a história do primeiro filme era trôpega, a deste é o descalabro. A trama medievalóide do tio que quer matar o Príncipe (Caspian) para que o seu filho acabado de nascer suceda ao trono está cheia de buracos, tanto mais que o Príncipe, vivo e com as forças de Nárnia do seu lado, podia ter vindo reclamar o seu trono legítimo a qualquer altura, em vez de agir como se o seu reino estivesse contra ele. O tio usurpador agia pela calada, podia ter sido exposto e exilado. A batalha final, não incluída no livro, é um desperdício de pixels. O exército Telmarinos é de tal modo descomunal que perde, por um lado, na credibilidade (no anterior ataque ao castelo, só há meia dúzia de soldados sonolentos, mas de um dia para o outro reúne-se um exército astronómico), e a desproporção face aos rebeldes Narnianos é tão grande que estes nunca venceriam.

As Crónicas de Nárnia: Príncipe Caspian transporta a mesma sensação de falhanço que o seu antecessor. É patente a insegurança dos factores de produção, a falta de organização, a inexistência de um guião bem trabalhado e a ausência de direcção de actores. Apesar da insistência verificada em As Crónicas de Nárnia: o Leão, A Feiticeira e o Guarda-Roupa de que a trama, apesar de filmada nos EUA, se situasse em Inglaterra, na sequela os Telmarinos falam com sotaque espanhol (talvez porque associemos a Idade Média às línguas dos Descobrimentos?), o que é fácil para Sergio Castellitto, Pierfrancesco Favino e Damián Alcazár, mas soa ridículo na voz mal ensaiada do inglês Ben Barnes, precisamente o Príncipe daqueles que carregam o sotaque espanhol. O sotaque irlandês cerrado de Liam Neeson na voz de Aslan, o Leão lendário, ainda mais cliva o contraste.

No final do filme, Aslan informa os dois irmãos mais velhos que nunca mais retornarão a Nárnia porque já aprenderam tudo o que havia para aprenderem. Pergunto-me o que poderão eles ter aprendido e quais as outras mensagens que também não passaram. A única mensagem perceptível de ambas Crónicas é que é preciso despedir muita gente.

Por último, o beijo na boca entre Susan e Caspian, num filme que não perdeu um segundo a tentar acender uma centelha entre os dois, é um completo despropósito. E o que dizer dos constantes gritos de "Por Aslan"? Riscaram tanto o disco que a frames tantos dava vontade de contrapor com gritos de "Por Odin", "Por Crom" e "Por Toutatis"...

The Chronicles of Narnia: Prince Caspian 2008

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