Quarta-feira, Julho 16, 2008

Um Crime Americano, de Tommy O’Haver

História verídica baseada nos depoimentos do julgamento que se lhe seguiu, conta a história de duas irmãs que foram confiadas pelos pais, trabalhadores numa feira ambulante, a uma senhora solteira, mãe de sete crianças, e as provações que passaram nesse lar. Quando o primeiro cheque se atrasou, a senhora levou as meninas para a cave e bateu-lhes com o cinto. Uma vez que isso não ia fazer o cheque chegar mais depressa nem chegar aos ouvidos dos pais, percebe-se que a surra foi pura maldade.

De cena revoltante em cena revoltante, assiste-se ao calvário das meninas naquilo que parece, por parte do realizador, apenas a consumação de fetiches muito mal encapotados, os quais incluem a senhora obrigar uma delas a enfiar uma garrafa na vagina, na presença de todos os filhos. Tais cenas, como todo o filme, são encenadas sem emoção, de forma tarefeira, sem respeito pela psicologia dos personagens ou a servir o menor propósito. Grotescas apesar da inépcia, valerão apenas de inspiração a pedófilos pouco imaginativos e nunca como caução. E isto até o filme escalar ao surrealismo de a adolescente ser fechada na cave, molestada e violentada por inúmeros adolescentes que iam até lá em romaria, gritava tanto que se ouvia no bairro todo mas ninguém tomou uma atitude ou chamou a polícia.

Escrito e realizado por Tommy O’Haver, Um Crime Americano desperdiça o tema moralmente controverso, sem analisar as motivações de nenhum personagem. Parecem todos drones apáticos, incluindo a vítima das agressões, que desde o início se limita a aguentar a violência, sem reagir, sem confrontar, sem dar a conhecer as razões de tamanha servidão.

Sadismo físico e psicológico de baixa estirpe, para quem não tem mais o que fazer do que ficar sentado a ver uma mulher amoral maltratar uma adolescente que foi deixada a seu cargo. Se a intenção do filme for a denúncia, fá-lo sem o menor savoir faire. Mesmo tratando-se de um caso real, o resultado é tão impessoal que não conduz a qualquer reflexão, mas apenas ao esquecimento. Os Friedmans (2003), nos antípodas de Um Crime Americano, é um documentário brilhante, que funciona como denúncia de uma situação bizarra de abuso infantil dentro de uma comunidade americana.

An American Crime 2007

9 Comments:

Anonymous Anónimo said...

se a seguir de cada afirmação tua, escrevesses um simples "acho eu...", seria mais agradável ler-te.

8/19/2008 1:05 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

se a seguir a cada afirmação escrevesse "acho eu...", seria uma valente estopada para o leitor, isso sim, e um completo contra-senso.

o blog tem um autor e está assinado. se a opinião manifestada for a de outrém, aí sim, atribuo-lhe a autoria. de resto, depreende-se de quem é a opinião.

aviso por aviso, também gosto mais de comentadores que se identificam...

8/19/2008 1:15 AM  
Anonymous JULIANA MATTOS said...

Achei um filme especialmente crítico não somente pela violência que foi incansavelmente mostrada,mas também por questoes religiosas tratadas.
Não tem como assistir e ficar indiferente a situação.
O filme foi elaborado com uma linguagem bem seca e realista para que relmente chocasse.
Você sai se perguntando onde está Deus em momentos como este. E tem a certeza que o instinto do ser humano é ruim
O crime não foi só cometido por apenas uma mulher, e sim, por jovens e ainda por crianças.

Não consegui dormir depois de ver o filme.

3/09/2009 7:09 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

somos todos animais e Deus não passa de um conto de fadas.

3/09/2009 7:13 PM  
Anonymous Juliana Mattos said...

Sobre seu posicionamento foi feito de uma forma interessante, mas não concordo. Reflexão eu tive e muita, talvez eu seja mais sensivel e me indigne mais com apelos mais dramáticos.
Com a falta de reação dos personagens com relação as violências sofridas, é absurdo!
Mas procuro entender a sociedade da decada de 60.
Gostei também da forma pela qual a historia foi conduzida, bastante seca, na qual não mostra motivos pelo qual levaram todos a torturarem aquela pobre garota.
pra mim ele me levou a uma conclusão bem prática.
O Homem é ruim, mesmo que ainda aja influência do meio.

* Bom, para este mundo que eu quero descer, esta é a minha conclusão!

3/09/2009 7:27 PM  
Anonymous Juliana Mattos said...

Bom eu ainda prefiro acreditar em alguma coisa.
Se não vou enlouquecer ainda mais...

3/09/2009 7:29 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

a sociedade dos anos 60... nos EUA.

A culpa do estado em que a América estava nessa década é do capitalismo e dos valores castradores da religião e do poder político.

É a pobreza que faz os pais deixarem as filhas com aquela mulher e que faz a mulher enlouquecer. são bocas a mais e dinheiro a menos.

Quanto às violências de tantos contra a menina, não é nada de especial. Nas guerras matam-se milhões. Actualmente, as bombas são feitas para detonarem de grandes distâncias, para que não se veja o que se faz, mas a vontade de destruir e ferir persiste.

mas no filme não se vê nada disso. É um filme sem alma, que se limita a reconstruir o que terá acontecido, sem sem tentar dar-lhe um rosto. E dessa forma é tão real como um Sexta-feira 13.

3/09/2009 7:59 PM  
OpenID DermRach said...

Discordo que o filme seja comparado ao sexta-feira 13. Assim que sua análise foi tão parcial, que me parece que você simplesmente leu a sinopse numa caixa e não de fato viu o filme.

Se o terror subjetivo de não mostrar as marcas da tortura é o que você chamaria de persistente não haver emoções, então existem muitos filmes no mercado que não tendo fundo verídico são até piores que a realidade.

Acho que no fundo, seria até sádico querer que um filme como este tenha emoção. Este fato não é se admirar para um conto de final de semana, foi realidade e tal como o fato real deveria nem ter ido para o cinema. Ha outras formas de tomar atitude contra este tipo de violência.

3/22/2011 1:27 AM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

DermRach, estás louco? «análise tão superficial»? «simplesmente leu a sinopse»? a minha crítica vai ao âmago das diversas questões tratadas pelo filme, não lhe escapa nada.
a comparação feita ao Sexta Feira 13 foi feita num comentário, não na crítica. No texto, a minha comparação foi para com Capturing the Friedmans (2003), muito melhor e um documentário. mas está lá o sentimento que falta a este filmeco de terror, que pode basear-se em factos verídicos, mas é filmado como um filme de terror de 3ª categoria.

3/22/2011 8:29 AM  

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