Um Crime Americano, de Tommy O’Haver
História verídica baseada nos depoimentos do julgamento que se lhe seguiu, conta a história de duas irmãs que foram confiadas pelos pais, trabalhadores numa feira ambulante, a uma senhora solteira, mãe de sete crianças, e as provações que passaram nesse lar. Quando o primeiro cheque se atrasou, a senhora levou as meninas para a cave e bateu-lhes com o cinto. Uma vez que isso não ia fazer o cheque chegar mais depressa nem chegar aos ouvidos dos pais, percebe-se que a surra foi pura maldade.
De cena revoltante em cena revoltante, assiste-se ao calvário das meninas naquilo que parece, por parte do realizador, apenas a consumação de fetiches muito mal encapotados, os quais incluem a senhora obrigar uma delas a enfiar uma garrafa na vagina, na presença de todos os filhos. Tais cenas, como todo o filme, são encenadas sem emoção, de forma tarefeira, sem respeito pela psicologia dos personagens ou a servir o menor propósito. Grotescas apesar da inépcia, valerão apenas de inspiração a pedófilos pouco imaginativos e nunca como caução. E isto até o filme escalar ao surrealismo de a adolescente ser fechada na cave, molestada e violentada por inúmeros adolescentes que iam até lá em romaria, gritava tanto que se ouvia no bairro todo mas ninguém tomou uma atitude ou chamou a polícia.
Escrito e realizado por Tommy O’Haver, Um Crime Americano desperdiça o tema moralmente controverso, sem analisar as motivações de nenhum personagem. Parecem todos drones apáticos, incluindo a vítima das agressões, que desde o início se limita a aguentar a violência, sem reagir, sem confrontar, sem dar a conhecer as razões de tamanha servidão.
Sadismo físico e psicológico de baixa estirpe, para quem não tem mais o que fazer do que ficar sentado a ver uma mulher amoral maltratar uma adolescente que foi deixada a seu cargo. Se a intenção do filme for a denúncia, fá-lo sem o menor savoir faire. Mesmo tratando-se de um caso real, o resultado é tão impessoal que não conduz a qualquer reflexão, mas apenas ao esquecimento. Os Friedmans (2003), nos antípodas de Um Crime Americano, é um documentário brilhante, que funciona como denúncia de uma situação bizarra de abuso infantil dentro de uma comunidade americana.
O Evangelho Segundo Cinéfilo

9 Comments:
se a seguir de cada afirmação tua, escrevesses um simples "acho eu...", seria mais agradável ler-te.
se a seguir a cada afirmação escrevesse "acho eu...", seria uma valente estopada para o leitor, isso sim, e um completo contra-senso.
o blog tem um autor e está assinado. se a opinião manifestada for a de outrém, aí sim, atribuo-lhe a autoria. de resto, depreende-se de quem é a opinião.
aviso por aviso, também gosto mais de comentadores que se identificam...
Achei um filme especialmente crítico não somente pela violência que foi incansavelmente mostrada,mas também por questoes religiosas tratadas.
Não tem como assistir e ficar indiferente a situação.
O filme foi elaborado com uma linguagem bem seca e realista para que relmente chocasse.
Você sai se perguntando onde está Deus em momentos como este. E tem a certeza que o instinto do ser humano é ruim
O crime não foi só cometido por apenas uma mulher, e sim, por jovens e ainda por crianças.
Não consegui dormir depois de ver o filme.
somos todos animais e Deus não passa de um conto de fadas.
Sobre seu posicionamento foi feito de uma forma interessante, mas não concordo. Reflexão eu tive e muita, talvez eu seja mais sensivel e me indigne mais com apelos mais dramáticos.
Com a falta de reação dos personagens com relação as violências sofridas, é absurdo!
Mas procuro entender a sociedade da decada de 60.
Gostei também da forma pela qual a historia foi conduzida, bastante seca, na qual não mostra motivos pelo qual levaram todos a torturarem aquela pobre garota.
pra mim ele me levou a uma conclusão bem prática.
O Homem é ruim, mesmo que ainda aja influência do meio.
* Bom, para este mundo que eu quero descer, esta é a minha conclusão!
Bom eu ainda prefiro acreditar em alguma coisa.
Se não vou enlouquecer ainda mais...
a sociedade dos anos 60... nos EUA.
A culpa do estado em que a América estava nessa década é do capitalismo e dos valores castradores da religião e do poder político.
É a pobreza que faz os pais deixarem as filhas com aquela mulher e que faz a mulher enlouquecer. são bocas a mais e dinheiro a menos.
Quanto às violências de tantos contra a menina, não é nada de especial. Nas guerras matam-se milhões. Actualmente, as bombas são feitas para detonarem de grandes distâncias, para que não se veja o que se faz, mas a vontade de destruir e ferir persiste.
mas no filme não se vê nada disso. É um filme sem alma, que se limita a reconstruir o que terá acontecido, sem sem tentar dar-lhe um rosto. E dessa forma é tão real como um Sexta-feira 13.
Discordo que o filme seja comparado ao sexta-feira 13. Assim que sua análise foi tão parcial, que me parece que você simplesmente leu a sinopse numa caixa e não de fato viu o filme.
Se o terror subjetivo de não mostrar as marcas da tortura é o que você chamaria de persistente não haver emoções, então existem muitos filmes no mercado que não tendo fundo verídico são até piores que a realidade.
Acho que no fundo, seria até sádico querer que um filme como este tenha emoção. Este fato não é se admirar para um conto de final de semana, foi realidade e tal como o fato real deveria nem ter ido para o cinema. Ha outras formas de tomar atitude contra este tipo de violência.
DermRach, estás louco? «análise tão superficial»? «simplesmente leu a sinopse»? a minha crítica vai ao âmago das diversas questões tratadas pelo filme, não lhe escapa nada.
a comparação feita ao Sexta Feira 13 foi feita num comentário, não na crítica. No texto, a minha comparação foi para com Capturing the Friedmans (2003), muito melhor e um documentário. mas está lá o sentimento que falta a este filmeco de terror, que pode basear-se em factos verídicos, mas é filmado como um filme de terror de 3ª categoria.
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