Domingo, Julho 06, 2008

Speed Racer, de The Wachowski Brothers

Desde as corridas de quadrigas nas arenas romanas, sempre existiu um público para as corridas de alta velocidade. Michel Vaillant, de Jean Graton, começou a acelerar no papel em 1957, não parando antes de ter completado duas séries televisivas (uma com actores em 1967 e outra de desenho animado entre 1986-1989) e um filme (2003). Motivada pelo êxito dos desenhos animados Speed Racer (1967) e Wacky Races (1968-70), a Disney pegou no então em voga e hoje mítico VW carocha Herbie logo em 1968 e em 1974, mas corriam os tempos contestatários hippies de Easy Rider e havia igual aceitação para corridas à margem da lei: Vanishing Point (1971, com remake em 1997), Gone in 60 Seconds (1974, com remake em 2000) Smokey and the Bandit (1977) e The Driver (1978). Mesmo filmes de trama intricada são lembrados hoje por uma única cena de perseguição automóvel, como é o caso marcante de Bullit (1968).

A visão de Roger Corman para A Corrida da Morte 2000 (1975) preparou o que seria a era de ouro do género. Os pneus queimaram nos anos 80, com Mad Max a abrir a pista em As Motos da Morte (1979) e O Guerreiro da Estrada (1981), mas A Corrida Mais Louca do Mundo I (1981) e II (1984) (do mesmo realizador de Smokey and the Bandit) compôs um figurino mais directo. Paralelamente, séries televisivas como Os Três Duques (1979-85) e O Justiceiro (1982-1986) tinham bólides como personagens principais.

Tom Cruise abriu a década de 90 a esgalhar numa pista da Nascar e Nicolas Cage dá início ao novo século ao volante de um Ford Mustang Shelby GT500E (o Knight Rider de 2008 é um Shelby GT500KR). Está Tudo Louco (2001) volta a pôr na mesa as corridas no deserto e os irmãos Wachowski, sem nada que fazer desde que a trilogia Matrix esgotou o seu filão, inalaram suficiente monóxido de carbono, directamente desses canos de escape, para se lembrarem de reorquestrar o Speed Racer, criado em 1967, mas que já tivera novos episódios em 1994 e 1998, introduzindo Speed Racer X em 2002, sempre em desenho animado.

As influências mais próximas dos irmãos Wachowski poderão ser o sucesso da trilogia Velocidade Perigosa (2001, 2003 e 2006) e ultrapassar o hype conseguido por Quentin Tarantino o ano passado com Death Proof, ou simplesmente terem achado que poderiam fazer melhor do que a produção de Luc Besson fez com Michel Vaillant em 2003.

Decididos a criarem novamente um mundo novo (depois de Matrix), os irmãos Wachowski visualizaram-no como uma mistura de Hanna-Barbera e Tim Burton, recorrendo ao CGI para a totalidade dos cenários e bólides, com os actores a representarem unicamente contra um fundo verde. A sensação que se tem é a de estar dentro de uma máquina de pinball ou de uma montanha russa, com cores berrantes e um visual demasiado kitsch para ser sofisticado.

Decididamente dirigido a um público infantil, Speed Racer aliena completamente os adultos. As corridas desafiam a gravidade, mas de uma forma nada realista. É difícil seguir os momentos mais intensos das corridas, visto que os carros estão constantemente a deslizarem e a rodopiarem, ultrapassando dificuldades de modo incoerente e facilitista. A maior parte do tempo, estamos dependentes dos comentadores das corridas para perceber quem vai à frente e quem está fora da corrida. A luta próxima do universo Matrix a que se assiste é desinspirada e o outro momento de pancadaria é dado exactamente como no desenho animado, sem a menor seriedade.

Basicamente, Speed Racer não passa de uma fantasia dos irmãos Wachowski que se provou demasiado para as suas capacidades. A nível visual há um descontrolo total entre o que seria eficiente e a trapalhada com que somos presenteados. A nível emotivo, há alguns bons momentos em pista, mas a maior parte dos quais é demasiado confusa para agradar a quem esperava ver uma corrida minimamente (e digo isto já com o máximo de latitude possível) realista. A nível do esqueleto da história, é simplória e previsível, e no final é indesculpável o flashback para a identificação do Racer X, que já se tinha percebido há muito tempo, flashback esse que demonstra (pela sua pormenorização) como o público é tratado como se fosse idiota.

Speed Racer substitui o champanhe da vitória por um pacote de leite. Os momentos com o irmão mais novo de Speed, Spritle, e o chimpanzé da família lembram o pior do Spy Kids. John Goodman parece o seu papel de Fred Flinstone (1994) com outra roupa e Susan Sarandon desmoraliza por não ter uma única deixa inteligente (e não tem muitas, ao todo). Não é só a gravidade que é contrariada em Speed Racer, é também a lógica de se fazer um filme assente em tão pouco. A dada altura, o nome de Alfonso Cuarón esteve apontado para realizar, com Johnny Depp como protagonista (em vez de Emile Hirsch). Rose McGowan (nascida em 1973) ia ser Trixie, a eterna namorada de Speed, mas foi considerada muito velha para o papel, que ficou para Christina Ricci (nascida em 1980). Paira a questão do nome desta personagem, normalmente associado a prostitutas.

Speed Racer 2008

4 Comments:

Blogger Carlos Martins said...

Mas então que estavas à espera do filme?

Era quase como veres um episódio do do Knight Rider com o Kitt e dizeres que não valia porque o carro é à prova de balas e dá saltos com turbo-boost. O filme vem de uma série, tinha que seguir o "historial" da mesma... (ou então ser algo completamente diferente - mas que já não seria um Speed Racer.)

7/11/2008 5:40 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

não sei propriamente ao que te estás a referir com o Kitt sem Kitt, mas se é ao facto dos carros não respeitarem a menor lei da gravidade no Speed Racer, a questão é tão simples como isto: como esperam que sintamos receio pelos perigos na estrada, quando sabemos q o Speed se vai safar de caras?

8/16/2008 5:24 PM  
Blogger Carlos Martins said...

O mesmo se aplica a todos os outros filmes: desde as dezenas de 007, que já sabemos que se safa sempre; a todos os outros filmes em que já se sabemos como vai acabar.

8/16/2008 11:05 PM  
Blogger Ricardo Lopes Moura said...

a questão não está em o herói se safar, mas no safar-se "de caras".

até na luta final entre Neo e Smith na plataforma do metro, o facto de Neo sangrar e ser constantemente agredido adensavam a tensão e o nosso receio por ele, ainda que soubessemos que ele iria acabar por vencer, porque era o herói.

mas em Speed Racer os carros fazem o que querem. como é que vamos recear que o carro do Speed seja abalroado do topo de uma montanha, quando é ele que de repente se atira lá de cima e depois escala metade da montanha a pique? a partir daí, dizemos OK, se ele faz isto, faz qq coisa.

Outro exemplo óbvio será o(s) Rocky(s). Sabemos que ele vai vencer o combate, mas isso não impede que nos sintamos empolgados de cada vez que ele leva na fuça. há suspension of disbelief, mas no Speed a suspension foi deitada às urtigas e é disbelief do início ao fim. E por falar em boxe, também no filme Cinderella Man, o último combate, que demora uns 15 minutos, nos leva a duvidar que o herói consiga vencer, apesar de ser o herói. ficamos na dúvida até ao último instante.

no Speed a coisa é tão levada na brincadeira que nunca chega a haver receio por ele. nem por um instante.

8/16/2008 11:16 PM  

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