Speed Racer, de The Wachowski Brothers
Desde as corridas de quadrigas nas arenas romanas, sempre existiu um público para as corridas de alta velocidade. Michel Vaillant, de Jean Graton, começou a acelerar no papel em 1957, não parando antes de ter completado duas séries televisivas (uma com actores em 1967 e outra de desenho animado entre 1986-1989) e um filme (2003). Motivada pelo êxito dos desenhos animados Speed Racer (1967) e Wacky Races (1968-70), a Disney pegou no então em voga e hoje mítico VW carocha Herbie logo em 1968 e em 1974, mas corriam os tempos contestatários hippies de Easy Rider e havia igual aceitação para corridas à margem da lei: Vanishing Point (1971, com remake em 1997), Gone in 60 Seconds (1974, com remake em 2000) Smokey and the Bandit (1977) e The Driver (1978). Mesmo filmes de trama intricada são lembrados hoje por uma única cena de perseguição automóvel, como é o caso marcante de Bullit (1968).
A visão de Roger Corman para A Corrida da Morte 2000 (1975) preparou o que seria a era de ouro do género. Os pneus queimaram nos anos 80, com Mad Max a abrir a pista em As Motos da Morte (1979) e O Guerreiro da Estrada (1981), mas A Corrida Mais Louca do Mundo I (1981) e II (1984) (do mesmo realizador de Smokey and the Bandit) compôs um figurino mais directo. Paralelamente, séries televisivas como Os Três Duques (1979-85) e O Justiceiro (1982-1986) tinham bólides como personagens principais.
Tom Cruise abriu a década de 90 a esgalhar numa pista da Nascar e Nicolas Cage dá início ao novo século ao volante de um Ford Mustang Shelby GT500E (o Knight Rider de 2008 é um Shelby GT500KR). Está Tudo Louco (2001) volta a pôr na mesa as corridas no deserto e os irmãos Wachowski, sem nada que fazer desde que a trilogia Matrix esgotou o seu filão, inalaram suficiente monóxido de carbono, directamente desses canos de escape, para se lembrarem de reorquestrar o Speed Racer, criado em 1967, mas que já tivera novos episódios em 1994 e 1998, introduzindo Speed Racer X em 2002, sempre em desenho animado.
As influências mais próximas dos irmãos Wachowski poderão ser o sucesso da trilogia Velocidade Perigosa (2001, 2003 e 2006) e ultrapassar o hype conseguido por Quentin Tarantino o ano passado com Death Proof, ou simplesmente terem achado que poderiam fazer melhor do que a produção de Luc Besson fez com Michel Vaillant em 2003.
Decididos a criarem novamente um mundo novo (depois de Matrix), os irmãos Wachowski visualizaram-no como uma mistura de Hanna-Barbera e Tim Burton, recorrendo ao CGI para a totalidade dos cenários e bólides, com os actores a representarem unicamente contra um fundo verde. A sensação que se tem é a de estar dentro de uma máquina de pinball ou de uma montanha russa, com cores berrantes e um visual demasiado kitsch para ser sofisticado.
Decididamente dirigido a um público infantil, Speed Racer aliena completamente os adultos. As corridas desafiam a gravidade, mas de uma forma nada realista. É difícil seguir os momentos mais intensos das corridas, visto que os carros estão constantemente a deslizarem e a rodopiarem, ultrapassando dificuldades de modo incoerente e facilitista. A maior parte do tempo, estamos dependentes dos comentadores das corridas para perceber quem vai à frente e quem está fora da corrida. A luta próxima do universo Matrix a que se assiste é desinspirada e o outro momento de pancadaria é dado exactamente como no desenho animado, sem a menor seriedade.
Basicamente, Speed Racer não passa de uma fantasia dos irmãos Wachowski que se provou demasiado para as suas capacidades. A nível visual há um descontrolo total entre o que seria eficiente e a trapalhada com que somos presenteados. A nível emotivo, há alguns bons momentos em pista, mas a maior parte dos quais é demasiado confusa para agradar a quem esperava ver uma corrida minimamente (e digo isto já com o máximo de latitude possível) realista. A nível do esqueleto da história, é simplória e previsível, e no final é indesculpável o flashback para a identificação do Racer X, que já se tinha percebido há muito tempo, flashback esse que demonstra (pela sua pormenorização) como o público é tratado como se fosse idiota.
Speed Racer substitui o champanhe da vitória por um pacote de leite. Os momentos com o irmão mais novo de Speed, Spritle, e o chimpanzé da família lembram o pior do Spy Kids. John Goodman parece o seu papel de Fred Flinstone (1994) com outra roupa e Susan Sarandon desmoraliza por não ter uma única deixa inteligente (e não tem muitas, ao todo). Não é só a gravidade que é contrariada em Speed Racer, é também a lógica de se fazer um filme assente em tão pouco. A dada altura, o nome de Alfonso Cuarón esteve apontado para realizar, com Johnny Depp como protagonista (em vez de Emile Hirsch). Rose McGowan (nascida em 1973) ia ser Trixie, a eterna namorada de Speed, mas foi considerada muito velha para o papel, que ficou para Christina Ricci (nascida em 1980). Paira a questão do nome desta personagem, normalmente associado a prostitutas.
O Evangelho Segundo Cinéfilo

4 Comments:
Mas então que estavas à espera do filme?
Era quase como veres um episódio do do Knight Rider com o Kitt e dizeres que não valia porque o carro é à prova de balas e dá saltos com turbo-boost. O filme vem de uma série, tinha que seguir o "historial" da mesma... (ou então ser algo completamente diferente - mas que já não seria um Speed Racer.)
não sei propriamente ao que te estás a referir com o Kitt sem Kitt, mas se é ao facto dos carros não respeitarem a menor lei da gravidade no Speed Racer, a questão é tão simples como isto: como esperam que sintamos receio pelos perigos na estrada, quando sabemos q o Speed se vai safar de caras?
O mesmo se aplica a todos os outros filmes: desde as dezenas de 007, que já sabemos que se safa sempre; a todos os outros filmes em que já se sabemos como vai acabar.
a questão não está em o herói se safar, mas no safar-se "de caras".
até na luta final entre Neo e Smith na plataforma do metro, o facto de Neo sangrar e ser constantemente agredido adensavam a tensão e o nosso receio por ele, ainda que soubessemos que ele iria acabar por vencer, porque era o herói.
mas em Speed Racer os carros fazem o que querem. como é que vamos recear que o carro do Speed seja abalroado do topo de uma montanha, quando é ele que de repente se atira lá de cima e depois escala metade da montanha a pique? a partir daí, dizemos OK, se ele faz isto, faz qq coisa.
Outro exemplo óbvio será o(s) Rocky(s). Sabemos que ele vai vencer o combate, mas isso não impede que nos sintamos empolgados de cada vez que ele leva na fuça. há suspension of disbelief, mas no Speed a suspension foi deitada às urtigas e é disbelief do início ao fim. E por falar em boxe, também no filme Cinderella Man, o último combate, que demora uns 15 minutos, nos leva a duvidar que o herói consiga vencer, apesar de ser o herói. ficamos na dúvida até ao último instante.
no Speed a coisa é tão levada na brincadeira que nunca chega a haver receio por ele. nem por um instante.
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