Domingo, Julho 06, 2008

Obsessão Mortal, de Andrew Lau

Um agente do departamento de Segurança Pública, cuja função é monitorizar dezenas de predadores sexuais em liberdade condicional na sua jurisdição, leva a profissão tão a peito que está a duas semanas da reforma compulsiva. Incapaz de conviver com a impotência, ele provoca e aterroriza aqueles a seu cargo. Ele pretende mostrar-lhes que não têm imunidade e que está de olho neles a todo o tempo. Na tentativa de endurecer a sua inexperiente substituta, decide investigar o desaparecimento de uma jovem de 17 anos na sua área de intervenção, que ele acredita ter sido obra de um dos predadores que tem à sua guarda.

Obsessão Mortal começa por ser apelativo e convincente. O tema é inesperado e a sua atitude é de confrontação, com um herói determinado mas ambíguo e conflituoso. Há predadores sexuais entre nós e este homem é a única barreira entre eles e nós. Ele é incansável na sua perseguição, mas os seus dias de justiceiro estão a terminar. Identificamo-nos com a sua obsessão e com o seu desejo e proteger os inocentes dessas criaturas que, mais do sexo, se saciam na tortura e no sadismo.

Infelizmente, o filme desce rapidamente do pico e perde-se demasiado no acessório, sem coragem de aprofundar as questões que aborda. Os predadores são apresentados como seres dissimulados e incapazes de cura, todos aqueles que Gere provoca se revelam culpados, a personagem da novata é tratada como parte do cenário, de tão plana que é, e nos últimos vinte minutos a história muda tão drasticamente que parece outro filme. A cena climática tem, inclusivamente, reminiscências descaradas de Se7en: uma paisagem de deserto agreste, alguém de joelhos, outro armado e um terceiro a interceder pelo criminoso.

Ao assinar a realização como Andrew Lau, fica patente a consciência de Wai Keung Lau da sua própria inépcia. O homem responsável pela trilogia Infernal Affairs (cujo remake americano é The Departed, de Martin Scorcese), comete demasiados equívocos, nomeadamente na conjugação de diferentes tipos de trabalho de câmara, entre os quais abunda a sobreposição e separação de imagens em rápida sucessão (obtendo-se uma imagem sacudida, como de um disco riscado), tentando estilizar algo que de resto funciona como um thriller da linha dura. Alguns cenários são demasiado estereotipados na sua tentativa de construir imagens sugestivas de antros de vício. Para a carreira do realizador chinês, foi um tiro no pé.

Pelo contrário, para Richard Gere, Obsessão Mortal é mais uma prova de que, depois de anos de estagnação e dormência, continua a redescobrir-se como actor, com Golpe Quase Perfeito (2006) e Na Sombra do Caçador (2007) a marcarem o seu regresso à boa forma. Claire Danes continua a dar sinais de que deveria ter escolhido outra profissão e Avril Lavigne consegue estragar a curta cena em que aparece (e onde praticamente não abre a boca). Matt Schulze continua o mesmo brutamontes tipificado que o caracteriza desde Velocidade Perigosa (2001). KaDee Strickland, no entanto, faz um excelente trabalho, a raiar extremos com convicção e naturalidade, sendo capaz de mover-nos na direcção que quer (e prova que há loiras que ficam melhor morenas).

Em suma, Obsessão Mortal é um drama intrigante, mas cuja construção se desnorteia, desperdiçando oportunidades e recorrendo a estereótipos. Graficamente, explora demasiados artifícios que não funcionam em conjunto. Enrique Chediak é um excelente director de fotografia para o género criminal, mas muito do seu trabalho sai desgastado na montagem. A banda sonora de Guy Farley é discreta, num tom próximo dos Tomandandy.

The Flock 2007

0 Comments:

Enviar um comentário

Links to this post:

Criar uma hiperligação

<< Home

hit tracker