Segunda-feira, Julho 06, 2009

Sunshine Cleaning, de Christine Jeffs

De forma discreta e cativante, Sunshine Cleaning vive do contraponto das desilusões e esperanças de alguém que se recusa a cruzar os braços, mesmo quando tudo parece estar a puxá-la para baixo. Rose é uma mãe solteira que faz limpeza ao domicílio e se deita com o antigo namorado do liceu, actualmente casado com outra mulher, numa pequena e cinzenta localidade do interior, mas sonha com algo melhor. No meio de tanta frustração, em vez de se dar por derrotada, ingressa numa nova profissão: limpeza de locais de crime, para a qual arrasta a irmã.

É neste ambiente que a encontramos, a tentar crescer como pessoa e como profissional, pela mão de Christine Jeffs, que trata com carinho o argumento de Megan Holley e os seus personagens; pelo menos das duas irmãs, interpretadas por Amy Adams e Emily Blunt (inicialmente estavam associadas ao projecto Ashley Judd e Zooey Deschanel), porque os restantes ficam demasiado pela rama, quase nem se destacando da paisagem. Alan Arkin (Little Miss Sunshine e Marley & Eu), como sempre, dispensa ajuda para construir um registo consistente, mas o vendedor de produtos de limpeza (Clifton Collins Jr) merecia melhor sorte.

Megan Holey, a argumentista, após sete anos de montagem de filmes sobre segurança no trabalho, comprou uma câmara de vídeo Super 8 por cinco dólares e começou a criar as suas próprias curtas. O sucesso em pequenos festivais da sua curta Snowflake Crusade motivou-a dedicar-se mais à escrita, tendo o resultado sido este Sunshine Cleaning, no qual começou a trabalhar em 2001, por ocasião do boom das séries CSI. Mas, ao contrário do tecnicismo dos analistas da TV, Holley não se prendeu com os materiais de limpeza industrial usados, mas com o lado emocional e humano da profissão, a reverência em relação ao desgosto das famílias da vítima e em deixar o menor impacto possível no local.

Christine Jeffs é co-fundadora da produtora de cinema neozelandesa Girl Film Company e realizadora de Rain (2001) e de Sylvia (2003). Graças a ela, este pequeno drama familiar agri-doce, cheio de simplicidade, consegue valorizar a classe trabalhadora que luta contra a miséria e dá-lhe, de pleno direito, a esperança de felicidade.

Sunshine Cleaning 2008

Gabriel, de Shane Abbess

Segundo a teologia judaica, Deus disse Faça-se Luz e o interruptor acendeu a Estrela da Alvorada, leia-se Lúcifer. Quando este, o primeiro Anjo, se rebelou contra Deus, foi Gabriel quem fez queixa dele e Miguel quem o escorraçou do Céu. Os Arcanjos (anjos principais) presidiam a coros e eram entre nove e quinze, mas o Catolicismo baseado no Antigo Testamento reduziu-os a quatro (Miguel, Gabriel, Rafael e Uriel). As igrejas Protestantes mencionam apenas três (Lúcifer, Miguel e Gabriel). As Testemunhas de Jeová invocam haver apenas um, Miguel, pois a Bíblia usa só o termo no singular, e Miguel é identificado como Jesus Cristo. Na Cabala, os arcanjos são sete e Lúcifer não se encontra entre eles. No Islão, são cinco e incluem Lúcifer. Este preâmbulo poderia ajudar a compreender o filme em mãos, mas o argumento de Matt Hylton Todd faz tábua rasa de toda a mitologia e inventa uma miserável cowboyada de pistoleiro solitário que vem limpar a cidade do pecado.

O vilão do filme é Samael, identificado como o Anjo da Morte nas tradições judaicas (foi ele quem desposou Lili, depois de Adão a ter rejeitado, e copulou com Eva, sendo pai de Caim). Nas tradições canónicas cristãs, Samael é Lúcifer, derrotado por Miguel durante a revolta contra Deus e tombado no Inferno. Mas Gabriel está decidido a contar a história à sua maneira, e logo um narrador se antecipa à primeira imagem para se explicar. Só que, por mais ridículo que pareça, até a inventar o argumentista vai meter os pés pelas mãos, nem sequer atingindo lógica interna.

Temos o Céu, o Inferno e o Purgatório. No Purgatório ficam as almas dos humanos que nenhum dos dois lados quer, mas ocasionalmente lá surge um que merece atenção. Ambos os lados mandam um enviado para ir buscá-lo e o lado que ganhar, leva-o. Há sete Arcanjos e sete Caídos (em Desgraça?) e apenas um de cada é enviado para lutar por essa alma humana. Desta vez, cabe a vez a Gabriel. Mas, conforme a história se desenvolve, verificamos que Gabriel não anda atrás de nenhuma alma humana, nem o Inferno lançou nenhum Caído para o mesmo efeito. Pelo que se percebe, todos os Caídos estão já no Purgatório e até os outros seis Arcanjos, que se escondem nas sombras com medo da vingança dos Caídos, que governam a podridão do Purgatório. À falta do Clint Eastwood num cavalo branco, são distribuídas gabardinas pretas do guarda-roupa de O Corvo (1994) e lentes de contacto com diversos efeitos de pigmentação.

Desértico desperdício de película vindo da Austrália, Gabriel não faz mais do que evidenciar a mais atroz falta de talento. Videoclip de baixo orçamento (o filme inteiro custou apenas 150 mil dólares australianos) e uma presunção que raia o ridículo, é duvidoso que parecesse interessante até no papel. Escrito e realizado por um estreante em ambas funções e com actores inexperientes, nota-se uma total falta de orientação, com monólogos inesgotáveis a repisar pontos que nem ao mais desatento teriam passado despercebidos, elaborados na onda das mais vulgares letras de canções heavy metal, cenas de acção muito espaçadas e dignas de bocejo, com seres que são mais rápidos do que balas mas mesmo assim andam aos tiros uns aos outros. Aliás, haverá algo mais tacanho do que anjos e demónios a tentarem matar-se com armas automáticas? Sim, Underworld (2003) esgotou esse filão rapidamente. Gabriel não sai prejudicado se for visto em fast forward. Pelo contrário.

Gabriel 2007

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Rebeldes do Bairro, de Lexi Alexander

A primeira longa metragem de Lexi Alexander surgiu após uma curta sobre boxe e anúncios desportivos seus terem sido premiados. Esta ex-campeã alemã de kickboxing vendeu o argumento à Odd Lot e fez figas para que lhe dessem a realização, o que veio a concretizar-se meses mais tarde. Em vez de desporto, aqui o tema é a violência das claques de futebol inglesas e o hooliganismo como ponto de honra.

Segundo Alexander, essa violência não passa sequer pelo apoio à equipa respectiva, mas por bairrismo agressivo puro e simples, uma espécie de Fight Club institucionalizado para grupos. Em dias de jogo, os membros da claque preparam-se para o confronto, que pode inclusivamente chegar antes da partida. É um sentido de hegemonia animal, uma vontade de andar à pancada e poder gabar-se no bar local que o sangue jorrou mais do outro lado, preferencialmente quando se encontravam em minoria numérica.

Apesar da fraca originalidade da história, que vai beber demasiado (e sem autorização) ao conto semi-autobiográfico The Gang, de Harlan Ellison, Rebeldes do Bairro aguenta-se como uma história de lealdades e traições de telenovela, com a consistência de uma pluma e sobrevivendo ao grande amadorismo na filmagem dos confrontos, onde se nota que praticamente todos os golpes são dados a uma distância segura do agredido. Isso dirá muito sobre a competência do personal trainer Pat E. Johnson, que supostamente terá coreografado as cenas e treinado os actores. Os personagens são tratados com profundidade suficiente para que o companheirismo não seja forçado e as emoções soem verdadeiras e os actores deixam transparecer essa naturalidade, especialmente Charlie Hunnam. Elijah Wood não desmerece e Claire Forlani é sempre uma presença bem vinda.

Um suposto ode à violência que resulta em cautionary tale (a advertir contra o mais básico instinto de superioridade pela força) e termina com a ideia de que se deve nivelar a racionalidade com uma dose medida de agressividade, Rebeldes do Bairro preparou o terreno para que Lexi Alexander realizasse em 2008 uma reimaginação de The Punisher, o mais negro vigilante da Marvel (com resultados insatisfatórios, mas não foi uma produção livre de atritos).

Green Street Hooligans 2005

Sublime, de Tony Krantz

A Raw Feed continua a editar lixo. Depois de Rest Stop 1 e 2, o trio Shiban, Myrick e Krantz produz um filme que só poderá ser impressionável a hipocondríacos. Enésimo exemplo do mito urbano em que um paciente que entra num hospital para uma operação de rotina e vê os seus problemas aumentarem exponencialmente, com o seu estado a degenerar diariamente e a assistir a diversas experiências inexplicáveis... que afinal não passam de um pesadelo.

A história é mal conduzida desde o início (e os flashbacks não ajudam – quantos flashbacks aguenta este filme?). Quando a colonoscopia de rotina é substituída por uma simpatectomia torácica, ainda pomos em dúvida o que virá a seguir, mas a amputação de uma perna é demais. Intuímos imediatamente, tanto mais que ninguém parece ter uma reacção normal ao sucedido, que a história aponta para o que em BZ (1990), de Adrian Lyne, foi um golpe de génio, mas que entretanto se transformou num recurso laxativo de argumentistas preguiçosos que não sabem como concluir uma história.

O guião de Erik Jendresen é preguiçoso e estereotipado, a testar os limites de tolerância à estupidez. Anedótico e pouco convicto, com a medicação de embrutecimento do paciente a ser receitada igualmente ao público. Não interessa se é sonho ou realidade, nem um nem outro conseguem manter os padrões mínimos de entretenimento.

Tom Cavanagh (Ed), com os seus honestos olhos azuis, defende o papel principal com estoicismo e dignidade, mantendo-se credível entre flashbacks e imbecilidade hospitalar. Entre os actores secundários encontramos Kathleen York (West Wing), Paget Brewster (Huff e Mentes Criminosas), George Newberry (Providence, Reunion e dezenas de outras séries) e Lilyan Chauvin, a velha madre do Silent Night Deadly Night, como enfermeira.

Sublime 2007

D.E.B.S., de Angela Robinson

Anjos de Charlie em formato colegial, de blusa branca e minissaia escocesa, as D.E.B.S. são jovens espias desejosas de mostrarem o seu valor nos casos mais espinhosos e perigosos. Não que o filme se rale muito com isso, já que à primeira curva rápida se entra no campo da comédia romântica, com a espionagem como mero pano de fundo. O que é uma excelente notícia, tanto mais que o elenco dispensa, quase em exclusivo, homens, e as bocas que se beijam também.

Baseado na homónima curta metragem de 2003, Angela Robinson (uma afro-americana com ar de sapatona) viu o seu trabalho comprado por Hollywood e a oportunidade de desenvolvê-lo para a tela. Depois disso, Robinson já realizou uma curta com um Miami Vice lésbico (Girltrash, 2007) e sete episódios de A Letra L (tendo escrito o argumento de cinco). Herbie Fully Loaded (2005), teve-a também atrás das câmaras, e eis que Linsay Lohan começou a aparecer em público com uma namorada.

Com um elenco renovado (Jill Ritchie é a única D.E.B. da curta e da longa, e que ainda voltou a trabalhar com a realizadora em Herbie) e a mesma intriga, D.E.B.S. é uma divertida sátira aos Anjos de Charlie (o que She Spies, com Natasha Henstridge, também foi), com efeitos especiais muito simples, mas a contornar a questão com naturalidade e refrescantes reviravoltas sentimentais. Sem se levar totalmente a sério, trata o amor lésbico entre as protagonistas como se de amor heterossexual se tratasse, ficando o taboo mais pelo lado de as amantes serem de lados opostos da lei. E o mérito dessa ousadia (tivessem todos os filmes sobre amor gay essa coragem) ninguém lhe tira.

Jordana Brewster nunca esteve tão bonita, num visual próximo do de Demi Moore em Anjos de Charlie 2, e é um prazer ver os seus olhos brilharem. Infelizmente, as D.E.B.S. não têm a mesma graça nem beleza. Meagan Good é a afro-americana de serviço, com uma antipatia que lhe distorce o rosto e faz esquecer as formas; Sara Foster é má actriz; Devon Aoki é péssima actriz e desengonçada; e Jill Ritchie não parece muito mal para patinho feio. O filme ridiculariza-as o suficiente para que isso não seja visto como um defeito.

D.E.B.S. 2004

Quinta-feira, Junho 25, 2009

Contrato 2009, de Nicolau Breyner

Os primeiros minutos são premonitórios. Pedro Lima tem um ar acabado, fala inglês como se imitasse Joaquim de Almeida e há retoques de sangue digital que se assemelham a uma nódoa na tela. Os actores secundários foram contratados de olhos fechados à agência de figuração NBP e o programa de computador através do qual o assassino recebe as suas ordens lembra o que Sylvester Stallone usava em 1995, no filme (nem a propósito) Assassinos.

Como é possível pedir-se o apoio do público ao cinema português, com ofertas deste calibre? Há tanta incompetência e amadorismo em Contrato que impossível será encontrar um ponto positivo. Involuntariamente anedótico, mal representado, mal montado e mal escrito, assim se estreia Nicolau Breyner na realização cinematográfica, com dinheiros da TVI e da produtora Hora Mágica e rodeado de meia dúzia de amigos de noitada.

Durante a apertada censura do Estado Novo, Dinis Machado (autor de O Que Diz Molero, 1977), enquanto director da colecção de livros de bolso Rififi, da Editorial Íbis, decidiu imitar o francês Boris Vian (que usava o pseudónimo Vernon Sullivan para o efeito) e escrever policiais que iam beber ao período fértil das décadas de 1930 a 1950, a nomes como Raymond Chandler, Dashiel Hammet e Mickey Spillane. Entre 1967 e 1968, publicou sob o pseudónimo Dennis McShade três histórias simples, desconstruindo o género negro. É o segundo destes romances, Requiem Para D. Quixote, que agora se torna película. Pedro Bandeira Freire, o fundador dos Cinemas Quarteto e da Editora Opinião, escreveu o argumento, ele que já tinha no currículo a adaptação de A Balada da Praia dos Cães (José Fonseca e Costa, 1987). O seu falecimento em 2008 (ano de morte que partilha com Dinis Machado) levou a que Álvaro Romão (em quem a Hora Mágica apostou para mais dois projectos em 2009) e Nicolau Breyner moldassem (amassassem) o resultado final.

A história, logo à cabeça, não faz o menor sentido. Um assassino a soldo comete um erro ao matar quem não devia e o seu contrato seguinte surge como uma penitência. Apesar de o luso-americano ter jurado não voltar a Portugal, tem de honrar o contrato. Ainda fresco da viagem, é agredido por desconhecidos e hospitalizado, de modo a conhecer uma enfermeira com ar de bairro que a primeira coisa que faz é esconder-lhe a pistola e a carteira, para que não sejam vistas pela polícia. A justificação? «Simpatizei consigo e achei que já tinha problemas suficientes». Simpatizar com uma polpa de sangue que chega ao hospital armado é de desconfiar, mas o herói não tem tempo para deduções quando uma mulher bonita lhe oferece as chaves da casa dela. Não, nem disto desconfia.

A inépcia do argumento prossegue. Por explicar fica a nacionalidade grega do alvo (se o herói vem a Portugal, não teria mais lógica matar um português?) e o interesse dos flashbacks. O da sua infância ainda vá, deve ser por isso que não queria voltar ao país, mas aquele que lhe causa pesadelos é um mistério. Ver Pedro Lima a sonhar com memórias do seu tempo de Marine no deserto do Iraque, de camuflado do exército norte-americano e uma M-16 com lança-granadas nas mãos, não serve o menor propósito. E quanto à vítima do sonho, quem é que confundiria um mirrado menino de 12 anos com um terrorista adulto?

Há mais. O alvo é cego, mas vai a um leilão adquirir a primeira edição do livro D. Quixote De La Mancha. Em vez de licitar ele próprio, utiliza uma funcionária de auricular para o efeito, enquanto ele permanece no balcão do primeiro andar, incógnito... mas à vista desarmada. Tão desarmada que o herói, acabado de chegar, dá logo com ele. Mas não o mata aí, por uma razão, diz ele, de estética. Mas cumpre sempre os seus contratos por uma razão de, diz ele também, ética.

Contrato é, porém, um filme sem ética nem estética. É mau na ideia e medíocre na construção, anedótico nos diálogos e ausente na acção (leia-se ausente de acção). Para filme tão nulo, nem chega a ser engraçado o comentário sarcástico de que Manoel de Oliveira não tem de preocupar-se com a sombra de Nicolau Breyner. Este dinossauro da representação (Breyner) confundiu, claramente, a dimensão de uma telenovela com a de uma película virada para o cinéfilo. Contrato não tem visão, não tem alma, não tem sequer um fio condutor plausível. Há personagens que aparecem do nada só para darem emprego a actores amigos (José Wallenstein e José Raposo) e outros que estão lá para tapar buracos: Vítor Norte representa um mecânico pé rapado que afinal é um ex-operativo do FBI com contactos activos e hacker extraordinaire nas horas vagas (é caso para dizer, quem vê caras...). Há também uma voz a chamar uma filha mongolóide, em off, que parece pertencer a Rita Blanco (uncredited).

E não se pretende com este texto indicar que o cinema português é incapaz de produzir thrillers interessantes, apenas que Nicolau Breyner não o foi. São casos louváveis de sucesso no género O Lugar do Morto (1984), de António-Pedro Vasconcelos, Duma Vez Por Todas (1986), de Joaquim Leitão, O Fio do Horizonte (1993), de Fernando Lopes e Tiro no Escuro (2005), de Lionel Vieira.

Pedro Lima é um caso flagrante de miscast. Não tem ar de duro nem sabe simulá-lo. Não tem um sotaque inglês minimamente credível e querem fazer passá-lo por veterano do Tio Sam. Também fracassa nas suas tentativas de passar por actor. Estreante no grande ecrã é igualmente Cláudia Vieira, actriz da telenovela juvenil Morangos com Açúcar e modelo de lingerie Triumph, a representar a enfermeira com a atitude menos profissional de que há memória. É rude e abusada, partilha com o herói uma pizza e a sua nudez e no final fazem juras de amor eterno com lágrimas e promessas suicidas. Inconcebível? Claro que não, ela é a mesma que lhe atira violentamente contra os hematomas a carteira que escondeu das autoridades e lhe grita, à noite e num hospital, «O que é que aqueles homens queriam de si?». Apetece ainda mencionar a eterna manequim Sofia Aparício, a quem um papel secundário dá a oportunidade de proferir frases do género «Olha, olha, a puta descobriu que afinal não é fufa» (de se lhe tirar o chapéu o facto de o ter concretizado sem perder a compostura). Infelizmente, dos actores que mais se esperava, menos se obtém: Vitor Norte em constante improviso e Nicolau Breyner em overacting.

Cláudia Vieira merece um parágrafo porque não podemos falar da sua nudez assim tão de fugida. E não podemos porque a referida foi alardeada em revistas e no trailer, e porque Soraia Chaves tem incendiado as memórias de muito bom cinéfilo desde que abriu a porta de um frigorífico em O Crime do Padre Amaro (2005) ou deixou que a sua roupa se evaporasse para o realizador de Contrato, em Call Girl (2007). Ao contrário da majestade de Soraia Chaves, porém, Cláudia Vieira revela-se púdica e mecânica no seu silicone mostrado a ferros, em imagens que não perdurarão no imaginário de quem assistiu a tal fiasco.

Em terra onde toda a gente conduz Skodas, Contrato é um fracasso a todos os níveis. Aventura sem acção, romance sem profundidade e nudez sem erotismo. Realizado em embaraçoso auto-piloto, evidencia desconhecimento sobre as regras elementares de um género cinematográfico (o film noir) que muito teria a oferecer. Onde andas tu, Zé Gato?

Contrato 2009

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Push, de Paul McGuigan

Mais mergulhada no universo Anime do que Marvel, e não só por ser filmada em Hong Kong, a trama imaginada por David Bourla é intrigante, mas trazer ordem ao caos é sempre tarefa difícil, especialmente quando o filme se esforça por não clarificá-la antes do tempo. Esotérica e confusa, Push é uma aventura sci-fi próxima da série Heroes e da saga X Men, com uma sopa de super-heróis com sabores a mais para um só filme, mas que se desenvencilha de maneira razoavelmente satisfatória das suas próprias grilhetas.
Há pessoas com poderes especiais. Podem ser telepatas, clarividentes ou telequinéticos, trabalhando para agências governamentais, organizações clandestinas ou simplesmente em proveito próprio. Neste ambiente de espionagem, restam ainda aqueles que tentam fugir ao seu destino, mas não podem evitar a força de uma profecia. A menina que viria pedir ajuda, ostentando uma flor, chegou, e Nick terá de ajudá-la, como prometeu ao seu pai que faria, dez anos antes.
O realizador Paul McGuigan (Há Dias de Azar e O Apartamento) e o director de fotografia Peter Sova revelam eficiência e originalidade na abordagem aos locais de filmagens, dispensando o recurso a cenários digitais. A maior arma do filme é não parar para respirar, imprimindo um ritmo quase auto-destrutivo, que por isso mesmo é simultaneamente uma qualidade e um defeito. Essa ânsia desesperada dá a sensação de que a história foi sendo escrita conforme era filmada.
Push é um objecto de difícil deglutição, híbrido de thriller low tech e fantasia de super-heróis, uma espécie de pós-Matrix em crise de identidade. Visualmente cativante, debate-se com uma história incoerente mas interessante, ao mesmo tempo superficial e complicadíssima.
Chris Evans parece mais saído do filme London do que do Quarteto Fantástico, mas é capaz de manter a dignidade ao emparceirar com a ainda desengonçada starlet Dakota Fanning e enfrentar o sempre composto Djimon Hounsou. Camilla Belle é que já tornou claro só ter talento para o sonambulismo.
Push 2009

Escola de Rock, de Richard Linklater

Jack Black a ser Jack Black com uma guitarra eléctrica nas mãos. Curiosamente, foi a melhor coisa que poderiam fazer-lhe, porque esta diversão infantil resulta na perfeição. Escrito propositadamente para o actor por Mike White (argumentista do filme Dead Man On Campus e das séries Dawson Creek e Freaks and Geeks), que repetiria o intento em Nacho Libré. A sequela de Escola de Rock está agendada para 2010, mas já foi um projecto mais sólido.
Richard Linklater é o homem por trás dos inspirados romances Antes do Amanhecer e Antes do Anoitecer (nomeado para Óscar de Melhor Argumento Original em 2005), das animações Waking Life e A Scanner Darkly e de Dazed and Confused, que Quentin Tarantino considerou em 2002 ser um dos 10 Melhores Filmes de sempre. Foi o próprio Linklater quem seleccionou o elenco de crianças instrumentistas de 13 anos que comporiam a Escola de Rock, algo imprescindível para que a história funcionasse.
Com uma incrível empatia entre as diversas idades envolvidas, Linklater orquestrou uma história leve e bem humorada, com um Jack Black contagiante e miudagem cheia de atitude. Joan Cusack, estranhamente envelhecida para os seus 43 anos (à data da produção), é a formal directora da Escola, mas a personagem mais irritante fica a cargo de Sarah Silverman.
School Of Rock 2003

Ter Alguém Com Quem Comer Queijo, de Jeff Garlin

Toda a gente precisa de sexo e de amor e, para alguém gordo, feio, quarentão e mal sucedido na vida, isso não passa de um sonho. Talvez por isso o filme tenha um compasso estranho, lento no ritmo mas verdadeiro na melancolia.
Após ter percorrido os EUA com um espectáculo de stand up, Jeff Garlin tem sido elogiado pela crítica devido a três filmes que escreveu, realizou e protagonizou: Ter Alguém Com Quem Comer Queijo, Uncomplicated e Concentrated. Ter Alguém Com Quem Comer Queijo foi o primeiro dos três, e estabeleceu-o como humorista capaz de expor as suas maiores fraquezas, com ligeireza mas sentimento.
Situada na cidade natal do autor (Chicago), a história segue as humilhações e esperanças de um actor menor, que vive com a mãe e não tem sexo há 5 anos. Constituído por pequenas peripécias inconsequentes mas engraçadas, o filme foi filmado em 18 dias ao longo de 2 anos, devido a dificuldades de financiamento.
Garlin, um rosto habitual de séries como Curb Your Enthusiasm e Mad About You, surge aqui acompanhado de Sarah Silverman e de Bonnie Hunt, sendo a primeira quem profere a frase que compõe o título. Silverman, também ela humorista de stand up, roubou ao filme a desculpa-tipo para faltar a compromissos, que repetiu na apresentação dos MTV Video Movie Awards de 2007. Também se aguenta muito bem em roupa interior.
I Want Someone To Eat Cheese With 2006

Férias Assombradas, de Glen Morgan

No Natal de 1974, Black Christmas foi o filme choque de Bob Clarke, sobre um assassino nas sombras que eliminava, uma a uma, as estudantes de uma residência universitária feminina. Nunca é indiciada a razão da escolha daquela casa específica nem a motivação dos homicídios. O filme teve pouca adesão numa fase inicial, pensa-se que devido ao título alternativo de estreia Silent Night, Evil Night (por receio de que Black Christmas soasse racista), mas entretanto ganhou estatuto de culto. Surge agora um remake, escrito e dirigido por Glen Morgan, que é uma horrenda fantochada.
Verdade seja dita que muitas alterações foram exigidas ao guião proposto por Glen Morgan, que não incluía as cenas passadas no hospício, não arrancava olhos, ordenava os flashbacks na abertura e Agnes não era filha de incesto. O resultado final, contudo, é o que conta, e este remake não poderia ser menos qualificado. Inventa-se todo um passado atroz para o assassino, que adquire uma tonalidade de pele amarelo-alaranjada por efeito de um problema de fígado, presta-se a sexo anedótico com a mãe e até se canibaliza em churrasco de progenitura, antes de ser enviado para o sanatório. De resto, temos uma residência universitária com moças para todos os gostos (Kristen Cloke, Michelle Trachtenberg, Mary Elizabeth Winstead, Lacey Chabert…) - menos para quem gosta de negras, asiáticas e gordas - e um assassino com a peruca da Mãe Bates e a cara do Mickey Rourke em latex que liga às sobreviventes pelo telemóvel da última vítima, sendo que, invariavelmente, todos os telemóveis têm o mesmo tétrico ringtone natalício.
Meia dúzia de olhos arrancados depois, uma advertência a sex tapes que dão por si no youtube e muitos gritinhos irritantes, fica apenas um body count sofrido e muito pouca imaginação. A banda sonora está a cargo de Shirley Walker, compositora de Final Destination, de James Wong, produtor de Black Xmas e realizador de Final Destination 1 (com Kristen Cloke) e Final Destination 3 (com Mary Elizabeth Winstead).
Black Xmas 2006
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