Quarta-feira, Novembro 11, 2009

O Lutador de Rua, de Walter Hill

Auspiciosa estreia de Walter Hill como realizador (e argumentista), a aproveitar o êxito da adaptação de The Getaway (1972) para Steve McQueen e Ali McGraw (um casal na vida real, como o eram também Alec Baldwin e Kim Basinger quando fizeram o remake, em 1994). O Lutador de Rua conta com a presença de Charles Bronson e James Coburn, num western dissimulado de modernidade, a passar-se no submundo do pugilato ilegal, campo de batalha que vive de apostas e secretismo.

Para Bronson, este foi o filme que se seguiu a Death Wish – O Justiceiro da Noite (1974), que o consagrara após o regresso aos EUA, para onde regressara após uma década na Europa, a fazer policiais em França e westerns em Itália. O Lutador de Rua tem uma história simples e directa, sem personagens ou situações complexas. O herói é conhecido apenas pelo nome próprio e chega sem passado, assim assegurando uma aura de mistério, ao qual a bóina de trabalhador procura dar uma resposta não verbalizada. Ele é parte da massa anónima que tenta fazer pela vida numa sociedade onde o desemprego nos campos empurra as pessoas para a brutalidade nas cidades.

A violência é coreografada e limitada ao essencial, sem cair em excessos. Com 44 anos, Charles Bronson ainda ostentava um físico invejável e a esposa que roubara a David McCallum (com quem contracenou em A Grande Evasão, de 1963), Jill Ireland. Walter Hill declarou em 2006 que teceu críticas à actuação da actriz e que Bronson nunca mais quis trabalhar com ele. Hill, por seu lado, chegou até 1988 quase sem acidentes de percurso (entre os êxitos, contam-se 48 Horas, Estrada de Fogo e Inferno Vermelho), mas nos anos ‘90 a sua popularidade decaiu com os fracassos de Outras 48 Horas (1990), Geronimo (1993) e O Último A Cair (1996). Não voltou a recuperá-la.

O Lutador de Rua tem sido plagiado ao longo dos tempos, os mais recentes dos quais Sucker Punch (2008) e Fighting – A Lei das Ruas (2009), mas o único digno de nota será AWOL – O Legionário (1990), com um Van damme em topo de forma. Gordon Alexander, o protagonista de Sucker Punch, também o foi em Os Purificadores (2004), considerado um plágio de The Warriors, de Walter Hill (1979).

Hard times 1975

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Rudo & Cursi, de Carlos Cuarón

Dois irmãos que trabalham na apanha da banana são descobertos por um agente de futebol e iniciam carreiras promissoras, um como avançado e outro como guarda-redes, em equipas diferentes. Um deles sonha ser cantor, mas «tem a paixão sem ter o talento», como diria o agente, que é narrador em voz off (um versátil Guillermo Francella), e o outro perde uma grande soma ao jogo. No final, as equipas de ambos confrontam-se, mas o avançado está no banco por ter causado distúrbios no hotel e o guarda-redes tem de perder a partida para pagar as dívidas. Previsões?

Rudo & Cursi é um fiasco de proporções galácticas. Mais do que uma fita sobre futebol, é uma história de irmãos. E não só por causa dos protagonistas, mas porque foi escrito e dirigido por Carlos Cuarón, irmão de Alfonso, o realizador de Y Tu Maman Tambien, que escreveram juntos. Esse filme lançou internacionalmente Alfonso Cuarón e os actores Diego Luna e Gael Garcial Bernal, aqui repescados. Para Carlos Cuarón, que até à data só dirigira uma mão cheia de curtas metragens (escritas por si), Rudo & Cursi é um duplo tiro no pé; não extrai o menor lampejo de talento a Luna e Bernal e porque torna claro que só há um irmão com talento na família. Mais do que aborrecido, Rudo & Cursi é irritante. Os personagens não são empáticos e as reviravoltas da trama são desinteressantes em espiral descendente. O epílogo, então, é de bradar aos céus.

Deve ter sido duro prestar contas aos desiludidos produtores, todos eles com provas mais do que dadas no celulóide: Alfonso Cuarón (Harry Potter e O Prisioneiro de Azkhaban), Guillermo Del Toro (O Labirinto do Fauno) e Alejandro González Iñárritu (Babel).

Rudo & Cursi 2008

As Colinas de Sangue, de Dave Parker

As Colinas de Sangue começa com uma ideia minimamente inspirada e curiosa, o que no panorama actual quase passa por original, e isso que dá vontade de abordá-lo numa nota positiva, mas rapidamente se percebe que as estrelas de um hotel não podem contabilizar-se pela apresentação do átrio, quando o elevador não funciona, as escadas não têm luz e os quartos não são arejados.

Um estudante de cinema (Tyler) decide fazer um documentário sobre um filme maldito de 1982, um slasher do tipo Sexta Feira 13 (1981), retirado das salas devido a protestos populares. A não existência de cópias e o desaparecimento de todos os envolvidos na rodagem desperta o interesse, tanto mais que a única prova de que tal filme alguma vez existiu é um trailer grosseiro a flutuar na internet. Após encontrar a filha do realizador, uma criança à data da rodagem, Tyler reúne a sua equipa (o melhor amigo e a namorada) e os quatro seguem em busca dos locais de filmagens e das bobinas originais.

Dave Parker começa o filme de modo promissor. Uma legendagem sinistra, ao jeito da de Massacre No Texas (1974), a situar a acção face ao mistério da fita perdida, entrecortando o relato com uma criança a retalhar o próprio rosto, com efeitos visuais suficientemente credíveis para se querer mais. Fastforward para o presente e a impetuosidade do estudante de cinema, decidido a recolher o máximo de elementos sobre o filme The Hills Run Red para o seu documentário. São situados os personagens e as diversas motivações. Segue-se a viagem. Vulgariza-se a trama. Entorna-se o caldo.

A ideia de um filme retirado de exibição devido a piquetes de protesto pelo seu conteúdo não é insólita, sendo notório o caso de Silent Night, Deadly Night (1984), em que comissões de pais se opuseram ao facto de o assassino se vestir como Pai Natal. Referência incontornável é também a lista dos video nasties inglesa, em que o BBFC (Entidade que classifica filmes e vídeos na Grã-Bretanha) baniu ou exigiu cortes a dezenas de filmes, que eram inclusivamente confiscados de clubes de vídeo.

As Colinas de Sangue peca, infelizmente, por desfazer a inventividade inicial numa poça de trivialidades. Primeiro, começam a surgir inconsistências e por fim os dois twists adivinham-se com incrível antecedência. Entre as fragilidades, a filha do realizador maldito, em adulta interpretada por Sophie Monk (é muito parecida com a actriz pornográfica Sylvia Saint), não aparenta sequer a idade do celulóide (a actriz tinha 3 anos em 1982); é feito o desmame involuntário a uma toxicómana numa curta montagem, após o qual ela fica totalmente restabelecida (no motel onde tem lugar a intervenção, nem gerente nem camareiras interromperam o processo, independentemente dos gritos da drogada); o melhor amigo e a namorada de Tyler têm sexo na ausência dele e o facto não volta para assombrá-los, o que torna a cena totalmente dispensável.

Apesar dos defeitos, As Colinas de Sangue apresenta um maníaco icónico, que devia ter sido melhor aproveitado. De seu nome Babyface, ostenta uma máscara que está ao nível das de Michael Myers, Jason Voorhees e Leatherface. A carantonha conjuga o rosto de um bebé de porcelana com a mandíbula inferior visivelmente deslocada, dentes podres e, claro, uma careca com meia dúzia de fios de cabelo, porque nenhum monstro de baixo orçamento usa Dercos. Duas cenas acima da média merecem referência em relação a esta criatura. Ao contrário do comum dos maníacos do bosquedo, que só usa armas brancas, Babyface dispara casualmente sobre uma vítima que o defronta munida de flares, lembrando Indiana Jones e o árabe com duas espadas (Salteadores da Arca Perdida, 1981). Após ficar estabelecido pelo seu modo de deslocação e mutismo que é atrasado mental, ele sai-se com uma deixa absolutamente surpreendentemente: para tentar acalmá-lo, uma vítima embála-o com uma canção infantil, que parece fazer algum efeito, pela maneira como ele posiciona a cabeça; inesperadamente, ouve-se através da máscara, em tom perfeitamente normal: «Podes continuar a cantar, se te faz sentir melhor». Mas a deixa é claramente um add-on em pós-produção, porque o personagem não diz absolutamente mais nada, nem quando se debruça sobre a mãe assassinada, no seu momento Bambi.

Assim como Tarantino foi buscar o título de Inglorious Basterds ao nome alternativo de um obscuro filme de guerra italiano dos anos 60, também The Hills Run Red já foi um western de 1966. Eu teria preferido The Rivers Run Red, pela sonoridade mais completa, tanto mais que há rios que correm por entre zonas florestais, mas enfim. Se Dave Parker tivesse arriscado mais e filmado no estilo camp de Tobe Hooper, As Colinas de Sangue podiam ter atingido, na recta final, o pretendido nível de pesadelo, que só por inépcia nem sequer orlam. Os actores, apesar de não desmerecerem, também não são a mais fina flor. O único veterano da película é William Sadler, que nunca foi grande actor e a quem falta intensidade. Tad Hilgerbrink (Tyler) falha na cena mais exigente, em que deveria enlouquecer, como consequência do seu momento Laranja Mecânica sem pinças nos olhos (em Terror na Ópera, Dario Argento mimetizara o método de Kubrik com a simplicidade de um adesivo com agulhas). Pelos seus defeitos, As Colinas de Sangue ficam mais próximas de Hatchet (2006) do que de Sexta Feira 13. E fica por entender a razão para ter sido filmado na Bulgária, quando há bosques como aquele em todo o lado.

The Hills Run Red 2009

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Feel The Noise, de Alejandro Chomski

Sente o Ruído é o título do filme e a sua essência. É ruído enquanto história, música e dança. Aliás, a dança não chega a ser ruído, mas estática, porque tirando uma casual coreografia de meio minuto numa discoteca, está ausente. O enredo é esquemático e cravejado de clichés. Um jovem aspirante a rapper mete-se em sarilhos no Bronx e é recambiado para Porto Rico, para viver com o pai que não conhece. Aí, ao lado do meio irmão, mistura rap com reggaeton, o hip hop do território, e tenta lançar-se no mundo discográfico; a namorada é quem lhe consegue a entrevista e o produtor o que quer é aproveitar-se da jovem; o ex-namorado (?) dela também faz asneiras. Sem ímpeto, estamina ou música que fique no ouvido, Feel The Noise é um projecto estagnado e sem o menor mérito.

A estreia de Omarion Grandberry (jovem cantor de R&B que já foi vocalista dos B2K) na 7ª Arte não podia ter sido menos auspiciosa. O contributo de Giancarlo Esposito e de Zulay Henao, também na representação, é muito pequeno: ele tem o peso do mundo no olhar e ela é bonita.

Entre as idiotices sem sentido do argumento, está a cena em que o protagonista ajuda um vizinho (disseram-lhe que era alguém capaz de abrir portas) a escapar à polícia, mas tal vizinho não volta a aparecer, ficando assim apenas a imagem do herói a promover a fuga de um criminoso que não conhece nem sabe o delito que cometeu. O ex-namorado (?) da namorada do herói jura vingança por este a ter arrematado e espanca tresloucadamente a secundaríssima madrasta do herói; a vingança é o pai que a combina, realizando-se sem a presença de nenhum personagem (um grupo de desconhecidos cerca o agressor e brutaliza-o), não voltando a falar-se do assunto.

Feel The Noise 2007

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Flirting With Forty, de Mikael Salomon

Telefilme do canal norte-americano Lifetime TV (canal com programação dirigida ao público feminino), Flirting With Forty estreou a 6 de Dezembro de 2008, com 4 milhões de espectadores. Baseado no romance autobiográfico de Jane Porter, vive da paixão de uma divorciada com dois filhos por um instrutor de surf treze anos mais novo, que conheceu no Havai, na véspera de fazer 40 anos de idade. O mais interessante é que a actriz escolhida para interpretá-la, a invejável Heather Locklear, já tinha 47 anos ao tempo da produção.

Conhecida nos anos 80 e 90 pelas séries Dinastia, T.J. Hooker, Melrose Place e Spin City, a actriz, que foi casada com Tommy Lee (baterista dos Motley Crue) e com Richie Sambora (guitarrista dos Bon Jovi), vai regressar à sua personagem de Melrose Place ao fim de 10 anos (a série foi cancelada em 1999 e regressa em 2009, a par de Beverly Hills 90210). Em Flirting With Forty, a sua personagem transita dos 39 anos para os 40 anos, numa altura em que a actriz já deve questionar-se sobre como serão os 50, o que é bastante curioso, porque ainda assim a história não perde naturalidade. Apesar da idade, Heather apresenta ainda um corpo bastante atraente e sem osteoporose, já que a vemos efectivamente testar as ondas na prancha do namorado, com diversas quedas à mistura. Tal parece provar que uma dieta de cocaína e álcool poderá ser recomendável para recuperar a juventude às mães do mundo inteiro. Diagnosticada com depressão e ansiedade, a actriz esteve internada numa clínica de reabilitação, para tratar essas duas dependências, entre Março e Julho de 2008. O pior é que também decidiu medicar as bochechas com botox (e os lábios com colagénio), caindo no exagero da overdose.

Ao lado de Heather Locklear está Robert Buckley, conhecido da série Lipstick Jungle, onde tinha um caso com Kim Raver, ela sim com 39 anos. Buckley tem um físico invejável e passa por instrutor de surf, sendo descontraído nos seus afectos pela protagonista (e não mente na idade: actor e personagem têm 27 anos). Na verdade, o filme vê-se de uma assentada, com boas prestações por parte do elenco de suporte (Vanessa Williams também apresenta uns invejáveis 45 anos).

Mikael Salomon é um prolífico director de fotografia e um experiente realizador de TV. A sua carreira não despontou como se esperava depois do interessante Águas Mortíferas (1998), mas pelo menos tem sido responsável por mais pilotos do que episódios do meio, o que significa que apostam nele para lançar séries (The Agency, Young Arthur, The Grid); e tem algumas mini-séries (Salem’s Lot, The Company, The Andromeda Strain) no currículo. Aqui, com uma perna às costas, filma o romance e os entraves de uma relação de sonho. Os problemas estão lá (o ex-marido, os filhos, o trabalho, a distância de 6 horas de deslocação ao Havai de cada vez que visita o namorado), mas Salomon opera a sua varinha de condão para que o tom do filme seja positivo, mantendo bem as ligeiras quebras necessárias. Além disso, sabe dar relevo aos cenários, porque a história não seria a mesma sem as praias paradisíacas de fundo.

Flirting With Forty 2008

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Os Informadores, de Gregor Jordan

Moral da história, é tão complicado ser rico na L.A. glam de 1983, a alimentar vícios para completar o vazio, ter tudo e não saber dar valor a nada. Filme estéril sobre sombras que se passeiam num cenário acetinado sem terem ideia do que é viver, sentir ou emocionarem-se. O filme não tem personagens, apenas figurantes, e chamar às suas deambulações de interligação de narrativas é uma anedota que faria rir Robert Altman, cineasta que conjugou os contos do grande Raymond Carver ao ponto de melhorá-los (Short Cuts, 1993).

Inepto e entediante, Os Informadores revela-se incapaz de passar a mais vaga mensagem. Brett Easton Ellis, autor do argumento, especializou-se em personagens superficiais, nomeadamente em Less Than Zero (1987) e American Psycho (2000), mas aqui nem arranha a superfície. Less Than Zero, pelo menos, tinha actores à altura, com os icónicos Andrew McCarthy, James Spader (os dois tinham actuado juntos no êxito Pretty In Pink, do ano transacto, e havia química entre eles), Robert Downey Jr. e Jamie Gertz, enquanto que American Psycho contava com um ultra-musculado Christian Bale. Em vez dos temas da amizade ou obsessão dos filmes mencionados, Os Informadores fica pelo etéreo disparate da pura irrelevância.

Valha-lhe isso, o realizador Gregor Jordan não tenta enganar ninguém: logo à abertura se prenuncia o pior. Temos as roupas à Miami Vice, os olhares vítreos em rostos plásticos e um acidente de automóvel tão mal filmado que seria melhor tê-lo feito à portuguesa, só por sonoplastia. E, lá mais para o fim, tenta mostrar-se profundo por limitar-se a sugerir de que determinada figurante padece: promíscua, com manchas no corpo, cansaço e frio; sim, deve ser o síndrome da imuno-deficiência adquirida, para também não ser demasiado claro.

A única curiosidade vai para a tentativa de dar resposta à questão deixada pelo título do filme All The Boys Love Mandy Lane (Sedução Mortal, 2006). A actriz Amber Heard perdeu peso e finalmente se sentiu confiante o suficiente para concretizar o que ficou desfocado em Alpha Dog (2006). Despe-se a contento, ainda que o seu rosto seja mais atraente em Hidden Palms (2007) e Never Back Down (2008), com bochechas redondinhas. Com uma carreira em ascensão, fica uma nova dúvida: porque terá aceite um papel tão inconsistente, a não pedir mais do que topless durante metade da actuação? A presença de Brad Renfro (O Cliente, Sleepers, Ghost World e Bully) não é uma miragem. O actor morreu aos 25 anos, em Janeiro de 2008 (de overdose de cocaína), uma semana antes de Heath Ledger, o que faz deste o seu último trabalho. Apesar de Heath ter sido relembrado no espaço In Memoriam dos Óscares desse ano, dedicado às estrelas que se apagam, Renfro foi ignorado (uns dizem que foi devido à causa de morte, outros por não ser membro da Academia). Num filme onde entram Chris Isaak, Kim Basinger e Winona Ryder, Billy Bob Thornton consegue ser o mais horrendo miscast, completamente desadequado para o papel atribuído.

The Informers 2009

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Os Purificadores, de Richard Jobson

Num futuro idiota, as cidades vão ser protegidas por uma infra-estrutura de gangs. Não parece haver forças policiais nem Governo Central, apenas grupos de artistas marciais, distribuídos por zonas de controlo demarcadas e distinguíveis pelos seus uniformes. Os testes de força entre eles, a manter o equilíbrio entre si, não são batalhas campais mas combates amigáveis, organizados em dojos. Um desses chefes locais convoca os restantes para sugerir a reunião de todos sob uma única liderança. Um dos gangs, conhecido como Os Purificadores, rejeita a proposta e é perseguido durante o remanescente do filme.

A segunda longa metragem de Richard Jobson é uma anedota. Plagia o clássico The Warriors (1979), de Walter Hill, mas não se preocupa com tensão, drama ou construção de personagens. Para filme de artes marciais, limita-se a algumas rápidas e discretas danças distribuídas pela película, articuladas pelo coreógrafo Gordon Alexander, que também protagoniza. Este e Kevin McKidd comportam-se convenientemente (o primeiro discreto e o segundo efusivo), ao contrário do restante elenco, que apenas corre desenfreadamente ou faz poses preocupadas, conforme a indicação vinda de detrás das câmaras.

Com duplos a fazerem de actores e actores a fazerem de lutadores, nem uns nem outros cumprem neste lamaçal de superfícies lisas e futuristas (filmado integralmente no Museu de Ciência de Glasgow e seus jardins). Dominic Moynahan (um dos hobbits da trilogia Senhor dos Anéis e da série Perdidos) está no filme errado, já que a sua única imitação de luta é vergonhosa, com uma linguagem corporal a denunciar os golpes muito antes de os concretizar. Rachel Grant (uma filipina que já foi body double de Angelina Jolie em Lara Croft: Tomb Raider e massagista em 007: Morre Noutro Dia) nem chega a lutar, o que faz questionar a sua presença no gang e no filme. Chloe Bruce tem duas curtas aparições, sem direito a uma única frase, o que neste caso deve congratular-se; apesar de se ter entregue à dança em anos mais recentes, na sua adolescência Chloe foi campeã de formas de tang soo do, uma variante de tae kwon do, inclusivamente tendo representado a sua rotina no vídeoclip Rewind (1999), do teclista Cylob. A elasticidade de Chloe Bruce é tão surpreendente como a de Jean-Claude Van Damme nos primórdios, mas o talento desta nova Cynthia Rothrock ainda não teve o destaque que merece. Chloe é detentora do Recorde do Guinness de maior número de pontapés num minuto: em 2008 garantiu o recorde com 192 pontapés mawashi geri e em assegurou-o com 210 (contra Mila Valevich, que só somou 190).

Vocalista e liricista dos Skids (banda britânica de art-punk do final dos anos 70), leitor de poesia para a editora Disques du Crepuscule, apresentador da BBC1, Sky e VH-1, Richard Jobson escreveu e realizou três filmes entre 2003 e 2005. Os Purificadores é o filme do meio, filmado em vídeo e editado em Mac. Kevin McKidd, actor que avançaria para papeis em séries como Roma, Journeyman, e Anatomia de Grey, protagonizou o primeiro filme de Jobson, 16 Years of Alcohol (baseado no livro escrito pelo realizador). Os Purificadores, porém, não tem um único mérito. A história é simplista, o trabalho dos actores uma vaga mancha e os combates ocasionais pecam por uma estética excessivamente marcada pelo recurso à câmara lenta. Fica a sensação de que o realizador conseguiu transformar 20 minutos de filmagens em 85, graças a esse estratagema. O director de fotografia, John Rhodes, ainda fez o que pôde para garantir um aspecto arthouse, mas nada poderia salvar esta fita da nulidade.

The Purifiers 2004

Sábado, Outubro 24, 2009

Distrito 9, de Neill Blomkamp

Em 2005, o desconhecido Neill Blomkamp apresentou uma curta metragem de seis minutos, Alive in Joburg, sobre uma nave espacial que estacionara sobre Joanesburgo e o difícil relacionamento entre humanos e aliens. Seis minutos valem o que valem, mas Peter Jackson, empolgado com a segunda vida que dava a King Kong, decidiu oferecer ao novato a direcção da adaptação do jogo de computador Halo. Tal projecto caiu por terra, mas Jackson, inamovível em ser o ganha-pão do jovem, atirou 30 milhões de dólares pela janela, investindo-os no projecto seguinte de Blomkamp, antes deste saber qual era. O resultado foi Distrito 9 que, à falta de melhor, desenvolveu a ideia nascida em Alive in Joburg.

Há algumas alterações ao conceito original. Todas para pior. Em seis minutos de curta metragem, percebeu-se que os aliens tinham tecnologia e sabiam usá-la em proveito próprio, estando inclusivamente a drenar nutrientes do próprio planeta, através de enormes tubagens ligadas entre a nave e o solo sul-africano. Os aliens surgem vestidos (facilitou imenso em termos visuais, só ter de arranjar máscaras), capazes de comunicar com os humanos e entre si. Em Distrito 9, passaram a indigentes e a serem incapazes de manifestar inteligência. Opções que não fazem muito sentido, mesmo que se tente dizer que eram trabalhadores manuais. Numa nave mãe do tamanho daquela da série V (1983-1984 e a regressar em 2010), da Enterprise ou da Galactica, mesmo que a carga fosse escrava, teria de haver quem a transportasse, controlasse e comerciasse, i.é, uma tripulação. Não é crível que uma nave interestelar viaje, digamos, em piloto automático através de sistemas solares.

Distrito 9 não é um Dia da Independência (1996) sul-africano. A reacção aos primeiros minutos iria no sentido do comentário social e a abordagem poderia ter sido, senão louvável, pelo menos curiosa. Montado como uma reportagem jornalística (o formato de Alive in Joburg), relata que uma nave sobrevoou Joanesburgo há 20 anos atrás e que os tripulantes, sem forma de regressarem ao planeta natal, vivem desde então num bairro de lata (Bairro nº9) e são ostracizados pela população humana. Uma óbvia piscadela de olho ao regime esclavagista do Apartheid? Os aliens são os novos pretos? Depois o filme liga a batedeira e dispersa-se.

A partir da abertura, são tantos os passos em falso que se torna lamentável. Sem terem mais do que uma ideia do que pretendiam, os argumentistas apresentam os extraterrestres como animais, a fazerem distúrbios e sem qualquer capacidade social ou intelectual. Não houve a menor aproximação entre as espécies ou um desenvolvimento sustentado por parte dos aliens (fala-se em 2,5 milhões de criaturas)? Para além dos movimentos anti-alien, não seria de crer que em 20 anos surgissem igualmente movimentos a favor deles? Quem era suposto usar as armas sofisticadas de que a nave parecia estar cheia? Os aliens são explorados por gangs de nigerianos que vivem nas mesmas palhotas que eles e lhes vendem comida de gato em lata, uma suposta iguaria que não se percebe com o que pagam. Têm força para atirar um humano à distância de vários metros e uma carapaça resistente, mas um soco deixa-os de joelhos. Um borrifo de gasolina extraterrestre altera o DNA humano e a mão ferida da vítima, em poucas horas, fica tentacular como a dos aliens, mas dias mais tarde o resto do seu corpo permanece humano (e o borrifo foi no rosto, não na mão).

A meio, uma inversão de atitude, a piscar o olho a Danças Com Lobos (1990). Os aliens não têm maldade, são como crianças com déficit de aprendizagem e os maus são os humanos, que os rejeitam. E, como vem sendo hábito desde a famosa autópsia de Roswell, são objecto de experiências científicas para fins de aproveitamento militar. Essa reviravolta ainda é reforçada pelo facto de não haver um único humano que possa ser visto como modelo. Até aquele que eventualmente ajuda o único alien inteligente fá-lo por razões de sobrevivência pessoal e não por altruísmo.

Com uma qualidade muito superior, Alien Nation (1988), de Graham Baker, já tocava no tema da coexistência de humanos com aliens, também ela uma força laboral pobre. Os temas esclavagismo, exploração, prostituição inter-racial e crime já lá estavam. Havia também a questão da integração. Mas o aspecto físico é importante. Em Alien Nation, os aliens tinham aspecto e tez caucasianos, o que ajudava. Em District 9 a composição lembra mais A Mosca (1986) de David Cronenberg, dificultando conceber que pudessem dedicar-se à canalização, mecânica automóvel ou trabalho doméstico. Há também um pouco de Starship Troopers (1997), de Paul Verhoeven, derivado, não só do aspecto crustáceo dos bichos, mas também das experiências científicas conduzidas neles.

Sharlto Copley é o único actor que fica na retina. É o anti-herói de serviço e comporta-se à altura de um papel exigente, o idiota que salva o dia depois de uma data de azares consecutivos. Não será bem o Ash do Evil Dead, mas a loucura também lhe atinge a mão. Sem experiência anterior, Copley tinha duas frases em Alive in Joburg. Um golpe de sorte para ele e para o cinéfilo.

A mesma empresa que recriou O Senhor Dos Aneis e King Kong (Weta Digital) é responsável pelos efeitos visuais de District 9, mas não fez um trabalho de eleição. No que respeita à nave que paira sobre a cidade, é muito desfocada, retirando-lhe a imponência que deveria ter, e as figuras humanóides são desconjuntadas e pouco empáticas. A excepção surge com o mech, um fato-mecânizado que cruza ED209 (RoboCop, 1987) com APU (Matrix Revolutions, 2003), assemelhando-se a um autêntico robô artilhado.

Enfim, District 9 desilude de mil e uma maneiras, por ser possível apontar falhas de lógica em praticamente todas as reviravoltas. Até a fuga numa cápsula, que é arrancada do ar por um míssil e parece irreparável, afinal só precisa que um alien entre dentro dela para que volte a funcionar (então e a perda da asa, não precisa de ser reparada?). O mesmo se passa com a nave-mãe. Meio litro de combustível líquido, parcialmente gasto na cápsula individual, é o suficiente para pôr em marcha um veículo de quilómetros de diâmetro e toneladas de peso? No fundo, foi feita uma aposta em alguém com apenas seis minutos de vídeo mediano no currículo, que teve a sorte de impressionar um investidor megalómano (Peter Jackson). Talvez este se tenha revisto no entusiasmo de Blomkamp, o qual veio a verificar-se demasiado verde para tão elevados voos sem supervisão.

District 9 2009

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Sacanas Sem Lei, de Quentin Tarantino

Muitas opiniões contestatárias surgiram quando o americano Quentin Tarantino surgiu do nada e arrancou da mão dos franceses a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em 1994, mas desde então as suas obras têm sido recebidas de braços abertos. Por mais inegável que seja a intensidade do cineasta, porém, é certo que Kill Bill Vol. I é muito superior a Kill Bill Vol. II, onde as suas qualidades de orador parecem vir ao de cima apenas no discurso final de Bill, a cargo do enforcado David Carradine. A originalidade era ténue, tanto mais que enterrar alguém vivo já fora o objecto de dois filmes de George Sluizer, um deles remake do outro (Spooloos, de 1988, e The Vanishing, de 1993, Desaparecida em ambos casos para o público português), e Tarantino insistiria ainda no artifício no episódio duplo de CSI, a fechar a quinta temporada da série.

Sacanas Sem Lei é o filme de guerra de Tarantino, depois da mencionada incursão nas artes marciais e ainda no terror urbano de Christine, o Carro Assassino (À Prova de Morte, 2007). Retirando o título à tradução americana do pouco conhecido Quel Maledetto Treno Blindato (1978), que por sua vez se baseava no clássico Doze Indomáveis Patifes (1967), toda a trama é original. Mas, assim como Almodovar parece ter perdido o toque, também Sacanas Sem Lei não sabe a glória. Mesmo misturando a Segunda Guerra Mundial com laivos dos western de Sergio Leone e a música nem sempre apropriada de Ennio Morricone (especialmente porque nenhuma foi composta para o filme).

A primeira cena abre o apetite, mas demora demasiado (intitulada 1º Capítulo, assenta praticamente num diálogo de 15 minutos) e acaba por perder a frescura. É aquela sensação típica de uma cerimónia de copo de água, quando tardam em conduzir-nos às mesas e os aperitivos já se esgotaram. O primeiro prato surge só decorridos 70 minutos e é servido num bar de cave, tendo o segundo prato mais pompa (um antigo teatro), mas menos sabor. No fundo, o mal do filme é a falta de discernimento da montagem. A duração é, seguramente, excessiva para as migalhas boas que conjura. A primeira versão do filme tinha três horas e dez minutos, tendo sido reduzido para duas horas e vinte e oito minutos nas vésperas da estreia. Consta que Harvey Weinstein terá solicitado, após o feedback da premiere em Cannes, o corte de mais 40 minutos, o que não veio a suceder. Tarantino dizia, em 2005, que o guião estava escrito, mas faltava-lhe um final à altura. Aparentemente, avançou sem ter havido progressos.

Filme poliglota, onde é falado inglês, francês, alemão e italiano, Christophe Waltz pronuncia-se em todas e tem, talvez, o papel mais bem esgalhado, de um saco onde todos são descartáveis. No extremo oposto estará Samuel L. Jackson, em registo meramente vocal, a narrar a origem de dois Sacanas e como Shosanna planeia concretizar a sua vingança. O filme-dentro-do-filme, Orgulho da Nação, foi filmado por Eli Roth (Hostel 1 e 2), que volta a participar como actor depois de o ter aparecido em À Prova de Morte. Brad Pitt, Michael Fassbender (a substituir Simon Pegg) e Daniel Brül, também dão um ar da sua graça. Os pés de Diane Kruger são mais bonitos que os de Uma Thurman.

Inglorious Basterds 2009

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Clerks, de Kevin Smith

O primeiro filme da produtora View Askew foi a consagração de Kevin Smith. Filmado a preto e branco na loja onde o realizador trabalhava, o filme custou menos de 28 mil dólares (pagar os direitos de autor da banda sonora custou mais do que o resto junto) e rendeu 3 milhões. Comédia de situação ao bom sabor que o autor viria a habituar-nos, percorre um dia de trabalho de dois funcionários (clerks) de estabelecimentos comerciais contíguos, um minimercado e um clube de vídeo. Como toda as duplas de sucesso, são amigos e antíteses um do outro. Dante é cumpridor e Randal irresponsável. Dante está visivelmente irritado por estar ao serviço na sua folga, enquanto Randal é calão, rude com os clientes e tem constantemente o clube fechado, para poder tagarelar descontraidamente com Dante.

Por ter a vida mais preenchida, Dante goza de maior protagonismo. É ele quem organiza um jogo de hockey no telhado, é dele a namorada que não ama, a ex-namorada que vai casar com outro, o cliente que pede para levar uma revista para o WC e estica o pernil e a namorada que tem sexo com o cadáver. Randal é o diabrete que repousa no ombro de Dante, sempre que este se recrimina por ser demasiado certinho (Kevin Smith disse que Randal tem as melhores deixas porque, inicialmente, pretendia desempenhar o papel ele próprio). Os icónicos Jay e Silent Bob são o escape cómico em formato sketch, estacionados entre as duas lojas a vender erva. O realizador encarna o personagem Silent Bob, mas a trabalhar na loja durante o dia e a filmar durante 21 noites consecutivas, dormia cerca de uma hora por noite e a câmara rodou sozinha durante as últimas e climáticas cenas.

Trama solta, peripécias simples e diálogos engraçados é a receita, mas as gargalhadas estão tão ausentes quanto a cor da película. Apesar disso, despoletou uma temporada em desenho animado (2000-2001), uma danda desenhada e um spinoff em 2001, Jay & Silent Bob Contra-atacam, para além de uma hilariante sequela (Clerks 2, 2006), que ultrapassa de longe o original. Os quatro personagens mencionados nominalmente fazem cameos em todos os filmes de Kevin Smith, menos em Zach & Miri Fazem um Porno (2008), onde entra o actor Jason Mewes (Jay), num papel diferente.

Clerks 1994

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