Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010

O Delator!, de Steven Soderbergh

Se não existisse já um filme com o título O Mentiroso Compulsivo (1997), tal seria o título adequado a esta história sobre um homem baralhado que, entre a espada e a parede, construiu uma pequena mentira que foi descendo a encosta como uma autêntica bola de neve. Baseia-se no livro O Informador – Uma História Verídica, de Kurt Eichenwald (uma adaptação do seu livro Conspiração de Tolos, sobre o escândalo Enron, está já em produção, para estreia em 2011).

Stephen Soderbergh é um cineasta que ataca sempre de onde menos se espera. Surpreendeu tudo e todos com a sua longa-metragem de estreia, Sexo, Mentiras e Video (1989), mas desde então tem balançado na corda bamba, entre experimentais projectos pessoais (Kafka, O Falcão Inglês e Full Frontal) e rentáveis produções mainstream (Romance Perigoso, Erin Brockovich, Tráfico e os Ocean’s 11, 12 e 13).

O Delator! não passa de um pequeno fait divers, uma diversão para o realizador após o pesado Che (2008), uma ideia que saltou da cartola num momento de distracção, uma partida de ping pong com o seu amigo Matt Damon, que andava à procura de aceitação por parte dos seus amigos ladrões de bancos ao longo da trilogia Ocean’s. Agora, é o seu personagem o grande manipulador, conduzindo os eventos que conduziram à exposição de uma conspiração de fixação de preços entre vários concorrentes da indústria dos cereais, artimanha que acabou por revelá-lo como um mentiroso compulsivo, corrupto e bi-polar. Tratou como fantoches o FBI, colegas de trabalho e a família, construindo castelos no ar e fazendo conjecturas contrárias à lógica, para justificar cada passo que dava. O filme começa subtil e Soderbergh nunca deixa de ser um realizador atento a todos os pormenores cénicos, mas a história acaba por entediar até o mais paciente. Scott Bakula, com um penteado à Spock, também não favorece a produção.

The Informant! 2009

Adventureland, de Greg Mottola

Com quantidades precisas de drama e comédia, Gregg Mottola é rei e senhor de Adventureland, um humilde e ferrugento parque de diversões local, determinante para o verão de maturidade de meia dúzia de jovens que ziguezagueiam entre um futuro e a falta dele. Montado peça a peça com uma sensibilidade que as roupas e músicas transportam a 1987, Mottola conduz-nos a um período onde todos estivemos um dia, no qual descobrirmos quem éramos era mais penoso do que descobrirmo-nos para os outros, onde ter carácter era ser anormal e onde tudo o que parecia perfeito podia desmoronar como um frágil castelo de cartas.

A anos-luz de Super Baldas (2007), a sua primeira comédia, com argumento de Seth Rogen, Adventureland é imediatamente perceptível como um projecto pessoal e independente, escrito pelo próprio realizador, muito mais concentrado nos seus personagens do que no humor fácil e escatológico da escola Judd Apatow. Mottola transforma o seu barro em pessoas de carne e osso e é capaz de extrair dos seus actores a centelha necessária para incendiar os nossos corações.

Um Adventureland existe realmente, mas em Farmingdale, Long Island, onde o realizador chegou a trabalhar. Devido às remodelações verificadas nesse parque nas últimas duas décadas, Mottola deslocalizou o do filme para Pittsburgh, Pennsylvania, filmando no verdadeiro Kennywood Park, onde as diversões que se vêem estão em funcionamento ainda hoje.

Jesse Eisenberg protagonizou, no mesmo ano, Zombieland e Adventureland. Podendo lamentar-se que o actor se tenha estereotipado ou congratulá-lo por ter encontrado o seu nicho, é indiscutível que encontrou o registo certo para os seus caracóis, nisso ultrapassando Michael Cera, que tinha a mesma função em Super Baldas, curiosamente com a mesma actriz que Eisenberg conquistou em Zombieland, Emma Stone. E não é como se Kristen Stewart (a Bella da saga Crepúsculo), eterna menina tímida e perturbada, tenha também um grande espectro de interpretações. Durante 107 minutos, ambos mantiveram zombies, vampiros e lobisomens à margem e viveram como jovens comuns um verão cheio de peripécias, cómicas, embaraçosas e trágicas. Bill Hader e Ryan Reynolds ajudam à festa.

Adventureland 2009

Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

Avatar, de James Cameron

Mistura de Pocahontas e Danças Com Lobos de efeitos visuais vanguardistas, Avatar é a nova aventura futurista de pendão infantil de James Cameron, doze anos após a mais chorosa história de amor com um navio submerso.

Duas semanas de 1994 foram suficientes para Cameron alinhavar o enredo e as filmagens iriam desenrolar-se logo após as de Titanic (1997), mas o arcaísmo tecnológico da época fê-lo engavetar o projecto até que Gollum (Senhor dos Anéis As Duas Torres, 2002), King Kong (2005) e Davi Jones (Piratas das Caraíbas O Cofre do Morto, 2006) o motivaram a ir buscar a chave. Mas não uma caneta.

O estandarte de Avatar é realmente, a parte técnica. Para além de ter sido filmado em 3D com uma câmara patenteada pelo próprio realizador, capaz de juntar imediatamente real e digital (até aqui, o cenário tinha de esperar pela pós-produção), entregou os efeitos visuais à Weta Digital (a empresa de FX que fica mais à mão a Peter Jackson) e, para que os mesmos ficassem prontos a tempo, a Industrial Light & Magic cuidou das geringonças mecânicas e das explosões. Por isso, lamenta-se que não tenham sido limadas as arestas de uma história que peca pelo simplismo e infantilidade, que não se preocupa em dar a menor frescura a algo que já foi visto tantas vezes. Basicamente, temos um mercenário branco que se infiltra em território inimigo, apaixona-se pela pureza da cultura deles, arrebata o coração da princesa, ergue-se como o seu campeão (superando todos os nativos em duras provas físicas e ganhando o seu respeito) e condu-los na rebelião contra os próprios humanos, vistos como uma massa indistinta, movida pela ganância e pelo ódio (querem o minério do sub-solo da área mais sagrada do povo nativo e para isso têm de expulsá-lo). E semelhante maniqueísmo não se esperava de James Cameron. Os indígenas só têm qualidades e os humanos só têm defeitos. Com o bem e o mal tão marcadamente definidos, não chega a haver qualquer conflito para o herói, que toma o lado mais íntegro, de um povo que tem direito a defender-se do invasor.

Michael Moore, o realizador activista de Farenheit 9/11 (2004) e Capitalismo: Uma História de Amor (2009), considerou o enredo de Avatar actual, por causa da guerra no Iraque, mas estará com certeza a esquecer-se de que todos os Impérios, do Romano ao Luso, passaram pela experiência da pilhagem e destruição dos povos conquistados, uma verdade também para os índios americanos, que ele tão bem retratou num sketch de Bowling For Columbine (2002), e a quem os indígenas de Avatar se assemelham, apesar da tez azul e das feições felinas.

Primeiro filme a ultrapassar a barreira dos dois biliões de dólares em bilheteiras, Avatar é um exemplo de sucesso, mas não é alheio a esse resultado o facto de os bilhetes serem bastante mais caros (os óculos 3D pagam-se a 2€ e nos cinemas IMAX o preço dos bilhetes era de $18,50) e de terem sido gastos em marketing 150 milhões de dólares. Já agora, o custo de produzi-lo foi de 277 milhões, dos quais 15 milhões foram canalizados para o desenvolvimento da tecnologia das câmaras 3D. É um marco, não há qualquer dúvida, para filme mais caro e mais rentável, e também pelos avanços tecnológicos atingidos: a profundidade do efeito 3D (discreto, se considerarmos que nada parece saltar da tela em direcção ao rosto do público; será comparável a espreitar pela janela), a riqueza na iluminação de espaços tão vastos como uma floresta virtual e o primor da captura de movimento (Gollum e o milagre da multiplicação), que permitiu copiar as expressões dos actores para as suas incarnações digitais. A Weta utilizou 35 mil servidores, o que corresponde a 17Gb de memória para cada minuto de filme.

Emocionalmente, é onde Avatar perde. O visionário que concebeu Exterminador Implacável (1984) e o suplantou em Exterminador Implacável 2 (1992) optou por manter a trama demasiado básica e permitir que se encontrem plágios a cada minuto. Call Me Joe (1957) já tinha um paralítico que usava um avatar (Matrix, 1999, ao menos, revolucionou a ideia), Pocahontas (inúmeras versões, incluindo O Novo Mundo, de Terence Malick, 2005) e Danças Com Lobos (1990) são copiados quase ipsis verbis, Aliens tinha um grupo de mercenários deslocados a um planeta estranho para matar extraterrestres a mando de uma empresa que queria lucrar com o ADN das criaturas, etc. Assiste-se a uma colagem baça a temas e tramas anteriores, a personagens-tipo, diálogos planos e desenvolvimento previsível. Tantos clichés obstam a que nos imersemos nesse mundo de fantasia. Sobra a qualidade técnica, mas não deveria esta apenas servir para melhor contar a história? Se um filme deve ser apreciado pelas suas diversas características, este notabiliza-se por uma única. E os óculos 3D, agora feitos de massa sólida (os clássicos azuis e vermelhos tinham a armação em cartolina), são bem complicados de usar durante 162 minutos, para quem já tem um par encavalitado no nariz. Para esses milhões de espectadores, deveria haver lentes 3D para aplicar sobre a armação oftalmologicamente receitada, ou óculos 3D com graduação.

Porque sou adepto da teoria de que qualquer história pode dar um bom filme, desde que este saiba contornar os pontos fracos e ser empolgante, é manifesta a desilusão relativamente às próprias cenas de acção de Avatar, onde James Cameron deveria brilhar até no escuro. Não por falta de realismo visual, mas porque massas de helicópteros contra massas de extraterrestres montados em dragões não passam disso, pontos no ecrã, carne para canhão. Para que o cinéfilo seja envolvido, é necessário confrontação directa, com rostos discerníveis, e isso praticamente só se verifica nos momentos finais, onde duas flechas envenenadas são decisivas. De resto, a luta de King Kong contra dois dinossauros (2005) foi, por exemplo, muito mais vibrante do que as cenas com dinossauros em Avatar, e combates de helicópteros é o que a manga futurista japonesa mais tem. Ainda bem que a cena de sexo entre Jake e Neytiri, o par de eleição, foi cortada na montagem (constará do DVD), já que a inocência, quase ingenuidade, do filme sairia prejudicada.

Por último, os actores. Sigourney Weaver volta a reunir-se a James Cameron, depois de Aliens (1986), e é uma delícia ver as suas expressões num dos avatares. Stephen Lang é um fabuloso actor de palco mas, como em quase todas as suas aparições na sétima arte, é o mero protótipo do bruto ou do sacana (cumpre ambos em Avatar), excepção feita a A Última Saída Para Brooklyn (1989). Michelle Rodriguez volta a encontrar-se depois de Lost (foi expulsa da série devido a um incidente de condução alcoolizada). O australiano Sam Worthington está num momento mágico (num só ano, filmou Exterminador Implacável: Salvação, Avatar e Choque de Titãs). Quanto ao povo Na’ji, é fácil reconhecer nos rostos e vozes de Neytiri, Eytukan e Moat os actores Zoe Saldanha (ainda mais bonita como Neytiri do que ao vivo), Wes Studi e C.C.H. Pounder.

Um conselho àqueles que, segundo relatos, ficaram deprimidos por não existir um planeta como Pandora e tenham contemplado o suicídio por razão tão fútil: vão salvar o que resta da Amazónia, também lá há índios que precisam de ajuda. O que me leva à última piadola: em vez de Leona Lewis a cantar I see You durante os créditos finais, um cover de Earth Song, de Michael Jackson, teria resultado à maneira. Sim, porque Avatar é um filme calculista e pseudo-ambientalista, cheio de religiosidade a fazer-se passar por espiritualidade.

Avatar 2009

Domingo, Fevereiro 07, 2010

Sherlock Holmes, de Guy Ritchie

Guy Ritchie, livre de Madonna, estava afinal apenas a aquecer quando apresentou Rockn’Rolla (2008), uma não tão intricada trama de facadas nas costas mafiosas como os seus dois primeiros filmes, Um Mal Nunca Vem Só (1998) e a consagração com Porcos de Diamantes (2000). Ao abrir-nos a porta do fictício 221 B da Baker Street, Ritchie atira-nos para uma Londres excepcionalmente bem caracterizada na sua imundice, com a revolução industrial a servir de fundo a um mistério de contornos aparentemente sobrenaturais, mesmo ao jeito que Sherlock Holmes gosta para afiar o dente, e uma forma de o reunir ao seu fiel Watson e à esquiva femme fatale Irene Adler. Há ainda tempo para as maquinações na sombra de um par de luvas de pelica com uma pistola dentro da manga, que certamente fará uma aparição mais consistente na já anunciada sequela.

Da pena de Sir Arthur Conan Doyle nasceu em 1887 o investigador privado Sherlock Holmes, reconhecido mundialmente pelas suas inacreditáveis capacidades dedutivas, mas que o autor concebeu igualmente como exímio lutador, mestre dos disfarces e interessado por alquimia e outras ciências menores. Sem descuidar de nenhuma destas características, ignoradas pela maior parte das adaptações, o argumento a cinco mãos disponibiliza a Robert Downey Jr as armas necessárias a convencer-nos de que há um cérebro por trás da máscara de ferro.

A típica paleta de cores frias de Guy Ritchie adequar-se-ia ao género em que se circunscreve a obra policial de Conan Doyle, mas o realizador decidiu pisar o risco, anabolizando personagens e acção, numa mal disfarçada tangente ao universo dos comics, actualmente tão familiar ao protagonista. Se dúvidas persistissem quanto à efectividade desta agressiva abordagem face a um público habituado ao clacissismo britânico, a aposta foi ganha sem que se ateassem autos-de-fé ou erguessem outros suplícios.

A essa dinâmica quase circense correspondeu o entusiasmo de Robert Downey Jr, a contagiar até o vulgarmente sorumbático Jude Law e a minorca Rachel McAdams, destemida como a pouco secreta paixão de Holmes (e com a mesma tonalidade de cabelo que Ligações Perigosas, 2009). Kelly Reilly fecha o ramalhete em beleza, como Mary Morstan, ela que foi uma cliente do Holmes literário e rouba o coração de celulóide de Watson, decidido a assentar numa vida de casado que Holmes rejeita, receando que isso o inviabilize como parceiro de mistérios. Os dois provam estar prontos para as curvas e as ruas de Londres não se fizeram rogadas, com sangue e cordite a provar o quão perigosas eram em 1891, com uma Bridge Tower ainda em construção a servir de cenário ao empolgante clímax.

O convite para a banda sonora chegou a Hans Zimmer por duas vias. Os produtores imaginavam o veículo Sherlock Holmes na óptica Batman Begins e Guy Ritchie até já fizera uma montagem provisória com música roubada ao Cavaleiro Negro. Zimmer aceitou a proposta, mas levou-a numa direcção completamente diferente, descrevendo a sua visão como uma mistura de The Pogues com orquestra romena. A composição foi nomeada para os Globos de Ouro (perdeu para Up, de Michael Giacchino) e para os Oscares.

Sherlock Holmes 2009

Terça-feira, Fevereiro 02, 2010

Fama, de Kevin Tanchareon

Fama é uma instituição. Datado de 1980, o filme original era um arrojado estudo sobre a natureza humana, pegando num punhado de adolescentes que queriam explorar as suas capacidades de expressão artística e registando o seu progresso, humano e académico, ao longo de quatro anos de definição de carácter na New York High School of Performing Arts. O argumento dividia-se em segmentos, correspondendo cada um deles a um ano lectivo, das audições à formatura. O seu sucesso (Oscar de Melhor Banda Sonora e Canção Original para Michael Gore) despoletou uma série televisiva com seis temporadas (1982 a 1987), um espectáculo musical de palco e agora um remake.

Quatro actores transitaram do filme para a série e apenas um chega à nova versão: Debbie Allen, outrora a professora de dança, agora Directora da Escola. É a ela que cabe o discurso inicial, uma reconstituição do clássico «Vocês querem fama, mas a fama custa e é aqui que começam a pagá-la, com suor». Desconhecem-se as contas que a produção do remake deixou por pagar, mas assim como à anafada Debbie Allen não resta o menor resquício da elegância da antiga bailarina, nenhum dos envolvidos «vai viver para sempre».

Primeiro do que tudo, falta carisma. Nenhum dos actores e actrizes é verdadeiramente atraente e uma regra deve ter sido criada para que ninguém aparentasse uma altura superior a 1,75m. Há apenas uma voz que se destaca em todo o filme, a de Naturi Naughton. Canta ambas canções interpretadas por Irene Cara no original, Fame e Out Here On My Own e duas originais, porque não contrataram mais vozes capazes. Às meninas amotinadas, conceda-se que a voz de Asher Book é melodiosa, mas num registo limpo e mediano, não desafina, mas não arrisca. Quanto a bailarinos, há apenas Kherington Payne, finalista da quarta temporada do programa So You Think You Can Dance. Do filme inteiro, somam-se somente três curtíssimas coreografias que não fazem sequer subir a adrenalina, sendo inclusivamente montadas de modo a entrecortar a dança com estáticos personagens em diálogo, o que naturalmente lhes esfria o ritmo. O sarau do desfecho é um exemplo do mais completo autismo, com câmaras lentas, holofotes e ainda um coro a distraírem dos movimentos em palco.

O elenco do corpo docente é competente, mas esqueceram-se de alimentá-lo. Bebe Neuwirth, bailarina de jazz premiada (pelo musical Chicago), é a professora de dança; não dança e contam-se pelos dedos as frases que profere, na sua acidez habitual. Charles S. Dutton e Kelsey Grammer (respectivamente os professores de teatro e composição) estão lá pela mera presença e Megan Mullally (professora de canto) canta, para mostrar que tem mais registos do que o quebra-cristais da série Will & Grace.

Quanto à trama, segue o regime do filme original, dividindo-se pelos anos lectivos, mas permanece uma imagem de inércia, sem aproveitamento por parte dos alunos ou ensinamentos por parte dos professores. Quem tirou um curso sabe que quatro anos não passam a correr, cada ano exige muito estudo. Na nova versão de Fama, a Escola das Artes não tem mais importância do que ser campo de pasto, mero trampolim para saídas profissionais que não exigem sequer a conclusão do curso. Não se assiste a um minuto de agonia, apreensão, suores frios, esforço, estudo. Tudo acontece nos tempos livres. Há espaço para tentar acordos discográficos, namorar e dar concertos. Pode até ser mais vantajoso ingressar a meio do curso no mercado de trabalho, se uma companhia de bailado mostrar interesse na contratação. No campo social, é a pocilga da trivialidade, o triunfo dos clichés. O actor que tenta aproveitar-se sexualmente do patinho feio, o produtor que quer desfazer o grupo porque só está interessado na vocalista, a menina rica que gosta do menino pobre, os pais que não reconhecem o talento dos filhos...

O conceito Fama é desrespeitado. A Escola das Artes não passa de cenário para rentabilização. Step Up também se passava numa escola do género e não precisou de roubar o título. Com números de dança tão breves e insípidos, qual a justificação para castings com milhares de candidatos? Um bailado é algo que se quer ver sem cortes de montagem, para que se compreendam os movimentos, para que a coreografia flua do passo A ao B e não apenas ver o passo A e B, implica progressão e não instantes colados. E, definitivamente, o que público de Fama buscava era dança, ritmo, um espectáculo musical hipnótico e motivador, pleno de elasticidade física, harmonia e simetria nos gestos. Dirigido por um coreógrafo, este remake é um fracasso. Personagens de papel numa escola de cartão. High School Musical – A Nova Geração.

O filme original era um drama com música, tinha tudo a ver com os personagens, a sua vontade em singrarem, mas também em conhecerem-se a si próprios, debatendo-se com dramas pessoais como a pobreza, a repressão familiar, a homossexualidade e o aborto. A derivação televisiva prosseguia nesse prisma, mas terminava cada episódio com uma coreografia, e essa era a sua imagem de marca. Assim como o Justiceiro (Knight Rider) premia sempre o turbo booster numa perseguição ou os Soldados da Fortuna (A-Team) saltavam do furgoneta de armas em riste. Mas não se assiste a nada disso no remake de Fama. Para além de que ninguém se desunha a dançar, as cenas de narrativa, vistas individualmente ou em conjunto, não fazem avançar a acção, qual comboio sem paragens. Chumbo garantido.

Fame 2009

Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

Presente de Morte, de Richard Kelly

Virginia, 1976. Uma caixa com um botão, deixada na soleira da porta. Se o botão for premido em 24horas, a recompensa imediata é de um milhão de dólares. Alguém irá morrer na sequência desse acto, mas será um desconhecido. Em ambos casos, a caixa é recolhida no final do prazo, e entregue a terceiros, para que a experiência seja repetida. Esta é a premissa de um thriller que começa como um clássico episódio da Quinta Dimensão de Rod Serling, dá duas piscadelas de olho ao Dark City de Alex Proyas e subitamente inquina como as carreiras dos supracitados.

A referência à Quinta Dimensão não é ingénua, uma vez que a primeira meia hora de filme segue taco-a-taco o conto Botão Botão, de Richard Matheson (Eu Sou A Lenda, 2007) adaptado para essa série em 1986. O guarda-roupa e os cenários da época ajudam a conjurar o efeito. Exactamente como no conto e no episódio, o casal presenteado com a caixa é assaltado por dúvidas morais, mas o botão é premido ao cabo de trinta minutos de película. A partir desse limiar, livre da pena protectora de Matheson, a história torna-se exruciantemente imbecil e simplória.

O realizador do sobrevalorizado Donnie Darko (2001) e do subvalorizado Southland Tales (2006) mostra que não tem mais a oferecer do que um remake de Botão Botão e que os pratos por lavar mais valia serem partidos, porque os reflexos da lavagem são de detergente de marca branca. Em vez do alívio que devia ter sentido por ter concluído a tarefa, o casal não tem oportunidade de desfrutar da fortuna. Primeiro, tentam devolvê-la e depois o marido decide investigar a misteriosa figura do dono da caixa, adiantando-se pelos clássicos temas da paranóia governamental, interferência extraterrestre e lobotomia em saldo. Moral da história: se um ser humano é capaz de matar outro por dinheiro, a Humanidade não merece existir. E Klaato não intervirá a nosso favor. Quanto a as esposas serem os seres com moralidade mais flexível e terem de emendar os seus pecados com um tiro no coração, é no mínimo discutível.

O pior de Presente de Morte é a sua implausibilidade. Nem Chris Carter inquinou os Ficheiros Secretos desta maneira, mantendo as maquinações do Governo dentro de um bom gosto que permitiu acompanhar-lhe as tramas durante sufocantes temporadas. Quem são os «empregados» do bizarro Sr. Steward (dono da caixa), alguém que passou pela prova do botão ou um exercício de body snatching? De que serviu o teste a que o marido foi submetido, em que teria de escolher um de três portais de água (salvação num, inferno nos outros), se ter acertado não lhe trouxe qualquer proveito? E se o casal está assim tão necessitado de dinheiro, como é que habitam numa bela moradia e o marido conduz um carro desportivo? Richard Kelly perdeu totalmente o controlo da trama. Sem falar no ensaio de casamento da irmã da protagonista, onde ambas se portam como desconhecidas, a cena da Biblioteca é o cúmulo da idiotice, com dezenas de zombies e a aparição da esposa de Steward, que se supunha morta, mas cuja intervenção acaba por não servir de nada.

Em termos de proveitos de bilheteira, o filme apenas recuperou um terço dos 30 milhões que custou. Será um tabefe de luva de pelica, dado a um convencido e iludido Richard Kelly, que afirmou em entrevistas que Presente de Morte corresponderia exactamente ao que a Warner Bros esperava de um filme dirigido ao grande público. Ao provar-lhe o contrário, esse mesmo público questiona-se com o excessivo valor do orçamento, a considerar pelos mendicantes efeitos especiais e pela não existência de um único nome sonante. Cameron Diaz, James Marsden e Frank Langella são valores seguros, mas nenhum deles é magnético. Não, nem ela.

The Box 2009

Funny People, de Judd Apatow

Adam Sandler fez nome em sketches do programa Saturday Night Live e daí saltou para a sétima arte, em comédias sem piada, inexplicavelmente exultado pelo menos exigente público norte-americano. Sem formação de actor ou capacidade inata, Sandler é, quando muito, um humorista sem método ou técnica, um mistério de sucesso para os anais da imbecilidade. Espanglês (2005) conta-se entre os seus fracassos em ser levado a sério, e Funny People vem encimar o poio.

Um estafado comediante rico (Adam Sandler) decide voltar ao stand up quando recebe a notícia de ser doente terminal e contrata os serviços de um jovem humorista (Seth Rogen), que vive desiludido com a sua fraca exposição e o maior êxito dos dois companheiros de casa (Jonah Hill e Jason Schwartzman), para lhe escrever piadas novas. A relação entre os dois desenvolve-se entre os servilismo e a amizade, com uma curva para o romance quando o comediante decide reconquistar uma velha chama, actualmente casada (Leslie Mann).

O único actor que faz um brilharete é Eric Bana, porque nem sequer tenta ser engraçado. A realização e escrita de Judd Apatow (Virgem aos 40 Anos, Um Azar do Caraças) ficam abaixo das previsões menos simpáticas, provando que actores sem talento não melhoram personagens parvas nem histórias planas. Os cameos de Ray Romano, Eminem e Sarah Silverman não ajudam.

Numa comédia tão apática, deveria ter surgido no genérico que Apatow escreveu o guião com o propósito de reproduzir o enredo de O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald. Para quem se tiver questionado, alguns dos sketches em que Adam Sandler surge mais novo são realmente dele, assim como o genérico de abertura é real: Apatow e Sandler partilharam um apartamento há anos e filmavam os telefonemas trocistas que faziam aleatoriamente. As actrizes que fazem de filhas de Leslie Mann são as filhas dela e do realizador, com quem é casada.

Funny People 2009

Domingo, Janeiro 31, 2010

Invictus, de Clint Eastwood

Baseado no livro de John Carlin, Invictus é um drama biográfico sobre o período de tomada de poder de Nelson Mandela como Presidente da República da África do Sul e de como promoveu a união do país através da prestação da equipa nacional de rugby no mundial de 1995 da modalidade.

Apesar de ser um campeão da liberdade, Nelson Mandela percorre o filme como uma figura calculista, ainda que bem intencionada, que não se interessa por desporto mas se serve dele para eliminar a cisão entre brancos e negros, tensa desde a sua eleição. Simpático e frágil, para atenuar esse efeito de jogador de xadrez, Morgan Freeman passeia a segurança de quem já foi Presidente dos EUA (Impacto Profundo, 1998). Como carisma não se transmite por osmose, falta a Matt Damon, num cabelo loiro que lhe assenta tão mal quanto o tamanho, capitão da equipa nacional de rugby sul-africana, com metade da altura dos restantes jogadores, esses então a funcionarem como um todo amorfo e indistinto.

Clint Easdtwood, desta vez, jogou pelo seguro. Longe das obras-primas que foram Mystic River (2004) e Million Dollar Baby – Sonhos Desfeitos (2005) – para não falar de um Imperdoável com quase duas décadas (1992) –, avança em piloto automático, acompanhando o percurso da equipa até ao jogo final, pintalgando o cenário com os subtis retoques de marionetista do Presidente Mandela para aumentar o moral dos jogadores e o apoio nacional indiscriminado. A verdade é que, se não fosse uma história verídica, dispensava-se. O rugby é um desporto marginal e a realização não tenta torná-lo interessante, com as cenas dos jogos a resultarem avulsas e confusas. Os jogadores são uma amálgama em calções e T-shirt e Matt Damon é incapaz de dar-lhes rosto. Resta Morgan Freeman, sempre uma delícia, mas insuficiente para uma refeição completa.

Em conclusão, se a 2ª Guerra Mundial foi ganha num jogo de futebol entre a Equipa Nacional Alemã e um bando de prisioneiros indisciplinados, entre os quais Sylvester Stallone e Pelé (Fuga Para A Vitória, 1981), Nelson Mandela pode perfeitamente ter feito o mesmo pela África do Sul, através da sua equipa nacional de rugby. O título do filme provém de um poema homónimo de William Earnest Henley, de 1875, do qual Mandela terá retirado força diária para sobreviver ao cativeiro de 30 anos numa cela minúscula, na prisão de Robben Island, visitada como parte do treino.

No campo das curiosidades: a final do campeonato tinha apenas 2000 figurantes nas bancadas; a lotação foi esgotada com 60 mil fãs digitais. Quanto ao avião que faz um voo raseiro sobre o estádio, a produção transforma-o numa suspeita de atentado, quando na realidade houve autorização para a proeza. O último golo do jogo é marcado pelo actor Scott Eastwood, filho do realizador.

Invictus 2009

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

Lua Nova, de Chris Weitz

Ponto de viragem na saga de Edward e Bella, o insípido vampiro e a serôdia humana. Conheceram-se ao Crepúsculo e separaram-se sob a a Lua Nova, mesmo a tempo de Jacob cortar o cabelo, fazer uma tatuagem e transformar-se em Lobisomem. Pormenorizando, Lua Nova é o capítulo da perda. Apercebendo-se de que o pescoço de Bella não estava seguro com tantos vampiros por perto (nomeadamente, os próprios Cullens), Edward abandona-a. Após meses a amargar o abandono, Bella começa a recuperar com o apoio de Jacob, e é aqui que o filme arrebita. Nota mental, provavelmente Edward era o enguiço. À mistura, há Volturis em Voltera e Edward pede Bella em casamento.

Para Stephanie Meyer, este segundo capítulo surgiu como uma adenda, ela que já desenvolvia o terceiro tomo como se fosse o segundo, quando as vendas do primeiro a motivaram a escrevinhar mais uns disparates por dinheiro. Dirigido ao mesmo público adolescente com ávidas mesadas para gastar, Lua Nova dá 18 anos a Bella e uma obsessão de iminente velhice face aos 17 eternos do namorado, não obstante este ter, aritmeticamente, 109. Se esta insistência na idade e a mera presença de Edward podem parecer excruciantes, nada nos prepara para a depressão que ela vai sentir depois de os Cullen partirem para parte incerta. Será o aparente triângulo amoroso, aflorado junto do lobi-jovem Jacob, que despertará o público.

O episódio com o clã Volturi é esquemático e insustentado e, para quem não estiver familiarizado com os livros, não faz muito sentido. Se Edward estava no Rio de Janeiro quando decide pôr fim à sua existência, qual é a lógica de deslocar-se a um recôndito lugarejo italiano para esse efeito? E a construção temporal para que Bella o siga é absurda: de uma terreola americana, ela consegue viajar até uma cidade com um aeroporto internacional, atravessar o oceano, alugar um carro e chegar a Volteria em menos de 12 horas. No livro, essa sequência de eventos demora três dias, o que ajuda a engolir.

Catherine Hardwicke, realizadora de Crepúsculo, foi substituída por Chris Weitz, a quem haviam tirado o tapete da trilogia A Bússola Dourada (saga que se ficou pelo primeiro tomo, após uma fria recepção que merecia mais). Co-realizador de American Pie e Era Uma Vez Um Rapaz, Weitz é muito mais capaz do que Hardwicke, mas o material à disposição é entrave a melhor resultado. A relação entre Bella e Edward continua chocha, por mais trágica que a queiram caracterizar, e Jacob é demasiado miúdo para se evidenciar. Michael Sheen e Dakota Fanning engrossam a lista de nomes encabeçada por Kristen Stewart, Robert Pattinson e Taylor Lautner, mas ele pouco mais faz do que parecer um travesti e ela uma convencida figurante. Outrora líder dos lobisomens em Underworld, a figura de Sheen é demasiado vulnerável para o papel de Aro.

Chris Weitz não regressará para o tomo terceiro (Eclipse), sendo o papel atrás das câmaras ocupado por David Slade (Hard Candy e 30 Dias de Noite). Como principal justificação, fica o abuso na câmara lenta (as perseguições na floresta, Jasper na festa, a luta na Casa Volturi) e o encadeamento pragmático, que visa distrair da falta de lógica, mas apenas a evidencia. Por último, a queixa inquestionável quanto à troca de compositor. A banda sonora intimista de Carter Burwell para Crepúsculo é muito mais interessante do que a pompa de Alexandre Desplat para Lua Nova.

New Moon 2009

Zombieland, de Ruben Fleischer

Já o mais rentável filme de zombies de sempre, Zombieland é uma comédia em forma de viagem, num mundo onde a doença das vacas loucas transformou os humanos em canibais. Acompanhamos o hilariante percurso de quatro sobreviventes nas suas buscas pessoais: um deles quer saber se os pais estão bem, o outro não descansa enquanto não encontrar o seu snack favorito e as duas irmãs procuram um local seguro, com passagem obrigatória por um centro de diversões às portas de Los Angeles. Os jogos de gato e rato entre eles são tão engraçados quanto os encontros com os infectados. As regras de sobrevivência do narrador participante vão sendo colocadas à prova a cada passo e novos artigos são criados pelo caminho. Convém nunca desvalorizar as pequenas alegrias.

Rhett Reese e Paul Wernick conceberam ao argumento em 2005, a pensarem numa série televisiva, mas Ruben Fleischer entrou a bordo e a condensação teve início. Apesar de antecipada uma aparição de um zombificado Patrick Swayze, o papel exigia um actor vivo e Bill Murray tomou o lugar. A improvisação das suas cenas e a ausência de dança poderão justificar que prometessem mais do que cumprem. A casa apontada como morada de Murray é, na realidade, do rei do imobiliário Lee Najjar e situa-se em Atlanta e não em Los Angeles.

Zombieland é uma comédia que esquece o terror. Os confrontos com os zombies são rápidos e eficientes, mas nunca se chega a temer pelos heróis. O medo está tão ausente que a questão é «como é que vão safar-se» e nunca «será que vão safar-se». Fica assim uma aventura para toda a família, com um elenco bem entrosado (Woody Harrelson, Jesse Eisenberg, Emma Stone e Abigail Breslin), maquilhagens desenvolvidas por Tony Gardner (imortal desde o Thriller de Michael Jackson) e um director de fotografia escolhido pela sua penetração na acção de câmara ao ombro, Michael Bonvillain (Cloverfield, 2007). A maior inspiração para Zombieland foi, segundo o realizador, o britânico Shaun of the Dead (2004).

Zombieland 2009

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