Mistura de Pocahontas e Danças Com Lobos de efeitos visuais vanguardistas, Avatar é a nova aventura futurista de pendão infantil de James Cameron, doze anos após a mais chorosa história de amor com um navio submerso.
Duas semanas de 1994 foram suficientes para Cameron alinhavar o enredo e as filmagens iriam desenrolar-se logo após as de Titanic (1997), mas o arcaísmo tecnológico da época fê-lo engavetar o projecto até que Gollum (Senhor dos Anéis As Duas Torres, 2002), King Kong (2005) e Davi Jones (Piratas das Caraíbas O Cofre do Morto, 2006) o motivaram a ir buscar a chave. Mas não uma caneta.
O estandarte de Avatar é realmente, a parte técnica. Para além de ter sido filmado em 3D com uma câmara patenteada pelo próprio realizador, capaz de juntar imediatamente real e digital (até aqui, o cenário tinha de esperar pela pós-produção), entregou os efeitos visuais à Weta Digital (a empresa de FX que fica mais à mão a Peter Jackson) e, para que os mesmos ficassem prontos a tempo, a Industrial Light & Magic cuidou das geringonças mecânicas e das explosões. Por isso, lamenta-se que não tenham sido limadas as arestas de uma história que peca pelo simplismo e infantilidade, que não se preocupa em dar a menor frescura a algo que já foi visto tantas vezes. Basicamente, temos um mercenário branco que se infiltra em território inimigo, apaixona-se pela pureza da cultura deles, arrebata o coração da princesa, ergue-se como o seu campeão (superando todos os nativos em duras provas físicas e ganhando o seu respeito) e condu-los na rebelião contra os próprios humanos, vistos como uma massa indistinta, movida pela ganância e pelo ódio (querem o minério do sub-solo da área mais sagrada do povo nativo e para isso têm de expulsá-lo). E semelhante maniqueísmo não se esperava de James Cameron. Os indígenas só têm qualidades e os humanos só têm defeitos. Com o bem e o mal tão marcadamente definidos, não chega a haver qualquer conflito para o herói, que toma o lado mais íntegro, de um povo que tem direito a defender-se do invasor.
Michael Moore, o realizador activista de Farenheit 9/11 (2004) e Capitalismo: Uma História de Amor (2009), considerou o enredo de Avatar actual, por causa da guerra no Iraque, mas estará com certeza a esquecer-se de que todos os Impérios, do Romano ao Luso, passaram pela experiência da pilhagem e destruição dos povos conquistados, uma verdade também para os índios americanos, que ele tão bem retratou num sketch de Bowling For Columbine (2002), e a quem os indígenas de Avatar se assemelham, apesar da tez azul e das feições felinas.
Primeiro filme a ultrapassar a barreira dos dois biliões de dólares em bilheteiras, Avatar é um exemplo de sucesso, mas não é alheio a esse resultado o facto de os bilhetes serem bastante mais caros (os óculos 3D pagam-se a 2€ e nos cinemas IMAX o preço dos bilhetes era de $18,50) e de terem sido gastos em marketing 150 milhões de dólares. Já agora, o custo de produzi-lo foi de 277 milhões, dos quais 15 milhões foram canalizados para o desenvolvimento da tecnologia das câmaras 3D. É um marco, não há qualquer dúvida, para filme mais caro e mais rentável, e também pelos avanços tecnológicos atingidos: a profundidade do efeito 3D (discreto, se considerarmos que nada parece saltar da tela em direcção ao rosto do público; será comparável a espreitar pela janela), a riqueza na iluminação de espaços tão vastos como uma floresta virtual e o primor da captura de movimento (Gollum e o milagre da multiplicação), que permitiu copiar as expressões dos actores para as suas incarnações digitais. A Weta utilizou 35 mil servidores, o que corresponde a 17Gb de memória para cada minuto de filme.
Emocionalmente, é onde Avatar perde. O visionário que concebeu Exterminador Implacável (1984) e o suplantou em Exterminador Implacável 2 (1992) optou por manter a trama demasiado básica e permitir que se encontrem plágios a cada minuto. Call Me Joe (1957) já tinha um paralítico que usava um avatar (Matrix, 1999, ao menos, revolucionou a ideia), Pocahontas (inúmeras versões, incluindo O Novo Mundo, de Terence Malick, 2005) e Danças Com Lobos (1990) são copiados quase ipsis verbis, Aliens tinha um grupo de mercenários deslocados a um planeta estranho para matar extraterrestres a mando de uma empresa que queria lucrar com o ADN das criaturas, etc. Assiste-se a uma colagem baça a temas e tramas anteriores, a personagens-tipo, diálogos planos e desenvolvimento previsível. Tantos clichés obstam a que nos imersemos nesse mundo de fantasia. Sobra a qualidade técnica, mas não deveria esta apenas servir para melhor contar a história? Se um filme deve ser apreciado pelas suas diversas características, este notabiliza-se por uma única. E os óculos 3D, agora feitos de massa sólida (os clássicos azuis e vermelhos tinham a armação em cartolina), são bem complicados de usar durante 162 minutos, para quem já tem um par encavalitado no nariz. Para esses milhões de espectadores, deveria haver lentes 3D para aplicar sobre a armação oftalmologicamente receitada, ou óculos 3D com graduação.
Porque sou adepto da teoria de que qualquer história pode dar um bom filme, desde que este saiba contornar os pontos fracos e ser empolgante, é manifesta a desilusão relativamente às próprias cenas de acção de Avatar, onde James Cameron deveria brilhar até no escuro. Não por falta de realismo visual, mas porque massas de helicópteros contra massas de extraterrestres montados em dragões não passam disso, pontos no ecrã, carne para canhão. Para que o cinéfilo seja envolvido, é necessário confrontação directa, com rostos discerníveis, e isso praticamente só se verifica nos momentos finais, onde duas flechas envenenadas são decisivas. De resto, a luta de King Kong contra dois dinossauros (2005) foi, por exemplo, muito mais vibrante do que as cenas com dinossauros em Avatar, e combates de helicópteros é o que a manga futurista japonesa mais tem. Ainda bem que a cena de sexo entre Jake e Neytiri, o par de eleição, foi cortada na montagem (constará do DVD), já que a inocência, quase ingenuidade, do filme sairia prejudicada.
Por último, os actores. Sigourney Weaver volta a reunir-se a James Cameron, depois de Aliens (1986), e é uma delícia ver as suas expressões num dos avatares. Stephen Lang é um fabuloso actor de palco mas, como em quase todas as suas aparições na sétima arte, é o mero protótipo do bruto ou do sacana (cumpre ambos em Avatar), excepção feita a A Última Saída Para Brooklyn (1989). Michelle Rodriguez volta a encontrar-se depois de Lost (foi expulsa da série devido a um incidente de condução alcoolizada). O australiano Sam Worthington está num momento mágico (num só ano, filmou Exterminador Implacável: Salvação, Avatar e Choque de Titãs). Quanto ao povo Na’ji, é fácil reconhecer nos rostos e vozes de Neytiri, Eytukan e Moat os actores Zoe Saldanha (ainda mais bonita como Neytiri do que ao vivo), Wes Studi e C.C.H. Pounder.
Um conselho àqueles que, segundo relatos, ficaram deprimidos por não existir um planeta como Pandora e tenham contemplado o suicídio por razão tão fútil: vão salvar o que resta da Amazónia, também lá há índios que precisam de ajuda. O que me leva à última piadola: em vez de Leona Lewis a cantar I see You durante os créditos finais, um cover de Earth Song, de Michael Jackson, teria resultado à maneira. Sim, porque Avatar é um filme calculista e pseudo-ambientalista, cheio de religiosidade a fazer-se passar por espiritualidade.
Avatar 2009