Segunda-feira, Novembro 23, 2009

O Padrasto, de Nelson McCormick

Da imaginação de Donald E. Westlake (multi-premiado autor pela Mystery Writers of America) e da visão neo noir do realizador Joseph Rubin, surgiu em 1987 Padrasto Assassino, um thriller psicológico sobre um psicopata que almejava a família perfeita, através de contínuas tentativas com viúvas e divorciadas, a cujas famílias faltava uma figura paternal. Se a família escolhida não se portasse bem, cortava o mal pela raiz e começava de novo.

O actor Terry O’Quinn revelou-se um autêntico diamante em bruto, capaz de incendiar a tela com a sua multifacetada interpretação de um padrasto assassino. O filme, porém, teve uma distribuição limitada e foi um fracasso de bilheteira, ainda que tenha colhido algum merecido culto e despoletado duas sequelas. Apenas o facto de O’Quinn ser um indivíduo magro, calvo e não especialmente atraente impediu que a sua estrela brilhasse mais e mais depressa (algo que, em 1996, julguei que fosse acontecer a Edward Norton, mas esse sempre tinha cabelo). O’Quinn lutou por evidenciar-se nas séries JAG e Millenium, esta última de um Chris Carter que soube ler o seu olhar de sacrifício humano na cena de abertura do filme X Files Fight The Future (1995). Hoje, O’Quinn é Jonh Locke, na série Perdidos.

Contextualmente, O Padrasto é um fenómeno previsível. Sabemos o seu propósito e com quem vai lidar. Um homem simpático chega aos subúrbios, disposto a ser aceite pelos demais e a constituir família. É o sonho americano dos anos 50 reabilitado pelos valores familiares da governação Reagan, mas essa aparência de normalidade voltou a diluir-se na Wisteria Lane das Donas de Casa Desesperadas e na Disturbia (2007) de DJ Caruso, para dar só dois exemplos. O Padrasto Assassino construía-se em redor dos personagens, todos eles partes importantes de um trajecto rumo à demência. Daí a importância de um realizador que soubesse apresentar as pequenas nuances de forma sub-reptícia, até não poderem mais ser imperceptíveis e podermos com elas fazer um colar de presságios, e de um actor que soubesse usar esse colar com orgulho. Em 1987 isso foi conseguido. Em 2009 fez-se o remake desnecessário.

A dupla Nelson McCormick (realizador) e J.S. Cardone (argumentista) não trazem nada de novo. Da mesma forma que se tinham enterrado com o nulo remake de Prom Night (2008), limitaram-se a pegar em alguns actores de televisão e em fazer um ensopado de restos. Dylan Walsh (Nip/Tuck, série 2003-2010) é embaraçosamente bidimensional como o padrasto titular, com um interruptor que apenas vai do acanhado ao indisposto. Sela Ward poderá ter sido escolhido devido à sua prestação como a divorciada mãe de família da série Começar de Novo (1999-2002), mas não se lhe vê a menor centelha da inteligência que terá interessado o Dr. House na temporada de 2006. Penn Badgley vem da série Gossip Girl e de algumas de daytime TV e não é desta que se emancipa. Amber Heard é a que tem mais horas de longa-metragem no currículo, ultimamente fazendo filmes a metro, mas a loira voluptuosa entretanto perdeu as curvas e as bochechas e agora é um caramelo anoréctico, sem nenhum do exotismo que se lhe lia desde All The Boys Love Mandy Lane (2006). Em O Padrasto está constantemente de biquini, mas em Os Informadores (2008) opta pelo topless.

Quando, em pleno clímax, o padrasto confunde as suas identidades e solta a confusa tirada «Quem é que eu sou aqui?», o público podia rir nervosamente com Terry O’Quinn, mas Dylan Walsh não encontra a menor boa vontade por parte de uma plateia entediada com uma premissa estafada e um desenvolvimento sem originalidade. Walsh é apenas um dissimulado Michael Myers com a máscara do pacóvio cirurgião plástico da série Nip/Tuck. Não é simpático nem tem presença, ficando por determinar o que pode a bonita Sela Ward ter visto nele (o que dizer então do seu visual na cena de fecho). Também não se assiste a um esforço consciente e continuado por parte dele em tentar manter a família unida, como se fosse suficiente matar quem se lhe mete no caminho. Os homicídios são entediantes e apressados, só para constarem, e falham em plausibilidade (o som de um videojogo é suficiente para ofuscar um homicídio).

Paranóia sem um único susto, O Padrasto é abismalmente inferior ao original e conta ainda com um final estupidamente insatisfatório. Qual é o psicopata com fobia por ser reconhecido que deixa passar mais de um mês sem regressar para silenciar as testemunhas que deixou vivas? Especialmente quando uma delas está indefesa numa cama de hospital, em coma? E qual a marca do adesivo que usa ao pescoço, aparentemente o bastante para curar uma facada no pescoço, que deveria ter rompido diversas veias indispensáveis à sobrevivência humana?

The Stepfather 2009

Assalto Ao Metro 123, de Tony Scott

A carreira de Tony Scott tem sido povoada por filmes que mais não almejam do que ao entretenimento belicoso, branqueado por um cuidado estético que se tem mantido na crista do que caracteriza os videoclips musicais desde a alvorada da MTV, com uma abordagem temerária que, quando empregue sem travão, se lambuza na ternura do ódio e da tortura. Os casos mais fortuitos do seu baile raivoso são as cenas de interrogatórios informais, que polvilham fitas como True Romance (em 1993, o tratamento de James Gandolfini a Patricia Arquette deixaria mazelas no rosto da personagem que requeririam cirurgia plástica e prótese dentária), Revenge (em 1990, a reacção a uma esposa adúltera foi desfigurá-la e espancar quase até à morte o amante) e A Vingança do Último Escuteiro (em 1991, um Bruce Willis algemado insiste em que lhe ponham um cigarro na boca, mesmo que seja esmurrado de cada vez que tenta inalá-lo).

A carreira de Scott tem sido recheada de êxitos comerciais e críticas implacáveis, usualmente merecidas. Em 1990, conheceria o fracasso de bilheteira ao lado de Tom Cruise, ao empregar um plano de ataque idêntico ao de Top Gun (1986) para as pistas de NASCAR (Dias de Tempestade). Assalto ao Metro 123 é a quarta colaboração entre o realizador e Denzel Washington, actor que conta com dois Óscares no currículo (Actor Secundário em Tempo de Glória, de 1989, e Actor Principal em Dia de Treino, de 2001), nenhum dos quais adquirido ao lado de Scott. Em 2007, Washington filmou sob as instruções de Ridley Scott, irmão mais velho de Tony (Gangster Americano).

Depois de Maré Vermelha (1995), Homem Em Chamas (2004) e Déja Vú (2006), Scott e Washington reúnem-se para negociar o resgate pela vida dos passageiros de uma composição do metro de Nova Iorque, tomada de assalto por desconhecidos armados. Remake do filme homónimo de 1974, coloca o actor frente a frente com o talento duvidoso de John Travolta, ainda que só no final do filme se olhem nos olhos. Na prática, o negociador improvisado e o assaltante pouco usual testam-se continuamente, mas Washington está contrariado e Travolta não passa de um bully a quem não dão o brinquedo apetecido. Falta ímpeto por parte de ambos e tudo o que resta é uma sonolenta batalha de palavras ocas. Travolta já tinha sido vilão em Operação Flecha Quebrada (1996), Swordfish (2001) e O Vingador (2004), mas ainda está por fazê-lo convenientemente. Ponto comum entre Washington e Travolta: estão ambos obesos. James Gandolfini, num papel secundário, tenta emagrecê-los por comparação.

A única cena minimamente mexida do filme é uma ridícula missão, conduzida por figurantes, que transportam do Banco ao local de entrega o valor do resgate: alguém questiona o porquê da não utilização de um helicóptero para o efeito, mas claro que dessa forma não teria sido possível a Tony Scott fazer o que mais gosta, bater chapa.

Para quem possa achar curioso o facto de o personagem de Travolta usar um relógio Breitling – não são nada baratos e destoam do visual de motoqueiro latino - , o actor é porta-voz da marca.

The Taking Of Pelham 123 2009

Quarta-feira, Novembro 18, 2009

Touching The Void, de Kevin McDonald

Joe Simpson e Simon Yates, respectivamente com 25 e 22, decidiram escalar a montanha gelada de Siula Grande, nos Andes (Perú). Foi uma decisão de momento, sem grande ponderação nem estudo. Temerários como eram, puseram-se a caminho, deixando na base, a montar tenda, um conhecido de poucos dias que nem os seus apelidos sabia. A subida dá-se sem complicações, mas ao quarto dia, já na descida, Joe parte uma perna e Simon, julgando-o morto, abandona-o ao seu destino.

Apesar de verídica, pungente e digna de respeito, parte do ímpeto da narrativa perde-se no facto de sabermos que a aventura não será fatal, uma vez que o documentário é impulsionado pelo relato dos próprios intervenientes e, inclusivamente, se baseia no bestseller homónimo do próprio alpinista. História de sobrevivência sóbria, conta com algumas imagens da imponência da montanha e uma reconstituição interessante, mas que se fica pela mera ilustração dos monólogos. De perna partida, Joe Simpson arrastou-se pela encosta, demorando três dias a fazer o percurso que Simon Yates, de duas pernas, completou em horas; fez uma tala com o tapete do saco-cama e usou o machado para gelo como bengala; passou fome, alucinou e teve a vida por um fio.

A realização de Kevin McDonald é falha em intensidade, limitando-se a fotografar os storyboards quando devia ter capitalizado nas emoções. Habituado a documentários (tinha ganho o Oscar de Melhor Documentário em 2000 com Um Dia em Setembro, sobre a morte dos atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972, e em 2001 seguiu Mick Jagger em Being Mick), McDonald passou a mensagem de Joe Simpson em 2003, adaptando o livro por este publicado em 1989. Entretanto, o autor tornou-se um orador motivacional, contando a sua provação pelo mundo fora. Em 2006, O Último Rei da Escócia é a primeira incursão de McDonald na ficção, ainda que o filme exponha eventos reais do reinado do ditador Idi Amin do Uganda (Forrest Whitaker ganhou o Oscar de Melhor Actor pela sua participação).

Touching The Void 2003

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Abraços Desfeitos, de Pedro Almodóvar

É impossível não sentir nostalgia em relação a uma época em que os filmes de Pedro Almodóvar eram plenos de sentimento, carga erótica e risco comercial. Teoricamente filmado segundo o estilo neo noir, enfatizando a tendência hard boiled dos anos 50, Abraços Desfeitos é um exercício vazio, desligado e desprovido de emoção. A história é sensaborona, os personagens não passam de fantoches a quem se deu à corda e os actores debitam os seus textos enquanto se questionam se deixaram o gás aceso em casa e o que vão cozinhar para o jantar. Tirando os fugazes e já sobejamente conhecidos seios de Penélope Cruz, não há absolutamente nada que fique na retina, e os referidos atributos, por muito que redondos e convidativos, não justificam o bilhete.

Pedro Almodóvar encontrou a consagração internacional em 1988, com Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, (filme que lançou António Banderas no mercado americano), mas o percurso até aí fora já de um constante arriscar do formato melodramático (Lei do Desejo, 1987) e até do policial negro (Matador, 1986), sempre injectando os géneros de uma aberta homossexualidade que, inovadora e original para o panorama histórico da 7ª Arte, foi acarinhada e alimentada por público e crítica. Em 1990, a obsessão e a tensão sensual de Ata-me devolveu o realizador aos cenários íntimos e à certeza de que o sucesso não o roubara ao seu universo particular. Tudo Sobre A Minha Mãe (1999) e Fala Com Ela (2002) e catapultaram-no para o novo milénio, mas desde então tem apenas ondulado ao sabor do vento. Os seus três últimos filmes (A Má Educação, Voltar e) pecam por falta de ímpeto, coragem e decisão.

Se a maturidade do cineasta chegou com a calorosa superficialidade de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos e Tudo Sobre A Minha Mãe é a sua obra prima, Abraços Desfeitos está longe de fazer-lhes jus. Com representações tão plásticas quanto as decorações e um classicismo bafiento na construção dramática, o filme move-se como uma sombra dos tempos áureos de um talento que aqui nem sequer aflora.

Los Abrazos Rotos 2009

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

O Lutador de Rua, de Walter Hill

Auspiciosa estreia de Walter Hill como realizador (e argumentista), a aproveitar o êxito da adaptação de The Getaway (1972) para Steve McQueen e Ali McGraw (um casal na vida real, como o eram também Alec Baldwin e Kim Basinger quando fizeram o remake, em 1994). O Lutador de Rua conta com a presença de Charles Bronson e James Coburn, num western dissimulado de modernidade, a passar-se no submundo do pugilato ilegal, campo de batalha que vive de apostas e secretismo.

Para Bronson, este foi o filme que se seguiu a Death Wish – O Justiceiro da Noite (1974), que o consagrara após o regresso aos EUA, para onde regressara após uma década na Europa, a fazer policiais em França e westerns em Itália. O Lutador de Rua tem uma história simples e directa, sem personagens ou situações complexas. O herói é conhecido apenas pelo nome próprio e chega sem passado, assim assegurando uma aura de mistério, ao qual a bóina de trabalhador procura dar uma resposta não verbalizada. Ele é parte da massa anónima que tenta fazer pela vida numa sociedade onde o desemprego nos campos empurra as pessoas para a brutalidade nas cidades.

A violência é coreografada e limitada ao essencial, sem cair em excessos. Com 44 anos, Charles Bronson ainda ostentava um físico invejável e a esposa que roubara a David McCallum (com quem contracenou em A Grande Evasão, de 1963), Jill Ireland. Walter Hill declarou em 2006 que teceu críticas à actuação da actriz e que Bronson nunca mais quis trabalhar com ele. Hill, por seu lado, chegou até 1988 quase sem acidentes de percurso (entre os êxitos, contam-se 48 Horas, Estrada de Fogo e Inferno Vermelho), mas nos anos ‘90 a sua popularidade decaiu com os fracassos de Outras 48 Horas (1990), Geronimo (1993) e O Último A Cair (1996). Não voltou a recuperá-la.

O Lutador de Rua tem sido plagiado ao longo dos tempos, os mais recentes dos quais Sucker Punch (2008) e Fighting – A Lei das Ruas (2009), mas o único digno de nota será AWOL – O Legionário (1990), com um Van damme em topo de forma. Gordon Alexander, o protagonista de Sucker Punch, também o foi em Os Purificadores (2004), considerado um plágio de The Warriors, de Walter Hill (1979).

Hard times 1975

Terça-feira, Novembro 10, 2009

Rudo & Cursi, de Carlos Cuarón

Dois irmãos que trabalham na apanha da banana são descobertos por um agente de futebol e iniciam carreiras promissoras, um como avançado e outro como guarda-redes, em equipas diferentes. Um deles sonha ser cantor, mas «tem a paixão sem ter o talento», como diria o agente, que é narrador em voz off (um versátil Guillermo Francella), e o outro perde uma grande soma ao jogo. No final, as equipas de ambos confrontam-se, mas o avançado está no banco por ter causado distúrbios no hotel e o guarda-redes tem de perder a partida para pagar as dívidas. Previsões?

Rudo & Cursi é um fiasco de proporções galácticas. Mais do que uma fita sobre futebol, é uma história de irmãos. E não só por causa dos protagonistas, mas porque foi escrito e dirigido por Carlos Cuarón, irmão de Alfonso, o realizador de Y Tu Maman Tambien, que escreveram juntos. Esse filme lançou internacionalmente Alfonso Cuarón e os actores Diego Luna e Gael Garcial Bernal, aqui repescados. Para Carlos Cuarón, que até à data só dirigira uma mão cheia de curtas metragens (escritas por si), Rudo & Cursi é um duplo tiro no pé; não extrai o menor lampejo de talento a Luna e Bernal e porque torna claro que só há um irmão com talento na família. Mais do que aborrecido, Rudo & Cursi é irritante. Os personagens não são empáticos e as reviravoltas da trama são desinteressantes em espiral descendente. O epílogo, então, é de bradar aos céus.

Deve ter sido duro prestar contas aos desiludidos produtores, todos eles com provas mais do que dadas no celulóide: Alfonso Cuarón (Harry Potter e O Prisioneiro de Azkhaban), Guillermo Del Toro (O Labirinto do Fauno) e Alejandro González Iñárritu (Babel).

Rudo & Cursi 2008

As Colinas de Sangue, de Dave Parker

As Colinas de Sangue começa com uma ideia minimamente inspirada e curiosa, o que no panorama actual quase passa por original, e isso que dá vontade de abordá-lo numa nota positiva, mas rapidamente se percebe que as estrelas de um hotel não podem contabilizar-se pela apresentação do átrio, quando o elevador não funciona, as escadas não têm luz e os quartos não são arejados.

Um estudante de cinema (Tyler) decide fazer um documentário sobre um filme maldito de 1982, um slasher do tipo Sexta Feira 13 (1981), retirado das salas devido a protestos populares. A não existência de cópias e o desaparecimento de todos os envolvidos na rodagem desperta o interesse, tanto mais que a única prova de que tal filme alguma vez existiu é um trailer grosseiro a flutuar na internet. Após encontrar a filha do realizador, uma criança à data da rodagem, Tyler reúne a sua equipa (o melhor amigo e a namorada) e os quatro seguem em busca dos locais de filmagens e das bobinas originais.

Dave Parker começa o filme de modo promissor. Uma legendagem sinistra, ao jeito da de Massacre No Texas (1974), a situar a acção face ao mistério da fita perdida, entrecortando o relato com uma criança a retalhar o próprio rosto, com efeitos visuais suficientemente credíveis para se querer mais. Fastforward para o presente e a impetuosidade do estudante de cinema, decidido a recolher o máximo de elementos sobre o filme The Hills Run Red para o seu documentário. São situados os personagens e as diversas motivações. Segue-se a viagem. Vulgariza-se a trama. Entorna-se o caldo.

A ideia de um filme retirado de exibição devido a piquetes de protesto pelo seu conteúdo não é insólita, sendo notório o caso de Silent Night, Deadly Night (1984), em que comissões de pais se opuseram ao facto de o assassino se vestir como Pai Natal. Referência incontornável é também a lista dos video nasties inglesa, em que o BBFC (Entidade que classifica filmes e vídeos na Grã-Bretanha) baniu ou exigiu cortes a dezenas de filmes, que eram inclusivamente confiscados de clubes de vídeo.

As Colinas de Sangue peca, infelizmente, por desfazer a inventividade inicial numa poça de trivialidades. Primeiro, começam a surgir inconsistências e por fim os dois twists adivinham-se com incrível antecedência. Entre as fragilidades, a filha do realizador maldito, em adulta interpretada por Sophie Monk (é muito parecida com a actriz pornográfica Sylvia Saint), não aparenta sequer a idade do celulóide (a actriz tinha 3 anos em 1982); é feito o desmame involuntário a uma toxicómana numa curta montagem, após o qual ela fica totalmente restabelecida (no motel onde tem lugar a intervenção, nem gerente nem camareiras interromperam o processo, independentemente dos gritos da drogada); o melhor amigo e a namorada de Tyler têm sexo na ausência dele e o facto não volta para assombrá-los, o que torna a cena totalmente dispensável.

Apesar dos defeitos, As Colinas de Sangue apresenta um maníaco icónico, que devia ter sido melhor aproveitado. De seu nome Babyface, ostenta uma máscara que está ao nível das de Michael Myers, Jason Voorhees e Leatherface. A carantonha conjuga o rosto de um bebé de porcelana com a mandíbula inferior visivelmente deslocada, dentes podres e, claro, uma careca com meia dúzia de fios de cabelo, porque nenhum monstro de baixo orçamento usa Dercos. Duas cenas acima da média merecem referência em relação a esta criatura. Ao contrário do comum dos maníacos do bosquedo, que só usa armas brancas, Babyface dispara casualmente sobre uma vítima que o defronta munida de flares, lembrando Indiana Jones e o árabe com duas espadas (Salteadores da Arca Perdida, 1981). Após ficar estabelecido pelo seu modo de deslocação e mutismo que é atrasado mental, ele sai-se com uma deixa absolutamente surpreendentemente: para tentar acalmá-lo, uma vítima embála-o com uma canção infantil, que parece fazer algum efeito, pela maneira como ele posiciona a cabeça; inesperadamente, ouve-se através da máscara, em tom perfeitamente normal: «Podes continuar a cantar, se te faz sentir melhor». Mas a deixa é claramente um add-on em pós-produção, porque o personagem não diz absolutamente mais nada, nem quando se debruça sobre a mãe assassinada, no seu momento Bambi.

Assim como Tarantino foi buscar o título de Inglorious Basterds ao nome alternativo de um obscuro filme de guerra italiano dos anos 60, também The Hills Run Red já foi um western de 1966. Eu teria preferido The Rivers Run Red, pela sonoridade mais completa, tanto mais que há rios que correm por entre zonas florestais, mas enfim. Se Dave Parker tivesse arriscado mais e filmado no estilo camp de Tobe Hooper, As Colinas de Sangue podiam ter atingido, na recta final, o pretendido nível de pesadelo, que só por inépcia nem sequer orlam. Os actores, apesar de não desmerecerem, também não são a mais fina flor. O único veterano da película é William Sadler, que nunca foi grande actor e a quem falta intensidade. Tad Hilgerbrink (Tyler) falha na cena mais exigente, em que deveria enlouquecer, como consequência do seu momento Laranja Mecânica sem pinças nos olhos (em Terror na Ópera, Dario Argento mimetizara o método de Kubrik com a simplicidade de um adesivo com agulhas). Pelos seus defeitos, As Colinas de Sangue ficam mais próximas de Hatchet (2006) do que de Sexta Feira 13. E fica por entender a razão para ter sido filmado na Bulgária, quando há bosques como aquele em todo o lado.

The Hills Run Red 2009

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

Feel The Noise, de Alejandro Chomski

Sente o Ruído é o título do filme e a sua essência. É ruído enquanto história, música e dança. Aliás, a dança não chega a ser ruído, mas estática, porque tirando uma casual coreografia de meio minuto numa discoteca, está ausente. O enredo é esquemático e cravejado de clichés. Um jovem aspirante a rapper mete-se em sarilhos no Bronx e é recambiado para Porto Rico, para viver com o pai que não conhece. Aí, ao lado do meio irmão, mistura rap com reggaeton, o hip hop do território, e tenta lançar-se no mundo discográfico; a namorada é quem lhe consegue a entrevista e o produtor o que quer é aproveitar-se da jovem; o ex-namorado (?) dela também faz asneiras. Sem ímpeto, estamina ou música que fique no ouvido, Feel The Noise é um projecto estagnado e sem o menor mérito.

A estreia de Omarion Grandberry (jovem cantor de R&B que já foi vocalista dos B2K) na 7ª Arte não podia ter sido menos auspiciosa. O contributo de Giancarlo Esposito e de Zulay Henao, também na representação, é muito pequeno: ele tem o peso do mundo no olhar e ela é bonita.

Entre as idiotices sem sentido do argumento, está a cena em que o protagonista ajuda um vizinho (disseram-lhe que era alguém capaz de abrir portas) a escapar à polícia, mas tal vizinho não volta a aparecer, ficando assim apenas a imagem do herói a promover a fuga de um criminoso que não conhece nem sabe o delito que cometeu. O ex-namorado (?) da namorada do herói jura vingança por este a ter arrematado e espanca tresloucadamente a secundaríssima madrasta do herói; a vingança é o pai que a combina, realizando-se sem a presença de nenhum personagem (um grupo de desconhecidos cerca o agressor e brutaliza-o), não voltando a falar-se do assunto.

Feel The Noise 2007

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Flirting With Forty, de Mikael Salomon

Telefilme do canal norte-americano Lifetime TV (canal com programação dirigida ao público feminino), Flirting With Forty estreou a 6 de Dezembro de 2008, com 4 milhões de espectadores. Baseado no romance autobiográfico de Jane Porter, vive da paixão de uma divorciada com dois filhos por um instrutor de surf treze anos mais novo, que conheceu no Havai, na véspera de fazer 40 anos de idade. O mais interessante é que a actriz escolhida para interpretá-la, a invejável Heather Locklear, já tinha 47 anos ao tempo da produção.

Conhecida nos anos 80 e 90 pelas séries Dinastia, T.J. Hooker, Melrose Place e Spin City, a actriz, que foi casada com Tommy Lee (baterista dos Motley Crue) e com Richie Sambora (guitarrista dos Bon Jovi), vai regressar à sua personagem de Melrose Place ao fim de 10 anos (a série foi cancelada em 1999 e regressa em 2009, a par de Beverly Hills 90210). Em Flirting With Forty, a sua personagem transita dos 39 anos para os 40 anos, numa altura em que a actriz já deve questionar-se sobre como serão os 50, o que é bastante curioso, porque ainda assim a história não perde naturalidade. Apesar da idade, Heather apresenta ainda um corpo bastante atraente e sem osteoporose, já que a vemos efectivamente testar as ondas na prancha do namorado, com diversas quedas à mistura. Tal parece provar que uma dieta de cocaína e álcool poderá ser recomendável para recuperar a juventude às mães do mundo inteiro. Diagnosticada com depressão e ansiedade, a actriz esteve internada numa clínica de reabilitação, para tratar essas duas dependências, entre Março e Julho de 2008. O pior é que também decidiu medicar as bochechas com botox (e os lábios com colagénio), caindo no exagero da overdose.

Ao lado de Heather Locklear está Robert Buckley, conhecido da série Lipstick Jungle, onde tinha um caso com Kim Raver, ela sim com 39 anos. Buckley tem um físico invejável e passa por instrutor de surf, sendo descontraído nos seus afectos pela protagonista (e não mente na idade: actor e personagem têm 27 anos). Na verdade, o filme vê-se de uma assentada, com boas prestações por parte do elenco de suporte (Vanessa Williams também apresenta uns invejáveis 45 anos).

Mikael Salomon é um prolífico director de fotografia e um experiente realizador de TV. A sua carreira não despontou como se esperava depois do interessante Águas Mortíferas (1998), mas pelo menos tem sido responsável por mais pilotos do que episódios do meio, o que significa que apostam nele para lançar séries (The Agency, Young Arthur, The Grid); e tem algumas mini-séries (Salem’s Lot, The Company, The Andromeda Strain) no currículo. Aqui, com uma perna às costas, filma o romance e os entraves de uma relação de sonho. Os problemas estão lá (o ex-marido, os filhos, o trabalho, a distância de 6 horas de deslocação ao Havai de cada vez que visita o namorado), mas Salomon opera a sua varinha de condão para que o tom do filme seja positivo, mantendo bem as ligeiras quebras necessárias. Além disso, sabe dar relevo aos cenários, porque a história não seria a mesma sem as praias paradisíacas de fundo.

Flirting With Forty 2008

Terça-feira, Outubro 27, 2009

Os Informadores, de Gregor Jordan

Moral da história, é tão complicado ser rico na L.A. glam de 1983, a alimentar vícios para completar o vazio, ter tudo e não saber dar valor a nada. Filme estéril sobre sombras que se passeiam num cenário acetinado sem terem ideia do que é viver, sentir ou emocionarem-se. O filme não tem personagens, apenas figurantes, e chamar às suas deambulações de interligação de narrativas é uma anedota que faria rir Robert Altman, cineasta que conjugou os contos do grande Raymond Carver ao ponto de melhorá-los (Short Cuts, 1993).

Inepto e entediante, Os Informadores revela-se incapaz de passar a mais vaga mensagem. Brett Easton Ellis, autor do argumento, especializou-se em personagens superficiais, nomeadamente em Less Than Zero (1987) e American Psycho (2000), mas aqui nem arranha a superfície. Less Than Zero, pelo menos, tinha actores à altura, com os icónicos Andrew McCarthy, James Spader (os dois tinham actuado juntos no êxito Pretty In Pink, do ano transacto, e havia química entre eles), Robert Downey Jr. e Jamie Gertz, enquanto que American Psycho contava com um ultra-musculado Christian Bale. Em vez dos temas da amizade ou obsessão dos filmes mencionados, Os Informadores fica pelo etéreo disparate da pura irrelevância.

Valha-lhe isso, o realizador Gregor Jordan não tenta enganar ninguém: logo à abertura se prenuncia o pior. Temos as roupas à Miami Vice, os olhares vítreos em rostos plásticos e um acidente de automóvel tão mal filmado que seria melhor tê-lo feito à portuguesa, só por sonoplastia. E, lá mais para o fim, tenta mostrar-se profundo por limitar-se a sugerir de que determinada figurante padece: promíscua, com manchas no corpo, cansaço e frio; sim, deve ser o síndrome da imuno-deficiência adquirida, para também não ser demasiado claro.

A única curiosidade vai para a tentativa de dar resposta à questão deixada pelo título do filme All The Boys Love Mandy Lane (Sedução Mortal, 2006). A actriz Amber Heard perdeu peso e finalmente se sentiu confiante o suficiente para concretizar o que ficou desfocado em Alpha Dog (2006). Despe-se a contento, ainda que o seu rosto seja mais atraente em Hidden Palms (2007) e Never Back Down (2008), com bochechas redondinhas. Com uma carreira em ascensão, fica uma nova dúvida: porque terá aceite um papel tão inconsistente, a não pedir mais do que topless durante metade da actuação? A presença de Brad Renfro (O Cliente, Sleepers, Ghost World e Bully) não é uma miragem. O actor morreu aos 25 anos, em Janeiro de 2008 (de overdose de cocaína), uma semana antes de Heath Ledger, o que faz deste o seu último trabalho. Apesar de Heath ter sido relembrado no espaço In Memoriam dos Óscares desse ano, dedicado às estrelas que se apagam, Renfro foi ignorado (uns dizem que foi devido à causa de morte, outros por não ser membro da Academia). Num filme onde entram Chris Isaak, Kim Basinger e Winona Ryder, Billy Bob Thornton consegue ser o mais horrendo miscast, completamente desadequado para o papel atribuído.

The Informers 2009

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