Os primeiros minutos são premonitórios. Pedro Lima tem um ar acabado, fala inglês como se imitasse Joaquim de Almeida e há retoques de sangue digital que se assemelham a uma nódoa na tela. Os actores secundários foram contratados de olhos fechados à agência de figuração NBP e o programa de computador através do qual o assassino recebe as suas ordens lembra o que Sylvester Stallone usava em 1995, no filme (nem a propósito) Assassinos.
Como é possível pedir-se o apoio do público ao cinema português, com ofertas deste calibre? Há tanta incompetência e amadorismo em Contrato que impossível será encontrar um ponto positivo. Involuntariamente anedótico, mal representado, mal montado e mal escrito, assim se estreia Nicolau Breyner na realização cinematográfica, com dinheiros da TVI e da produtora Hora Mágica e rodeado de meia dúzia de amigos de noitada.
Durante a apertada censura do Estado Novo, Dinis Machado (autor de O Que Diz Molero, 1977), enquanto director da colecção de livros de bolso Rififi, da Editorial Íbis, decidiu imitar o francês Boris Vian (que usava o pseudónimo Vernon Sullivan para o efeito) e escrever policiais que iam beber ao período fértil das décadas de 1930 a 1950, a nomes como Raymond Chandler, Dashiel Hammet e Mickey Spillane. Entre 1967 e 1968, publicou sob o pseudónimo Dennis McShade três histórias simples, desconstruindo o género negro. É o segundo destes romances, Requiem Para D. Quixote, que agora se torna película. Pedro Bandeira Freire, o fundador dos Cinemas Quarteto e da Editora Opinião, escreveu o argumento, ele que já tinha no currículo a adaptação de A Balada da Praia dos Cães (José Fonseca e Costa, 1987). O seu falecimento em 2008 (ano de morte que partilha com Dinis Machado) levou a que Álvaro Romão (em quem a Hora Mágica apostou para mais dois projectos em 2009) e Nicolau Breyner moldassem (amassassem) o resultado final.
A história, logo à cabeça, não faz o menor sentido. Um assassino a soldo comete um erro ao matar quem não devia e o seu contrato seguinte surge como uma penitência. Apesar de o luso-americano ter jurado não voltar a Portugal, tem de honrar o contrato. Ainda fresco da viagem, é agredido por desconhecidos e hospitalizado, de modo a conhecer uma enfermeira com ar de bairro que a primeira coisa que faz é esconder-lhe a pistola e a carteira, para que não sejam vistas pela polícia. A justificação? «Simpatizei consigo e achei que já tinha problemas suficientes». Simpatizar com uma polpa de sangue que chega ao hospital armado é de desconfiar, mas o herói não tem tempo para deduções quando uma mulher bonita lhe oferece as chaves da casa dela. Não, nem disto desconfia.
A inépcia do argumento prossegue. Por explicar fica a nacionalidade grega do alvo (se o herói vem a Portugal, não teria mais lógica matar um português?) e o interesse dos flashbacks. O da sua infância ainda vá, deve ser por isso que não queria voltar ao país, mas aquele que lhe causa pesadelos é um mistério. Ver Pedro Lima a sonhar com memórias do seu tempo de Marine no deserto do Iraque, de camuflado do exército norte-americano e uma M-16 com lança-granadas nas mãos, não serve o menor propósito. E quanto à vítima do sonho, quem é que confundiria um mirrado menino de 12 anos com um terrorista adulto?
Há mais. O alvo é cego, mas vai a um leilão adquirir a primeira edição do livro D. Quixote De La Mancha. Em vez de licitar ele próprio, utiliza uma funcionária de auricular para o efeito, enquanto ele permanece no balcão do primeiro andar, incógnito... mas à vista desarmada. Tão desarmada que o herói, acabado de chegar, dá logo com ele. Mas não o mata aí, por uma razão, diz ele, de estética. Mas cumpre sempre os seus contratos por uma razão de, diz ele também, ética.
Contrato é, porém, um filme sem ética nem estética. É mau na ideia e medíocre na construção, anedótico nos diálogos e ausente na acção (leia-se ausente de acção). Para filme tão nulo, nem chega a ser engraçado o comentário sarcástico de que Manoel de Oliveira não tem de preocupar-se com a sombra de Nicolau Breyner. Este dinossauro da representação (Breyner) confundiu, claramente, a dimensão de uma telenovela com a de uma película virada para o cinéfilo. Contrato não tem visão, não tem alma, não tem sequer um fio condutor plausível. Há personagens que aparecem do nada só para darem emprego a actores amigos (José Wallenstein e José Raposo) e outros que estão lá para tapar buracos: Vítor Norte representa um mecânico pé rapado que afinal é um ex-operativo do FBI com contactos activos e hacker extraordinaire nas horas vagas (é caso para dizer, quem vê caras...). Há também uma voz a chamar uma filha mongolóide, em off, que parece pertencer a Rita Blanco (uncredited).
E não se pretende com este texto indicar que o cinema português é incapaz de produzir thrillers interessantes, apenas que Nicolau Breyner não o foi. São casos louváveis de sucesso no género O Lugar do Morto (1984), de António-Pedro Vasconcelos, Duma Vez Por Todas (1986), de Joaquim Leitão, O Fio do Horizonte (1993), de Fernando Lopes e Tiro no Escuro (2005), de Lionel Vieira.
Pedro Lima é um caso flagrante de miscast. Não tem ar de duro nem sabe simulá-lo. Não tem um sotaque inglês minimamente credível e querem fazer passá-lo por veterano do Tio Sam. Também fracassa nas suas tentativas de passar por actor. Estreante no grande ecrã é igualmente Cláudia Vieira, actriz da telenovela juvenil Morangos com Açúcar e modelo de lingerie Triumph, a representar a enfermeira com a atitude menos profissional de que há memória. É rude e abusada, partilha com o herói uma pizza e a sua nudez e no final fazem juras de amor eterno com lágrimas e promessas suicidas. Inconcebível? Claro que não, ela é a mesma que lhe atira violentamente contra os hematomas a carteira que escondeu das autoridades e lhe grita, à noite e num hospital, «O que é que aqueles homens queriam de si?». Apetece ainda mencionar a eterna manequim Sofia Aparício, a quem um papel secundário dá a oportunidade de proferir frases do género «Olha, olha, a puta descobriu que afinal não é fufa» (de se lhe tirar o chapéu o facto de o ter concretizado sem perder a compostura). Infelizmente, dos actores que mais se esperava, menos se obtém: Vitor Norte em constante improviso e Nicolau Breyner em overacting.
Cláudia Vieira merece um parágrafo porque não podemos falar da sua nudez assim tão de fugida. E não podemos porque a referida foi alardeada em revistas e no trailer, e porque Soraia Chaves tem incendiado as memórias de muito bom cinéfilo desde que abriu a porta de um frigorífico em O Crime do Padre Amaro (2005) ou deixou que a sua roupa se evaporasse para o realizador de Contrato, em Call Girl (2007). Ao contrário da majestade de Soraia Chaves, porém, Cláudia Vieira revela-se púdica e mecânica no seu silicone mostrado a ferros, em imagens que não perdurarão no imaginário de quem assistiu a tal fiasco.
Em terra onde toda a gente conduz Skodas, Contrato é um fracasso a todos os níveis. Aventura sem acção, romance sem profundidade e nudez sem erotismo. Realizado em embaraçoso auto-piloto, evidencia desconhecimento sobre as regras elementares de um género cinematográfico (o film noir) que muito teria a oferecer. Onde andas tu, Zé Gato?
Contrato 2009